A espiritualidade religiosa segundo Es Papczynski

83 A convicção a respeito do primado do amor teologal, inclusive na dimensão institucional, é expressa por Papczyński em todos os seus escritos, inclusive nos religiosos. Em Norma vitae, dirigindo-se aos seus filhos espirituais, admoesta-os a que cada um deles “se lembre de que a alma do seu Instituto é o amor e de, na medida em que dele se afastar, tanto também se afastará da vida”. Por isso recomenda evitar tudo que possa destruí-lo, incluindo “a inveja, o ódio, a teimosia, a rivalidade, a suspeição, a difamação, a antipatia, a simpatia, a inveja, a delação, as injúrias, os mexericos, as maledicências, as apoquentações, o facciosismo, o desprezo dos outros, as perturbações, a confusão, as brigas e as disputas” e, finalmente, “tanto de toda a Congregação como de cada um dos seus membros afastar todo mal”, empenhando-se pelo que multiplica e fortalece o amor, ou seja, “diligentemente contribuir para o bem, a fama, a pureza e a santidade de toda a Congregação” e “às suas pessoas em particular demonstrar tudo aquilo o que desejaria para si mesmo”. Além disso, ordena que, “da mesma forma que da paz da própria alma, assim também cuidar da paz alheia e doméstica, como zeloso guardião do amor”. Na fundamentação das suas recomendações, cita ele duas razões. A primeira é expressa pelo seu ponto de vista de que “mais caro é à Divina Majestade aquele que for considerado como o que mais se distingue no amor mútuo”; a segunda uma descrição da vida da Igreja primitiva, apresentada numa espécie de exortação: “Lembrai-vos do amor da Igreja primitiva, a respeito da qual o autor dos Atos dos Apóstolos diz: ‘A multidão dos fiéis era um só coração e uma só alma’ [At 4: 32]”208. Esse trecho de Norma vitae, muito abundante em conteúdos teológico-espirituais, foi em significativa medida podado nas subsequentes constituições dos marianos de 1723. Com efeito, os Statuta, embora repitam no capítulo VI, intitulado “De mutua Charitate et correctione fraterna”, uma parte significativa das formulações de Papczyński, estreitam sensivelmente a “charitas” ao amor ao próximo e à admoestação fraterna com ele relacionada, incluindo a mudança de uma das formulações mais características 208 Sem dúvida Papczyński alude aqui também a uma abordagem semelhante da vida da Igreja primitiva, presente na Regra de S. Agostinho, a que aliás ele alude na “Introdução” à sua Norma vitae. Cf. Św. Augustyn. Reguła (Praecetum). In: M. STAROWIEYSKI, E. STANULA (red.). Starożytne reguły zakonne. Warszawa, 1980, p. 93. Todo o trecho aqui analisado de Norma vitae apresenta-se da seguinte forma: “Ad mutuam charitatem quantum attinet, ille se sciat inter vos divinae Maiestati chariorem, qui charitate mutua praecellentior habebitur. Cogitet quisque animam esse Instituti sui charitatem, a qua quantum recederet, tantum a vita. Proinde sicut totius Congregationis bonum, famam, integritatem, sanctimoniam, serio promovebit, sic eiusdem personis singulis eadem omnia, quae sibi exoptaverit, praestabit. Vitabit ergo pestiferam illam et charitati adversatissimam luem, invidiam, odium, rancorem, aemulationem, suspicionem, infamationem, antipathiam, zelotypiam, delationem, scommata, sussurrationes, oblocutiones, vexationes, ambitionem, aliorum contemptum, perturbationem, tumultum, rixas, lites; et ut sui animi tranquilitati, sic alienae et domesticae studiosus charitatis custos, invigilabit. Denique tam a tota Congregatione, quam ab eius quolibet membro, quodvis malum convenienter propulsavit. Mementote dilectionis primaevae Ecclesiae, de qua Apostolicorum Auctor scriptor: ‘Multitudinis’, inquit, ‘credentium erat cor unum, et anima una’ [Act 4: 32]”. NV, II 4.

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