110 vela de forma mais transparente a natureza do Filho de Deus Encarnado e o Seu salvífico amor ao homem pecador, pelo qual “se ofereceu ao Pai Celestial para o sofrimento e a reparação”. Na paixão de Cristo percebe ele o transparente ato da salvífica entrega de si mesmo, “justo, florescente como uma palmeira, o Santo dos Santos”, em holocausto oferecido em razão do “atormentador desejo de salvar as almas”60. Para o beato Estanislau, a paixão do Salvador é de alguma forma a manifestação daquilo que em Cristo é mais sobrenatural e divino e daquilo que é mais humano e nobre, não contaminado pelo pecado. Por essa razão, apresentando a Cristo como a norma e o modelo da vida religiosa, traça ao mesmo tempo o horizonte das aspirações do religioso. Esse horizonte é, por um lado, a vida sobrenatural, aliada à fé, esperança e caridade, e − por outro – o serviço à Igreja e ao homem, especialmente pela cooperação na obra da salvação. Ele extrai a fundamentação das suas convicções da contemplação da paixão de Cristo, em quem percebe a plenitude da perfeição. Em consequência disso, nos escritos religiosos do Fundador dos marianos encontra-se claramente destacado o ideal bebedeiras, pela vida dissoluta teríamos de ingressar numa outra glória, já que o próprio Rei da glória possuiu a sua [glória] pelo sofrimento? Acaso nos esquecemos completamente das Suas palavras e salutares admoestações, que tão claramente nos deixou com o autor da Sua história, que não necessita de nenhuma explicação? Dizia outrora: ‘Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me’ (Mt 16: [24]). A cruz – é o voluntário tormento do corpo; a cruz – é a incessante, séria penitência; a cruz – é a difamação, o desprezo, a injustiça e todo tormento; a cruz – é a doença, a penúria, as preocupações, o prejuízo nos bens materiais, a perda do patrimônio; a cruz – é a falta das coisas necessárias, a restrição das supérfluas, o afastamento do sucesso, a permissão de adversidades e de tudo que provoca os dissabores espirituais ou físicos. Para carregar essa cruz com o coração disposto e alegre, por amor a Cristo, convoca a cada um de nós o próprio Cristo por palavras e pelo exemplo, especialmente por ter Ele mesmo carregado o mui desagradável lenho, para que no final, seguindo os passos do nosso Predecessor no caminho da cruz, alcancemos com Ele a herança da eterna alegria e glória”. CP, p. 1315-1316. 60 Cf. IC, p. 1035, 1050; OC, p. 1236-1244. A meditação da paixão de Cristo está relacionada igualmente com estímulos dirigidos ao leitor, nos quais o autor não apenas expressa a sua fé no imensurável amor de Cristo, revelado nos acontecimentos da cruz, mas também estimula o leitor a uma aproximação pessoal do Salvador. Para ilustrar isso, vale a pena fornecer os trechos abaixo: “Tudo isso só Ele, o inocentíssimo Filho de Deus, amarrado ao tronco, não tanto por laços de ferro quanto por cordões de amor, pacientemente suportou em Seu corpo: para que alcançássemos a misericórdia, depositando sem arrogância toda a nossa confiança nessa sua crudelíssima flagelação, mas ao mesmo tempo assumida com pleno amor. Oprimido pelo peso de enormes transgressões, receias, quem quer que sejas, o abismo do inferno e os seus terríveis castigos, inconcebíveis e intermináveis? Suspira, recorre e corre em verdadeira penitência aos flagelos do Salvador: ‘O amor envolve quem confia no Senhor’ (Sl 31: 10), para que a justiça não [o] castigue. Tens receio também tu, que tens uma consciência mais sensível, mas não estás livre dos pecados [cometidos] ou das [boas ações] que deixaste de praticar, pelo que deves ser um dia enviado à prisão purificadora? Recorre ao Jesus flagelado: ‘O amor envolve quem confia no Senhor’”. CP, p. 1300-1301. Temos um motivo semelhante no opúsculo Orator Crucifixus: “Quem quer que sejas, e estás abandonado por Deus, dominado pelo espírito mau, desprovido da graça, sobrecarregado de pecados, geme, bate no peito, derrama lágrimas, exclama, exclama: ‘Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?’, e voltará a ti o poder do alto, serão expulsos os demônios, perdoados serão os pecados. De graça, de glória, de Deus estarás repleto”. OC, p. 1235. Cf. também: D. MAZEWSKI MIC. Kimkolwiek jesteś, a jesteś opuszczony przez Boga. In: A. PAKUŁA MIC (red.). Mąż Boży. Szkice teologiczno- -duszpastersnie o ojcu Stanisławie Papczyńskim. Warszawa, 2007, p. 121-130.
RkJQdWJsaXNoZXIy MjI2Mw==