1 A ESPIRITUALIDADE RELIGIOSA SEGUNDO ESTANISLAU PAPCZYŃSKI E A PRIMITIVA TRADIÇÃO DA CONGREGAÇÃO DOS PADRES MARIANOS
2 STUDIA MARIANORUM • 1 REDAÇÃO: Jair Batista de Souza, MIC Leandro Aparecido da Silva, MIC Andrzej Pakuła, MIC
3 Andrzej Pakuła MIC A ESPIRITUALIDADE RELIGIOSA SEGUNDO ESTANISLAU PAPCZYŃSKI E A PRIMITIVA TRADIÇÃO DA CONGREGAÇÃO DOS PADRES MARIANOS Tradução: Mariano Kawka Cúria Geral da Congregação dos Padres Marianos Casa Editorial dos Marianos Varsóvia – Roma 2015
4 Título original: Duchowość zakonna według Stanisława Papczyńskiego i wczesnej tradycji Zgromadzenia Księży Marianów Warszawa-Lublin, 2010 © Copyright Cúria Geral da Congregação dos Padres Marianos, 2015 Revisão João Bacal MIC ISBN 978-83-7502-522-4 Impressão e encadernação: www.foto-druk.pl
5 SUMÁRIO Relaçãodeabreviaturas........................................... 7 Proêmio........................................................ 9 Prefácio....................................................... 11 Introdução..................................................... 15 I O AMOR COMO FUNDAMENTO E FONTE DA ESPIRITUALIDADE RELIGIOSA.. . . . . . . . . . . . . . . . . 25 1. Oidealdoamorsobrenatural................................... 26 2. Caminhosdocrescimentonoamor............................... 40 2.1. Imago Dei est anima tua – purificação........................ 41 2.2. Anima tua resplenduit sicut sol, a Sole increato illuminata – iluminação................................................. 54 2.3. Divina amicitia –uniãoeamizadecomDeus.. . . . . . . . . . . . . . . . . . 67 3. O amor – essência da vida comum e princípio da organização dacomunidadereligiosa....................................... 78 II O CONTEXTO TRINITÁRIO DA ESPIRITUALIDADE . . . . . . . . . . . . 91 1. DeusPainaespiritualidadereligiosa.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 93 2. Sequela Christi............................................. 100 2.1.RepresentaçõesdeCristo................................. 101 2.2. Imitação e identificação com Cristo .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 112 3. OEspíritoSanto–autordavidareligiosa.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 120
6 III O CARÁTER IMACULATISTA DA ESPIRITUALIDADE.. . . . . . . . . 131 1. A presença maternal da Virgem imaculada.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 132 2. Imitatio virtutum Beatae Virginis Mariae .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 144 3. A difusão do culto da Imaculada Conceição da SVM . . . . . . . . . . . . . . . 156 IV MEIOSDEFORMAÇÃOESPIRITUAL.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 170 1. Oração e mortificação........................................ 171 1.1.Oração................................................ 172 1.2. Mortificação ........................................... 182 2. Sacramentos............................................... 189 2.1.Penitência............................................. 190 2.2.Eucaristia.............................................. 195 3. Votosreligiosos............................................. 203 3.1.Obediência............................................. 205 3.2.Pobreza................................................ 210 3.3.Castidade.............................................. 214 V A DIMENSÃO ECLESIAL DA ESPIRITUALIDADE RELIGIOSA.. . 219 1. AimagemdaIgreja.......................................... 220 2. O ensino das verdades da fé ao povo simples.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 227 3. Suffragium defunctorum ...................................... 237 4. Sinal do reino celestial .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 248 Conclusão.................................................... 259 Bibliografia................................................... 269
7 RELAÇÃO DE ABREVIATURAS AGM : Arquivo Geral da Congregação dos Padres Marianos, Roma. CP : Christus Patiens, Septem Discursibus Quadragesimali Paenitentiae accomodatis, Devotae Piorum considerationi Propositus, ed. crít. K. Krzyżanowski MIC, Varsaviae 1998. DIP : Dizionario degli istituti di perfezione, I-VIII, Roma 1974-88. DSAM : Dictionnaire de spiritualité ascétique et mystique, I-, red. M. Viller, Paris, 1937DTKP : Dzieje teologii katolickiej w Polsce, I-III, red. M. Rechowicz, Lublin 1975-77. EK : Encyklopedia katolicka, I-, red. F. Gryglewicz et al., Lublin 1973FDR : Fundatio Domus Recollectionis, ed. crít. K. Krzyżanowski MIC. In: Scripta Historica, Varsaviae 1999, p. 75-96. IC : Inspectio cordis, Stanislai a Iesu Maria Congregationis Immaculatae Conceptionis Clericorum Recollectorum, ex Scholis Piis Praepositi – Recollectiones pro Dominicis et Festis totius anni et Menstruis exercitiis Tumulturaria [= tumultuaria?] opera consutatae, ed. crít. K. Krzyżanowski MIC, Varsaviae 2000. NV : Norma Vitae Religiosae Congregationi B. V. Mariae sine labe Conceptae Eremitarum Marianorum fidelibus defunctis praecipue Militibus et peste sublatis Suffragantium Proposita, ed. crít. K. Krzyżanowski MIC. In: Norma Vitae et alia Scripta, Varsaviae 2001, p. 11-64. OC : Orator Crucifixus sive Ultima Septem Verba Domini nostri Iesu Christi, totidem piis discursibus exposita, ed. crít. K. Krzyżanowski MIC, Varsaviae 1998. Positio : Sacra Congregatio pro Causis Sanctorum, Officium Historicum, Poznaniensis Beatificationis et Canonizationis Servi Dei Stanislai a Jesu Maria Papczyński, Fundatoris Clericorum Regularium Immaculatae Conceptionis B.V.M (+1701), Positio super Introductione Causae et Super virtutibus ex officio concinnata (Romae 1977). PRA : Prodromus Reginae Artium sive Informatio Tyronum Eloquentiae, Ed. crít. K. Krzyżanowski MIC, Varsaviae 2001. PZ : BŁ. S. PAPCZYŃSKI, Pisma Zebrane, Warszawa, 2007.
8 Regula : Regula [decem beneplacitorum] Ordinis Beatae Virginis Mariae... In: Leges marianae. Codices legis Congregationis Clericorum Marianorum ab eius fundatione usque ad mostra tempora, [Romae 1723], ed. W. Makoś MIC, Roma 1999, p. 37-55 (dat. AGM). RT : Roczniki Teologiczne, Lublin 1992RTK : Roczniki Teologiczno-Kanoniczne, Lublin 1949SH : Scripta historica, ed. crít. K. Krzyżanowski MIC, Varsaviae 1999. Statuta : Statuta Patrum Marianorum Ordinis Beatae Virginis Mariae... In: Leges Marianae. Codices legis Congregationis Clericorum Marianorum ab eius fundatione usque ad mostra tempora, [Romae 1723], ed. W. Makoś MIC, Roma 1999, p. 73-96 (dat. AGM). STV : Studia Theologica Varsaviensia, Warszawa 1963TDM : Templum Dei Mysticum quod in Homine Christiano demonstravit... Ed. crít. K. Krzyżanowski MIC, Varsaviae 1998. Vita Fundatoris : Leporini, M. Vita Fundatoris Congregationis Polonae Ordinis Immaculatae Conceptionis Beatae Mariae Virginis synoptice elucidatur. In: Positio, p. 634-650.
9 PROÊMIO Com o livro do Dr. Pe. Andrzej Pakula intitulado: A Espiritualidade Religiosa Segundo Estanislau Papczynski e a Primitiva Tradição da Congregação dos Padres Marianos iniciamos a serie editorial Studia Marianorum. O objetivo principal é a publicação dos textos científicos, teológicos e históricos que tratam do carisma dos Padres Marianos e da sua espiritualidade. Uma serie com este título já existe na província polonesa na qual já foram publicados 13 livros, dentre estes alguns muito interessantes que valem a pena serem apresentados também em outras línguas. Isto já está se fazendo na província americana em língua inglesa. A ideia de iniciar a nova série com o título Studia Marianorum em língua portuguesa é nova apesar de que alguns livros a respeito dos Marianos já foram traduzidos no passado. O incentivo se encontra ligado ao fato de que, nos últimos tempos, surgiram novas elaborações teológico-históricas que se mostram muito frutuosas depois da Beatificação do Padre Fundador Estanislau Papczynski, e também após a celebração dos 100 anos da Renovação dos Padres Marianos, e do simpósio histórico-teológico que se desenvolveu em Lichen (Polônia) a este respeito. Alguns textos são muito valiosos, sobretudo para os Padres Marianos, porém até agora, disponíveis somente em língua polonesa e inglesa. Nesta serie serão apresentados os livros, elaborações de diversos tipos entre os quais o primeiro é o livro de Andrzej Pakula. O livro é de fato a sua dissertação doutoral escrita sob a orientação do professor Pe. Jerzy Misiurek, cuja introdução é também aqui inserida. A escolha de publicar este trabalho específico não é casual, se trata do estudo analítico e teológico incluindo o contexto histórico tendo como tema principal o carisma dos Marianos. Uma reflexão teológico-histórica como esta não é somente útil, mas essencial, levando-se em conta que a Igreja nos convida a uma contínua referência ao carisma do Fundador como ponto de partida para as novas iniciativas, a fidelidade ao carisma fundacional, bem como o fundamento da identidade de cada instituto religioso. Desta forma estamos convencidos de que este livro merece ter a precedência. Uma recensão crítica bem detalhada e profunda foi escrita pelo prof. Pe. Ireneusz Werbinski e se encontra na revista Ephemerides Marianorum 2 (2013)
10 pp. 581-587, em língua inglesa. Vale a pena citar a penúltima frase do professor que diz: “Não tenho nenhuma dúvida que esta publicação (livro de A. Pakula) é obra fundamental que nos permite conhecer a escola de espiritualidade dos Padres Marianos” (P.587). Espero pessoalmente que esta série iniciada com este valioso livro, possa ser útil para uma formação mais aprofundada na província brasileira e para consolidação da identidade distintiva dos Marianos. Mas também creio que poderá ser útil para outras pessoas: os nossos amigos e colaboradores e, acima de tudo, as pessoas ligadas com a espiritualidade dos Marianos. Além disso, poderá ser de proveito também para os teólogos e históricos que venham se interessar por uma pesquisa neste campo. Pe. Jair Batista de Souza, MIC Reitor do Colégio Internacional dos Marianos. Roma, 10 de janeiro de 2015.
11 PREFÁCIO Nos tempos atuais, a problemática da vida consagrada, especialmente na teologia da espiritualidade, assume um significado cada vez maior. Esse gênero de vida, que consiste em assumir numa dimensão mais plena a consagração batismal, é um sinal da Igreja como comunidade de crentes. Na exortação pós-sinodal sobre a vida consagrada e a sua missão na Igreja e no mundo, Vita consecrata, o papa João Paulo II expressou o desejo de que toda a Igreja e, dentro dela, de maneira especial as pessoas consagradas empreendessem uma reflexão sobre a vocação religiosa e com a sua vida dessem uma resposta aos novos desafios que continuamente se apresentam. Ao mesmo tempo João Paulo II lembrava que a vida religiosa se encontra no “coração da Igreja”. Essa vida corresponde à essência da vocação cristã e da busca “de toda a Igreja – Esposa da identificação com o único Esposo” (VC 3). João Paulo II apontava, além disso, para a necessidade “da fidelidade ao carisma fundacional e à herança espiritual de todo Instituto, moldada por esse carisma” (VC 36). O conhecimento da espiritualidade das diversas famílias religiosas permite a apresentação da riqueza da Igreja como comunidade carismática enriquecida por diversos dons concedidos pelo Espírito Santo. Entre as pessoas que no século XVII enriqueceram a Igreja com uma nova forma de vida religiosa em nossa Pátria, ocupa lugar de relevo o beato Estanislau Papczyński (+ 1701), fundador da nossa primeira congregação religiosa nativa. Por isso foi bom que a tarefa de uma dissertação a respeito da problemática religiosa segundo Papczyński e a primitiva tradição da Congregação dos Padres Marianos tenha sido assumida por um mariano, o Pe. Andrzej Pakuła. De um material de fonte relativamente rico, ele trouxe à luz do dia as bases fundamentais da espiritualidade religiosa. Segundo a argumentação do Autor, a concepção da espiritualidade religiosa traçada pelo beato Estanislau Papczyński e pela primitiva tradição mariana fundamenta-se nas bases da sadia espiritualidade cristã e possui os seus traços específicos distintos. Apresentam uma grande originalidade principalmente os estatutos religiosos, isto é, a Norma vitae de Papczyński, que aborda a vida religiosa no contexto do amor cristão. Nessa concepção ocupam um lugar importante os caminhos do desenvolvimento espiritual – da purificação, da iluminação
12 e da união, que a Igreja ensina desde os tempos da antiguidade. O Autor enfatiza que, apesar da abordagem trinitária, o elemento dominante é a concentração da atenção na Pessoa de Jesus Cristo, apresentada como a norma evangélica e a fundamentação da vida religiosa. Com efeito, pelo sacrifício da Sua vida, Cristo libertou o homem do pecado, trazendo-lhe a esperança de recapitular todas as coisas n’Ele como o Cabeça (cf. Ef 1: 10). O trabalho enfatiza o caráter mariano do novo Instituto, que por Papczyński foi abordado no aspecto da Imaculada Conceição de Maria, principalmente em relação ao objetivo específico da comunidade, tendo ele entendido o mistério da conceição da Mãe de Deus nas categorias gerais que naquele tempo eram aceitas e reconhecidas pela Igreja. A monografia lembra que a espiritualidade dos marianos da primitiva tradição foi assinalada por um caráter imitativo, especialmente após a aceitação da Regra das Dez Virtudes de Maria, o que teve uma grande influência sobre a piedade mariana por eles propagada e as formas com ela relacionadas. Investigando a originalidade do pensamento do beato Estanislau Papczyński, o Autor chega à convicção de uma certa dependência do Fundador da escola de espiritualidade inaciana. Os votos religiosos, como informa, foram aceitos como a mais perfeita forma de vida cristã, cujo protótipo é a postura de Jesus Cristo. Com base no material das fontes, o Autor demonstra que também a instrução do povo simples e pobre numa linguagem a ele compreensível e o sufrágio dos falecidos, especialmente das vítimas das guerras e das epidemias, fazem parte dos objetivos básicos do novo Instituto religioso instituído por Estanislau Papczyński. Além disso, o Autor conclui que houve uma influência da espiritualidade franciscana na concepção da espiritualidade religiosa mariana. Na conclusão, com justiça afirma que, à luz das pesquisas realizadas, o beato Estanislau Papczyński é um dos mais eminentes teólogos poloneses da espiritualidade no século XVII. Parece que o Pe. Andrzej Pakuła MIC apresentou toda a problemática da espiritualidade religiosa por ele pretendida de forma clara, além de profunda e acertada. Chama a atenção o material das fontes, juntamente com as dissertações, cuidadosamente coletado pelo Autor e muito bem aproveitado. Testemunham isso, por exemplo, as detalhadas notas que completam os pensamentos desenvolvidos nos diversos capítulos. A língua polonesa utilizada no trabalho é correta, e os pronunciamentos – claros e compreensíveis. Cada capítulo é precedido de uma breve introdução, apresentando no final as apropriadas conclusões. A monografia é concreta e fundamentada, apresentando – em razão da problemática abordada – um raciocínio sutil. Os pontos de vista do beato Estanislau Papczyński e da primitiva tradição da Congregação foram interpretados corretamente e apresentados de forma clara e acessível. Vale a pena enfatizar
13 que esta monografia é extremamente importante para a história e a teologia da espiritualidade polonesa. O trabalho lança alguma luz sobre a moldagem da espiritualidade religiosa, principalmente porque Papczyński é o fundador da primeira congregação religiosa masculina na história da Polônia. Deve-se julgar que, graças a esta monografia e a outras publicações, o Pe. Andrzej Pakuła MIC é um dos melhores conhecedores da espiritualidade mariana. A presente dissertação constitui uma grande e valiosa contribuição para o desenvolvimento da história da espiritualidade, especialmente polonesa e religiosa. É uma obra fundamental para o conhecimento da formação da escola mariana da espiritualidade. Pe. Prof. Dr. Jerzy Misiurek Lublin, 17 de setembro de 2009.
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15 INTRODUÇÃO A vida religiosa, pela sua própria natureza, deve expressar os mais profundos anseios do coração humano, movido pela graça, para entregar-se inteiramente ao Deus amado acima de tudo através da profissão dos conselhos evangélicos; trata-se aqui de uma imitação mais estreita de Cristo, para com Ele identificar- -se. Desde o início da história da Igreja têm surgido variadas formas suas, apelando às palavras e ao exemplo da vida do Salvador, à doutrina dos Apóstolos, dos Padres da Igreja e dos santos de diversos tempos, que muitas vezes também foram fundadores de comunidades religiosas. A diversidade dos institutos, estimulada pelo Espírito Santo que atua na Igreja, expressa por um lado a riqueza da espiritualidade cristã e, por outro, a variedade de formas da vida religiosa e a diversificação da espiritualidade religiosa, haurindo sempre das mesmas fontes da fé, no entanto concretizada no âmbito da experiência do Fundador (muitas vezes também dos seus primeiros discípulos) e das circunstâncias históricas (religiosas, culturais, sociais) que influenciam o conjunto da comunidade religiosa. A Congregação dos Padres Marianos da Imaculada Conceição da Santíssima Virgem Maria, fundada pelo beato Estanislau Papczyński em 1673, é tanto um testemunho dessa diversidade como uma manifestação da evolução das formas. Com efeito, no tempo em que o beato Estanislau instituiu uma nova comunidade religiosa, no território da República da Polônia existiam institutos tanto do tipo antigo (monges, cônegos regulares, ordens mendicantes) como do novo tipo, ou seja, ordens do clero regular (p. ex. jesuítas, escolápios, missionários, oratorianos). Os marianos surgiram como o último dos institutos do novo tipo, quando as estruturas legais e organizacionais do clero regular já haviam sido bem antes definidas. As questões relacionadas com a biografia do Fundador dos marianos, contendo igualmente elementos da sua espiritualidade, já têm sido estudadas e foram abordadas em dissertações de valor variado. São dignas de atenção, sobretudo: o primeiro trabalho científico e ao mesmo tempo pioneiro de S. Sydry, intitulado Czcigodny Sługa Boży o. Stanisław od Jezusa Maryi Papczyński i jego dzieło w świetle dokumentów (Warszawa, 1937), a dissertação de doutorado de G. Navikevicius MIC intitulada Stanislao di Gesù Maria Papczyński (1631-1701). Scolopio e Fondatore della Congregazione dei patri mariani (Roma, 1960),
16 bem como as duas obras ultimamente publicadas: de W. Makoś MIC, intitulada O. Stanisław od Jezusa Maryi Papczyński. Badania i refleksje (Warszawa, 1998) e de T. Rogalewski MIC, intitulada Stanisław Papczyński (1631-1701). Założyciel Zgromadzenia Księży Marianów. Inspirator mariańskiej szkoły duchowości (Warszawa-Lublin, 2001); ambas em grande parte foram baseadas na posição elaborada no âmbito do processo de beatificação, intitulada Sacra Congregatio pro Causis Sanctorum, Officium Historicum, Poznaniensis Beatificationis et Canonizationis Servi Dei Stanislai a Jesu Maria Papczyński, Fundatoris Clericorum Regularium Immaculatae Conceptionis B. V. M. (+1701), Positio super introductione Causae et super virtutibus ex officio concinnata (Romae 1977). Apresenta-se um pouco pior o estado das pesquisas sobre a estrutura legal e organizacional do Instituto fundado pelo beato Estanislau Papczyński; as pesquisas até aqui realizadas são em princípio fragmentárias. A dissertação de J. Kałowski MIC, intitulada Początki mariańskiego ustawodawstwa (in: Bł. S. Papczyński, Pisma fundacyjne, Warszawa, 2007, p. 13-76), publicada em forma de introdução a Pisma fundacyjne, do Fundador dos marianos, analisa de forma bastante genérica os primeiros estatutos dos marianos e o seu relacionamento com os franciscanos reformados no contexto da agregação e da aceitação da Regula decem beneplacitorum; o trabalho de doutorado escrito em 1930 por S. Sydry, intitulado Organizacja Zgromadzenia Księży Marianów w XVII wieku, foi publicado pelo Instituto Histórico Mariano com o título modificado de: Zgromadzenie Księży Marianów w XVII wieku como a primeira parte de um livro com um título ainda diferente: Zgromadzenie Księży Marianów od założenia do odnowienia; como autores, são apresentados S. Sydry e J. Totoraitis (Puszcza Mariańska, 2004). Diante de tal complicação de registro de títulos e autores, na prática o trabalho de Sydry é difícil de ser encontrado, embora seja uma dissertação bastante valiosa para o historiador, principalmente porque uma parte dos documentos a que alude perdeu-se em consequência de incêndios nos arquivos em Varsóvia durante a II Guerra Mundial. A grande maioria das dissertações tem sido dedicada a variadas questões, geralmente de caráter teológico e de popularização teológica dos pensamentos do beato Estanislau Papczyński; na sua grande maioria, trata-se de abordagens parciais de temas em forma de artigos. Cronologicamente, a primeira é a dissertação de doutorado de K. Krzyżanowski MIC, intitulada Stanislaus a Jesu Maria Papczyński O. Imm. Conc. (1631-1701). Magister studii perfectionis (Romae 1963 – dat.), que tem o caráter de uma ordenação sistemática dos elementos da doutrina do Fundador dos marianos (mas sem levar em consideração a Inspectio cordis pois esta foi encontrada apenas em 1971), numa abordagem teológico- -moral. Apresentavam uma abordagem semelhante as pesquisas de T. Roga-
17 lewski MIC, primeiramente em parte relacionadas com Estanislau Papczyński, na publicação intitulada Teologiczne podstawy życia chrześcijańskiego w nauczaniu Zalożyciela i Odnowiciela Zgromadzenia Księży Marianów (Lublin- -Warszawa, 1996), e depois concentrando-se exclusivamente em volta dos seus escritos no livro intitulado Koncepcja życia chrześcijańskiego w pismach ojca Stanisława Papaczyńskiego (Warszawa-Lublin, 2004). Valiosas dissertações são igualmente: o livro de D. Kwiatkowski MIC intitulado Niepokalane Poczęcie Najświętszej Maryi Panny według ojca Stanisława Papczyńskiego (1631-1701), Warszawa-Lublin, 2004, que empreende uma tentativa de interpretar a doutrina do Fundador dos marianos sobre a Imaculada Conceição da SVM; o trabalho coletivo intitulado Mąż Boży: Szkice teologiczno-duszpasterskie o Ojcu Stanisławie Papczyńskim (Warszawa, 2007), contendo uma série de artigos que empreendem uma reflexão teológico-pastoral sobre a vida e a atividade do Fundador dos marianos na perspectiva da sua beatificação; as pesquisas de K. Klauza sobre Templum Dei Mysticum de Papczyński, publicadas com o título Człowiek świątynia Boga. Teologia symboliczno-ascetyczna Błogoslawionego Stanisława Papczyńskiego (em: Bł. S. Papczyński. Mistyczna świątynia Boga, Warszawa, 2007, p. 9-135), como introdução à tradução polonesa desse opúsculo. As publicações menores também existentes, em forma de artigos, abordam questões mais detalhadas, p. ex. da área da mariologia, da escatologia, da teologia da cruz, da retórica. Infelizmente, até agora não surgiu nenhum trabalho abordando a questão da espiritualidade religiosa segundo Estanislau Papczyński e a primitiva tradição da Congregação dos Padres Marianos. Na verdade, referências fragmentárias a aspectos seus podem ser encontradas nas dissertações que abordam determinadas questões biográficas ou relacionadas com o pensamento teológico do Fundador dos marianos, mas que pela sua natureza possuem um caráter marginal, inserido no âmbito da tese apresentada ou do período analisado da sua vida, e muitas vezes deixam de fora aquelas fontes que são essenciais na formação da espiritualidade do Instituto. É preciso assinalar que não se sabe de outras publicações cujo tema seja a problemática teológico-espiritual da vida religiosa nos escritos do beato Estanislau Papczyński. Da mesma forma, não existem publicações que abordassem as fontes da primitiva tradição mariana, isto é, a época do surgimento da Congregação dos Padres Marianos. Por isso a indagação fundamental sobre o conteúdo teológico-espiritual do Instituto religioso fundado há mais de trezentos anos até hoje permanece sem resposta. Essa indagação tem um significado especial sobretudo para a identidade da Congregação dos Padres Marianos. Porquanto, se os documentos da Igreja que tratam da vida consagrada apontam para a necessidade da “fidelidade ao carisma fundacional e à herança espiritual de cada Instituto moldada por esse carisma” (VC 36), uma resposta positiva
18 a esse apelo não é possível sem a descrição teológica da primitiva espiritualidade do Instituto. Também a beatificação de Estanislau Papczyński, promovida em 2007, mais de trezentos anos após a sua morte, parece confirmar o significado e a atualidade tanto do exemplo da sua vida como da mensagem em cujo âmbito se situa o Instituto por ele fundado. Além disso, as pesquisas teológicas sobre a espiritualidade dos marianos, especialmente do período inicial da sua existência, possuem um grande significado para os estudos relacionados com a história da espiritualidade católica na Polônia, pela razão de que alguns dos seus pesquisadores apresentam o ponto de vista de que Estanislau Papczyński é o autor de uma nova direção da vida interior e consideram a espiritualidade mariana como representativa – em sentido amplo – da escola polonesa da espiritualidade1. Pelas razões acima não resta dúvida de que a abordagem do tema: A espiritualidade religiosa segundo Estanislau Papczyński e a primitiva tradição da Congregação dos Padres Marianos não é apenas fundamentada, mas até necessária. O objetivo principal do trabalho é uma interpretação das fontes marianas no sentido de extrair delas as bases fundamentais da espiritualidade religiosa contidas nas fontes analisadas. Embora seja evidente que o objeto das pesquisas situa-se no âmbito da amplamente entendida espiritualidade cristã2, ele possui uma forma própria adequada ao estado de vida na Igreja. Os seus elementos característicos, relacionados com a natureza da vida religiosa e comuns a todos os institutos, tais como a consagração da pessoa, os votos religiosos, a vida comum, o testemunho público dado a respeito de Cristo e da Igreja e o afastamento do mundo3, estão impregnados do espírito do Fundador e de outros fatores, essencialmente relacionados com o surgimento da comunidade. Quais os elementos da espiritualidade religiosa que são próprios e específicos do beato 1 Cf. K. GÓRSKI. Zarys dziejów duchowości w Polsce. Kraków, 1986, p. 219; W. SŁOMKA. Duchowości szkoły. EK IV. Lublin, 1983, 316; S. URBAŃSKI. Teologia życia mistycznego. Studium polskiej mistyki (1914-1939). Warszawa, 1999, p. 9; J. MISIUREK. Polska Szkoła Duchowości. In: M. CHMIELEWSKI (red.). Leksykon duchowości katolickiej. Lublin-Kraków, 2002, p. 488; Idem. Mariańska Szkoła Duchowości. In: M. CHMIELEWSKI (red.). Leksykon dychowości katolickiej. Lublin- -Kraków, 2002, p. 488. 2 Vale a pena nesta ocasião fornecer a sua definição, contida em Encyklopedia Katolicka: “Espiritualidade cristã, forma de vida espiritual da pessoa religiosa que busca a união com Deus por Jesus Cristo, moldada e realizada de acordo com a Sua doutrina, o Seu exemplo de vida e a Sua obra salvífica no âmbito do cristianismo; envolve todas as manifestações da vida do cristão que entram no âmbito do etos cristão e que se manifestam sobretudo na religiosidade, na ascese e na mística, juntamente com as quais constitui o objeto de pesquisas de uma seção distinta da teologia”. M. DANILUK SCJ. Duchowość chrześcijańska. In: EK, t. IV, Lublin, 1983, 317. A questão da unidade da espiritualidade cristã abordada de forma um pouco diferente (como santidade cristã), mais ampla (e muito útil para os que promovem processos de canonização) é também analisada por I. WERBIŃSKI (Problemy i zadania współczesnej hagiologii, Toruń, 2004, p. 19-91). 3 Cf. M. DANILUK. Encyklopedia instytutów życia konsekrowanego i stowarzyszeń życia apostolskiego. Pojęcia, terminy, instytucje, dokumenty, czasopisma. Lublin, 2000, p. 100-101, 405.
19 Estanislau Papczyński e da primitiva tradição mariana? Quais são os seus traços fundamentais e quais os elementos que são enfatizados? De que forma eram compreendidos os elementos básicos da vida religiosa, como p. ex. a oração, os sacramentos, a ascese? Será que se pode falar de originalidade na abordagem da espiritualidade pesquisada? Eis as perguntas básicas para as quais no presente trabalho procuraremos encontrar uma resposta. O período temporal das pesquisas, além da etapa da vida do beato Estanislau Papczyński (+ 1701), é fornecido no título do trabalho como o período “da primitiva tradição da Congregação dos Padres Marianos”. Esse período envolve o tempo dos primeiros cinquenta anos de existência dessa comunidade religiosa, isto é, do ano 1673 (data da aprovação episcopal do primeiro convento mariano em Puszcza Korabiewska) até o ano 1723, quando o papa Inocêncio XIII aprovou os estatutos marianos, ou seja, a regra intitulada Regula Ordinis Beatae Virginis Mariae quam Patres Mariani Congregationis Polonae... (outro título: Regula decem beneplacitorum), bem como as constituições a ela adaptadas com o título de Statuta Patrum Marianorum Ordinis B. V. M... A decisão pontifícia encerra o período da moldagem da comunidade mariana como formação do clero regular. Porque, embora a primeira aprovação pontifícia da Congregação dos Padres Marianos tivesse ocorrido no ano 1699 (em consequência da adoção da Regula decem beneplacitorum), e em 1701 primeiramente Estanislau Papczyński tivesse professado os solenes votos religiosos diante do núncio apostólico Francisco Pignatelli, e depois – diante dele – todos os seus companheiros, não havia ainda constituições adaptadas à regra. Além disso, a Norma vitae, escrita já em 1672, nos planos do Fundador dos marianos devia ser a norma básica e única do novo Instituto, de acordo com o princípio então adotado na Igreja “constitutiones pro regula”4 – apesar das exigências legais formalmente diversas. No entanto as circunstâncias relacionadas com a formação da nova comunidade forçaram em breve Estanislau Papczyński a adaptar a Norma vitae ao estado eremítico em que inicialmente surgiu a Congregação dos Padres Marianos; a Norma vitae (impressa em 1687), como tal, foi corrigida e aprovada pelo cardeal Leandro Colloredo, em 1694, e o seu texto, que hoje conhecemos, é uma versão adaptada justamente a essa situação. Com o tempo verificou-se igualmente que se tornava necessária a adoção de uma regra reconhecida pela Igreja. O Fundador dos marianos faleceu no ano 1701 e já não teve tempo para adaptar a Norma vitae à Regula decem beneplacitorum adotada, o que era uma exigência indispensável, e essa obra já foi realizada pelos seus sucessores. 4 Cf. J. KAŁOWSKI MIC. Początki mariańskiego ustawodawstwa. In: Bł. Stanisław PAPCZYŃSKI. Pisma fundacyjne, introd. A. PAKUŁA MIC-J. KAŁOWSKI MIC, trad. K. KRZYŻANOWSKI MIC. Warszawa, 2007, p. 62.
20 As fontes para a realização das pretendidas pesquisas são sobretudo os escritos do beato Estanislau Papczyński dirigidos aos religiosos, entre os quais aqueles estreitamente relacionados com o surgimento da Congregação dos Padres Marianos5. Neste ponto é preciso observar que nos últimos anos todas as obras preservadas do Fundador dos marianos foram editadas criticamente por empenho de K. Krzyżanowski MIC e, a seguir, com o esforço de um grupo de tradutores com a redação de A. Pakuła MIC, publicadas num único volume intitulado Pisma zebrane (Varsóvia, 2007). Dentre os escritos do beato Estanislau que abordam questões relacionadas com a espiritualidade religiosa importa mencionar: Norma Vitae Religiosae Congregationis B. V. Mariae sine labe Conceptae Eremitarum Marianorum fidelibus defunctis precipue Militibus et peste sublatis Suffragantium Proposita et ab Eminentissimo et Reverendissimo Domino Leandro Cardinali Colloredo ex Commissione Sacrae Congregationis Regularium et Episcoporum Correcta Romae Anno Domini 1694 (publicação crítica latina em: Norma Vitae et alia Scripta, Varsaviae, 2001, p. 11-64; edição polonesa: Reguła życia, trad. K. Krzyżanowski MIC, em: Bł. S. Papczyński, Pisma zebrane, Warszawa, 2007, p. 33-76), ou seja, os primeiros estatutos marianos contendo os ideais principais do Instituto dos marianos, adaptando no entanto o estilo de vida descrito ao estado eremítico, no qual no ano 1694 viviam os marianos. Além disso, chama a atenção a Inspectio cordis, Stanislai a Jesu Maria Congregationis Immaculatae Conceptionis Clericorum Recollectorum, ex Schollis Piis Praepositi – Recollectiones pro Dominicis et Festis totius anni et Menstruis exercitiis tumulturaria opera consutatae [1679-85) (edição crítica latina: Varsaviae, 2000; edição polonesa: Wejrzenie w głąb serca, trad. W. Makoś MIC, em: Bł. S. Papczyński, Pisma zebrane, p. 595-1063), obra direcionada exclusivamente a religiosos, abordando em forma de meditações (antes e após a santa Comunhão, e ainda como meditações temáticas ou diárias) as questões fundamentais da vida com Deus com o objetivo de alcançar a perfeição religiosa. Além disso, possui um grande significado para o nosso tema a Oblatio (edição crítica latina em: Scripta Historica, Varsaviae, 1999, p. 25-30; edição polonesa: 5 Na presente dissertação tanto Norma Vitae como Statuta, por serem obras legais, estão sendo citados de acordo com os capítulos e pontos. Porém, já que o autor refere-se a uma tradução concreta então, no índice de abreviações enumera essa mesma tradução. Por vezes fez-se necessária a versão original, em latim, por isso também essa versão aparece no índice. Os textos de Statuta, citados ao longo da dissertação são sempre da tradução própria do autor, pois existe apenas a versão em latim. O mesmo acontece também com a Regula decem beneplacitorum, pois o texto em polonês contido em PZ não corresponde à versão de 1723. Então todas as citações da Regula também são de tradução própria do A. Pakula que cita a Regra de acordo com as páginas (e não capítulos e pontos – como ocorre com Norma Vitae ou Statuta), pois na versão de 1723 não existe divisão em pontos, há somente capítulos e, ainda, bastante extensos. Tratando-se das citações da Norma Vitae, via de regra, o autor apresenta a tradução contida na PZ. Porém, às vezes aparece a tradução própria e/ou texto na língua original (obs. do Autor).
21 Ofiarowanie siebie, trad. K. Krzyżanowski MIC, em: Bł. S. Papczyński, Pisma zebrane, p. 1421-1423) – o primeiro ato público do beato Estanislau Papczyński declarando a vontade de fundar a Congregação dos Padres Marianos e definindo o seu objetivo principal, bem como Fundatio Domus Recollectionis (edição crítica latina em: Scripta Historica, Varsaviae, 1999, p. 75-96; edição polonesa: Założenie domu skupienia, trad. K. Krzyżanowski MIC, em: Bł. S. Papczyński, Pisma zebrane, p. 1454-1469) – documento que descreve os primórdios do Instituto dos marianos e as primeiras iniciativas de fundação do beato Estanislau. No trabalho será também feita referência a outros escritos menos importantes do beato Estanislau Papczyński, que ocupam um lugar importante no processo do surgimento da Congregação dos Padres Marianos e da moldagem da sua espiritualidade religiosa. Da mesma forma, dependendo das necessidades das pesquisas e no contexto da análise de determinados temas teológicos, será preciso fazer alusão a outros escritos do Fundador dos marianos, que, embora não sejam diretamente direcionados aos religiosos, entretanto permitem compreender melhor as questões teológico-espirituais que algumas vezes são apenas mencionadas nos escritos religiosos, mas que ocupam um lugar de relevo na concepção da espiritualidade religiosa. Trata-se aqui principalmente de Templum Dei Mysticum quod in homine Christiano demonstravit R. P. Stanislaus a Iesu Maria Presbyter Polonus (edição crítica latina: Varsaviae, 1998; edição polonesa: Mistyczna świątynia Boga, trad. W. Makoś MIC, em: Bł. S. Papczyński, Pisma zebrane, p. 1065-1188) – um tratado que apresenta o modelo de santidade para todos os estados de vida na Igreja na simbologia do homem como templo místico de Deus. São igualmente importantes dois escritos que contêm sermões (meditações) sobre a paixão de Cristo e que extraem dela conclusões para a vida cristã: Orator Crucifixus sive Ultima Septem Verba Domini nostri Iesu Christi, totidem piis discursibus exposita per R. P. Joannem Papczyński, Presbyterum Polonum (edição crítica latina: Varsaviae, 1998; edição polonesa: Ukrzyżowany Mówca, trad. R. R. Piętka MIC, em: Bł. S. Papczyński, Pisma zebrane, p. 11891263) e Christus Patiens, Septem Discursibus Quadragesimali Paenitentiae accomodatis, Devotae Piorum considerationi Propositus per Patrem Stanislaum a Iesu Maria Sacerdotem Polonum (edição crítica latina: Varsaviae, 1998; edição polonesa: Chrystus cierpiący, trad. R. R. Piętka MIC, em: Bł. S. Papczyński, Pisma zebrane, p. 1265-1334). Os documentos da primitiva tradição da Congregação dos Padres Marianos formam o segundo grupo de fontes e nos últimos anos também estes foram publicados, ainda que a qualidade das suas edições seja variada. A Vita Fundatoris Congregationis Polonae Ordinis Immaculatae Conceptionis Beatae Mariae Virginis, escrita por volta de 1705 por Mansueto Leporini OFM-Ref. está contida na documentação do processo de beatificação e foi criticamente
22 editada em Positio (p. 634-650). Trata-se da primeira biografia, bastante curta, de Estanislau Papczyński, escrita logo após a sua morte, basicamente composta cronologicamente, representando tanto os fatos da sua vida como as virtudes e as graças extraordinárias; possui um caráter de narrativa, na qual o constante ponto de referência é a perspectiva da fé e do crescimento na santidade da personagem apresentada. Outros documentos importantes das fontes da tradição mariana são os estatutos religiosos aprovados no ano 1723 pela Santa Sé. Estes foram publicados (em forma datilografada) por W. Makoś MIC com o título de Leges marianae. Codices legis Congregationis Clericorum Marianorum ab eius fundatione usque ad nostra tempora (Romae, 1999). Trata-se de: Regula decem beneplacitorum, abordada como Regula Ordinis Beatae Virginis Mariae quam Patres Mariani Congregationis Polonae... (em: Leges Marianae..., p. 41-55), bem como Statuta Patrum Marianorum Ordinis B. V. M... (em: Leges marianae..., p. 73-96), isto é, as constituições religiosas. Neste ponto é preciso enfatizar que a Regula decem beneplacitorum traduzida para a língua polonesa e publicada em Pisma zebrane com o título Reguła dziesięciu upodobań, czyli dziesięciu cnót Błogosławionej Dziewicy Maryi (em: Bł. S. Papczyński, Pisma zebrane, p. 1526-1543) está baseada na versão latina da regra, publicada juntamente com as Constituições marianas em 1930, e contém mudanças em comparação com a regra publicada em 1723, na qual se baseia o presente trabalho. As diferenças, embora não atinjam a essência do conteúdo do documento, algumas vezes são importantes e dignas de atenção. Por exemplo: o “Prologus” da regra de 1723 fornece: “necesse habeatis ea scire, quae Evangelio dicit Virginem habuisse, cogitasse, dixisse vel fecisse. His quatuor modis offertur in Evangelio vobis Virgo...”, ao passo que a versão de 1930 fornece: “necesse habeatis ea scire, quae Evangelio dicit Virginem cogitasse, dixisse vel fecisse. His tribus modis offertur in Evangelio vobis Virgo...”. Foi deixada de lado a palavra relacionada com aquilo “que possuía (‘habuisse’) Maria” e, por consequência, chamando a atenção para a “tríplice forma” da apresentação de Maria, no lugar da “quádrupla”. É preciso também acrescentar que a regra na versão de 1723 está mais próxima do texto da regra aprovada pela Santa Sé em sua versão definitiva em 1517 (as aprovações anteriores da regra são as de: Alexandre VI em 1502 e Leão X em 1515)6. A necessidade de levar em conta ambos os estatutos religiosos do ano 1723 parece ser indispensável para a compreensão da espiritualidade religiosa dos marianos, embora seja necessário observar que, entre as obras que têm abordado 6 Cf. Règles successives des Soeurs de l’Ordre de la Vierge Marie. 1502-1515-1517. Texte latin et traduction Française-Néerlandese. Westmalle-Peyruis, 2002, p. 1-10, 53-73, 123-129; Constitutiones Congregationis Clericorum Marianorum, Romae, 1930, p. 331-347.
23 a questão tanto da identidade quanto da espiritualidade mariana, ela tem sido abordada mui raramente. Com certeza se trata de uma tendência das últimas décadas, absolutamente não ditada pela renovação da Congregação dos Padres Marianos realizada pelo beato Jorge Matulewicz e pelos seus companheiros no início do século XX. Os primeiros reformadores tinham uma profunda consciência da história e da herança dos marianos, que se expressa, por exemplo, na Carta circular para as Constituições da Congregação renovada de 1933, na qual Franciszek Bucys MIC, que exercia então o cargo de superior geral dos marianos, escrevia: “A segunda parte deste livro [isto é, das Constituições] [... ] compõe-se de numerosos suplementos, o primeiro dos quais é constituído pela Regra das dez virtudes. Dessa regra a nossa Congregação tem haurido o seu espírito durante um tempo bastante longo; embora não tenha sido escrita pelo nosso Fundador, o Venerável Servo de Deus Estanislau de Jesus Maria Papczyński, ela preservava o espírito dele e dos seus filhos. Embora agora não tenha força legal, ela deve ser um agradabilíssimo alimento da nossa comunidade, para que possa moldar em nós essas dez virtudes amadas pela Santíssima Virgem Maria. Da mesma forma que a ordem de S. Benedito respeita a sua Regra, também nós devemos apreciar e amar a Regra das dez virtudes”7. Além dos mencionados documentos, será indispensável também recorrer a outras fontes da primitiva tradição da Congregação dos Padres Marianos, que encerram valiosas informações para a realização do tema. Além disso, será igualmente oportuno fazer referência à biografia de Estanislau Papczyński, importante na história dos marianos, de autoria de K. Wyszyński, intitulada Vita Venerabilis Servi Dei Patris Stanislai a Iesu Maria qui Congregationem Religiosorum Marianorum [...] instituit, composita per Patrem Casimirum Wyszyński (1754) (em: Positio, p. 660-717; texto polonês em: Stróż duchowego dziedzictwa marianów. Wybór pism o. Kazimierza Wyszyńskiego, trad. e red. Z. Proczek MIC, Warszawa-Stockbridge, 2004, p. 49-142). Esse opúsculo, embora não faça parte do período analisado, possui um significado especial: é a primeira interpretação conscientemente realizada da vida do Fundador dos marianos, da espiritualidade e da natureza do Instituto por ele fundado e das conclusões práticas daí decorrentes para a atividade dos marianos; o todo é abordado numa forma hagiográfica. No presente trabalho será adotado o método apropriado às pesquisas da área da teologia e história da espiritualidade, isto é, a análise das fontes e das dissertações relacionadas com a questão pesquisada, bem como a ordenação dos conteúdos em forma de exposição dos ideais teológicos básicos nelas contidos; em razão do propósito de localizar as pesquisas no contexto histórico e da eventual 7 F. BUCZYS MIC. Pismo okólne do Konstytucji. In: Konstytucje Zgromadzenia Księży Marianów pod wezwaniem Niepokalanego Poczęcia Najświetszej Maryi Panny. Kraków, 1933, p. XIV.
24 descoberta da originalidade dos pontos de vista analisados, os resultados das pesquisas, pela adoção do método comparativo, serão algumas vezes relacionados com a situação geral da espiritualidade polonesa do período analisado. Visto que o material das fontes é constituído por escritos surgidos unicamente em língua latina, para a extração do significado dos pronunciamentos adotados nos documentos e para uma interpretação mais precisa do sentido neles contido – inclusive implicite – a língua primordial de referência no trabalho é a língua original das fontes, ainda que uma parte delas já tenha sido traduzida para a língua polonesa; por essa mesma razão, nesta dissertação serão citados os conceitos característicos originalmente latinos ou expressões que aprofundem o sentido teológico das questões apresentadas. A problemática da dissertação será apresentada em cinco capítulos. O primeiro capítulo será dedicado às pesquisas sobre o amor compreendido como fundamento e fonte da espiritualidade religiosa: após a discussão do ideal do amor sobrenatural, serão apresentados os caminhos de crescimento nele na concepção clássica (purificação, iluminação, união) e a seguir o seu significado essencial para a vida comum e a organização da comunidade religiosa. O objeto de reflexão do capítulo segundo será uma tentativa de interpretação do contexto trinitário da espiritualidade religiosa segundo os documentos pesquisados, ou seja, a apresentação de Deus Pai e as marcas do relacionamento da pessoa religiosa com Ele, a seguir a descoberta dos traços característicos do relacionamento com Cristo na perspectiva da Sua imitação (sequela Christi) e da identificação com Ele, bem como a indicação do papel autoral do Espírito Santo na iniciação da vida religiosa na dimensão comunitária ou individual. No capítulo terceiro será abordada a questão do relacionamento com Nossa Senhora numa perspectiva imaculatista, de maneira especial a Sua maternal presença, a imitação das Suas virtudes e a realização do objetivo fundamental para o qual foi instituído o Instituto. No capítulo quarto serão analisados os meios de formação da espiritualidade religiosa, claramente acentuados nos documentos pesquisados, a saber: a oração e a mortificação, o significado dos sacramentos da penitência e da Eucaristia, os votos religiosos da obediência, pobreza e castidade. O propósito do capítulo quinto é uma tentativa de interpretar a espiritualidade religiosa na dimensão eclesial. Em relação com isso, será empreendido um esforço de interpretar a imagem da Igreja à luz das fontes analisadas, de definir o significado e o âmbito do serviço à Igreja, especialmente do ensino cristão ao povo simples e do sufrágio dos falecidos pela oração e penitência e, finalmente, de extrair o significado da vida religiosa como sinal do reino celestial. A conclusão conterá uma síntese dos resultados das pesquisas, bem como as conclusões delas decorrentes para a teologia da espiritualidade, tanto no âmbito da Congregação dos Padres Marianos como na história da espiritualidade polonesa.
25 Capítulo I O AMOR COMO FUNDAMENTO E FONTE DA ESPIRITUALIDADE RELIGIOSA Em todos os escritos de Estanislau Papczyński, bem como em outros importantes documentos da primitiva tradição da Congregação dos Padres Marianos, é perceptível o caráter central do amor sobrenatural como o conteúdo essencial para a consolidação da espiritualidade religiosa. No primeiro capítulo de Norma Vitae o Fundador dos marianos formulou o objetivo geral e específico da nova comunidade, e logo a seguir apontou para o amor sobrenatural (“charitas”) como o meio para a sua realização. Convém assinalar que tal abordagem distingue-se por uma forma bastante original de ver a vida religiosa, expressa igualmente na forma legal, que são as constituições religiosas, e na ênfase conferida aos conteúdos espirituais, evangélicos. Sem dúvida pode-se julgar que essa é uma contribuição pessoal de Papczyński em sua concepção de comunidade religiosa, visto que “até o final do século XIX nem a prática nem a Santa Sé haviam formulado quaisquer esquemas relacionadas com a elaboração de constituições religiosas”1. O Pe. J. Kałowski MIC acredita, além disso, que tal construção da Norma vitae sugere que Papczyński podia ter-se baseado em estatutos religiosos anteriores, p. ex. na regra de S. Agostinho, nas constituições dos camáldulos ou ainda na regra do convento Ferriolacensis, ainda que todas essas abordagens situem o amor num plano ulterior, conferindo-lhe um significado algo diferente. Os demais escritos de Papczyński que abordam a questão da espiritualidade religiosa apresentam de forma semelhante a questão do amor, enfatizando o seu significado fundamental na visão conjunta da espiritualidade religiosa, o que diz respeito tanto a Inspectio cordis como às obras secundárias2. Da mesma forma 1 J. KAŁOWSKI MIC. “Norma vitae”. Pierwsze konstytucje Zakonu Marianów. Prawo Kanoniczne 26 (1983), n. 3-4, p. 122. 2 Neste ponto parece ser necessário observar que a questão do amor sobrenatural como objetivo essencial da vida religiosa tem para Papczyński uma dimensão não apenas teórica, programática, mas ao mesmo tempo vital e prática, isto é, relacionada também com ele mesmo. No período da disputa escolápia, que provocou o seu afastamento da Ordem das Escolas Pias e a fundação de uma nova comunidade religiosa, um dos motivos fornecidos por Papczyński para o seu afastamento é o amor à vida
26 também o autor da Regula decem beneplacitorum concentrou a perspectiva da vida evangélica a exemplo de Maria em torno do amor como ponto de referência das pessoas religiosas. O conceito do amor deve ser entendido de forma adequada e por isso exige uma explanação e uma definição; esse ideal possui um significado que regula a correta compreensão do crescimento pessoal na vida espiritual em forma de um caminho em que são superadas sucessivas etapas, desde a purificação, pela iluminação até a união e a amizade com Deus, que é Amor (cf. 1Jo 4: 8), assumindo no final um caráter social, que organiza a vida da comunidade religiosa. Importa também observar que as acima mencionadas dimensões do amor, abordado como fundamento e fonte da espiritualidade religiosa, ainda que claras atualmente, não são apresentadas de forma inteiramente sistematizada, nem nos escritos do Fundador nem em outros documentos da primitiva tradição dos marianos. 1. O ideal do amor sobrenatural O ideal do amor evangélico – “charitas”, como uma espécie de projeto de vida religiosa, foi claramente apresentado por Papczyński no segundo capítulo de Norma vitae. Em torno do amor ele concentra a espiritualidade religiosa também na dimensão exterior, organizacional e jurídica. Essa forma de ver a vida religiosa torna-se mais visível se for levada em conta toda a construção dos primeiros estatutos religiosos dos marianos, propostos pelo Fundador, onde, na análise dos diversos aspectos da vida religiosa, lembra ele que o amor de Deus deve ser a única motivação e ao mesmo tempo o objetivo de todas as aspirações de um religioso. No entanto Papczyński não forneceu, nem em Norma vitae nem em qualquer outra obra, qualquer definição do amor, ou mesmo uma descrição que pudesse cumprir esse papel. Em consequência, o conceito do amor nele não é unívoco; escrevendo as suas obras em língua latina, utiliza-se também de diversos termos para a sua definição (“charitas”, “dilectio”, “amor”, bem como dos verbos “amare” e “diligere”), mas confere-lhes propriamente o mesmo religiosa (”charitas”). Isso é confirmado igualmente pelo decreto sobre o heroísmo das virtudes, o qual informa que “impregnado, no entanto, de autêntico amor [... ], pediu em 1669 a autorização para se afastar da Ordem das Escolas Pias e recebeu-a com base no breve apostólico do dia 11 de dezembro de 1670”. Cf. Bł. S. PAPCZYŃSKI. Apologia wystąpienia z Zakonu Szkół Pobożnych. In: PZ, p. 1448-1450; CONGREGAÇÃO DOS ASSUNTOS DOS SANTOS. Dekret Kanonizacji Sługi Bożego Stanisława od Jezusa i Maryi Papczyńskiego, Założyciela Księży Marianów pod wezwaniem Niepokalanego Poczęcia Błogosławionej Maryi Dziewicy (1631-1701). In: A. PAKUŁA MIC (red.). Abyście nie stali bezczynnie w winnicy Pańskiej. Materiały Komisji przygotowującej Zgromadzenie Księży Marianów do beatyfikacji Założyciela Czcigodnego Sługi Bożego Ojca Stanisława Papczyńskiego. Warszawa-Stockbridge, 2006, p. 91.
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