64 a sua sabedoria como tolice e − como se costuma dizer – com todos os meios disponíveis buscar o amor de Deus”142. Dentre as demais virtudes que o Fundador dos marianos qualifica como pertencentes à espiritualidade religiosa e que se manifestam na etapa da iluminação, ocupa um lugar especial a virtude da “resignatio”143, definida também em forma verbal como “resignare”. No caminho da busca do amor sobrenatural ela é uma manifestação característica de avanço na vida espiritual, e a sua posse é uma condição indispensável para a imitação de Cristo. A “resignatio” é uma espécie de antecâmara do amor perfeito e uma forma de ultrapassar a escolha daquilo que é reconhecido e escolhido como “agradável”, “bom” e conforme às “predileções” do homem. Significativo a esse respeito é o comentário de Papczyński à descrição da transfiguração de Jesus no monte Tabor, presente em Inspectio cordis, onde, tomando como ponto de partida as palavras de Pedro (“é bom estarmos aqui” – Mt 7: 4), afirma: “Bom é buscar os deleites e descansar apenas segundo a Vossa predileção, mas é melhor viver resignado (“melius esse resignatum”), e melhor ainda por amor a Vós [tudo] suportar (sofrer)”144. A virtude da “resignatio” é de alguma forma o efeito da total escolha de Deus e das Suas causas e da total confiança e entrega em tudo ao Deus escolhido. Sem essa fascinação com o amor de Deus, a “resignatio” seria unicamente uma outra face da acédia, da preguiça aliada à inércia espiritual. Na realidade o Fundador dos marianos se refere a uma espécie de resignação a tudo que se encontra fora de Deus e do seu amor, com a simultânea reorientação das tendências básicas do homem, para mais plenamente ainda concentrar-se em Deus, o único objetivo final e o mais importante da vida humana. Somente nessa perspectiva e graças a essa experiência de fé é que ocorre a hierarquização das coisas e das aspirações humanas, onde a realidade de Deus e do Seu amor se torna tão dominante na vida do homem que resulta justamente na “resignatio”, isto é, na “renúncia”, na “submissão”, na “docilidade”, na “entrega” de tudo em razão da escolha de Deus e da submissão à Sua vontade que está em curso. Por isso, como observa Papczyński, a virtude da “resignatio” relaciona-se com a “conformitas”145, isto é, 142 Ibidem, p. 1015-1018. 143 Na opinião de A. Derville, o termo “resignatio”, adotado em relação à espiritualidade, surgiu no latim no período medieval, e o seu significado foi extraído da linguagem jurídica. Cf. A. DERVILLE. Résignation. In: DSAM, T. 13. Paris, 1988, 413-415. 144 Em razão do significado do trecho citado, vale a pena apresentá-lo na versão original: “’Bonum est nos hic esse’, ibidem. En quanto desiderio Apostolorum Princeps tenetur Thaboreio in culmine commorandi, quin manendi: in quo aliquid gloriae caelestis, mente, oculisque hauserat. O si tu, ipsum totius gloriae Regem totum suscepisti, eundem affectum elicias: BONUM est nos, Domine, hic esse; bonum est in tuo solummodo beneplacito voluptatem quaerere, et quiescere. Bonum est te frequenter adire, et frui tuis consolationibus; ast melius esse resignatum; optimum tui amore pati”. IC, p. 668 (Ed. crítica p. 66). 145 Os condicionamentos entre “resignatio” e “conformatio” podem ser melhor percebidos na reflexão de Papczyski sobre o mistério da Encarnação, sendo visíveis principalmente na versão original
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