65 com a conformação da vontade humana com a vontade de Deus, e com a “abnegatio”, isto é, com o ideal da renúncia e da abnegação bíblica (cf. Mt 16: 34)146. Papczyński extrai a “resignatio” da postura de Cristo, o que diz respeito especialmente àqueles momentos descritos nos Evangelhos que revelam a Sua “renúncia” à vontade própria por amor ao Pai e pela salvação do homem, aliada à confiança total depositada no Pai. Nesse contexto alude à descrição dos acontecimentos do Horto, para afirmar que “quando o anjo apareceu [a Cristo], fortaleceu-O e transmitiu a vontade do Pai Eterno (embora, por ser Deus, essa vontade Lhe fosse conhecida), com a máxima resignação (“cum maxima resignatione”) exclamou: ‘Contudo, não seja como eu quero, mas como tu queres’”147. O Fundador dos marianos percebe traços dessa mesma virtude também na postura de Isaac, que, “totalmente resignado (“Isaacus resignatissimus”), submeteu a cabeça à espada do pai” no monte Moriá, o que devia ser o prenúncio da mesma submissão de Jesus num outro monte, isto é, no Gólgota”148. É, portanto, a virtude da “resignatio” uma espécie de postura de total liberdade interior diante de tudo com que o homem se defronta, aliada a uma confiança igualmente total depositada em Deus, com a entrega aos Seus propósitos, especialmente àqueles assinalados pela cruz e pela noite da fé. Na opinião de Papczyński, a “resignatio” não é apenas indispensável para conciliar a vontade própria com a vontade de Deus (“conformitas”), mas é também uma condição necessária da cristiformização. Porquanto aqueles “’que de antemão Ele conheceu, esses também predestinou a serem conformes à imagem do Seu Filho’ (Rm 8: 29) [... ] – alcançarão a glória celestial e serão coerdeiros com o Filho de Deus” somente quando, “a exemplo do Filho de Deus, aceitarem e beberem com toda a resignação (“cum omni resignatione”) o cálice do sofrimento [... ] e, por amor a Cristo e para imitá-Lo, suportarem com serenidade de espírito todos os desprezos, contrariedades, dificuldades, aflições, cruzes e perseguições”149. O autor de Inspectio cordis acrescenta do texto: “Considera apertam, et regalem viam ad nos Deo patere, per voluntatis nostrae cum illius voluntate conformationem: neque enim, hac absque Filius Dei uterum Virginis intemeratae ingressus fuisset. Quod si ad humanum pectus aditum aperuit conformatio resignatioque Deo, et effecit ut homo fieret; eadem illi ad tuum cor viam paratura, et datura est. Ita est, Pater aeterne, nullum donum caeleste, nulla gratia, nulla fere virtus intrare in animam meam poterit nisi fuero resignatus. Subicio itaque omnes meos sensos tibi, dedo cor, guberna illa, ut per veram resignationem verum, et liberum mentis assequar dominium. Paratum tibi cor meum: Fiat voluntas tua: Ecce ego servus tuus, quid me vis facere?”. IC, p. 618. 146 IC, p. 752. 147 Ibidem, p. 1034-1035. 148 Ibidem, p. 936. Vale a pena observar que, ao escrever Protestatio Romam abeuntis no período das disputas escolápias, Papczyński atribui também a si a postura da “resignatio” como sinal de submissão e expressão de cumprimento das ordens dos superiores, que o enviavam de castigo – e, na opinião do interessado, injustamente – a Roma. Cf. S. PAPCZYŃSKI. Protestatio Romam abeuntis. In: S. PAPCZYŃSKI. Scripta historica, ed. K. KRZYŻANOWSKI MIC. Varsaviae, 1999, p. 14. 149 Cf. IC, p. 892.
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