A espiritualidade religiosa segundo Es Papczynski

43 formas, no entanto sempre serve a um objetivo único e fundamental, a saber, “desperta um maior amor a Ele”68. Entretanto, antes que a virtude do amor se torne a primeira norma que regula a vida do religioso, precisa ele moldar uma adequada disposição da mente e da vontade para a aceitação de toda a verdade que a “bondade divina” lhe quiser revelar. Essa verdade é também a necessidade de conversão, de um radical rompimento com o pecado, do esforço da mortificação e da ordenação dos defeitos e das paixões. No entanto, como observa Papczyński, para que esse esforço espiritual produza resultados positivos, está sujeito à necessidade de empreender uma generosa e fiel cooperação com a graça da vocação religiosa, cujo objetivo é justamente o amor de Deus. Nas concepções de Papczyński sobre as causas de todos os pecados, pode-se perceber a alusão à doutrina de duas grandes autoridades da Igreja, cuja doutrina teve um enorme significado na história da Igreja, inclusive no século XVII na área da República da Polônia, a saber, S. Agostinho e S. Tomás de Aquino. Pode-se supor, com efeito, que a convicção de S. Tomás de que na fonte de todo pecado se situa “o desordenado amor a si próprio”69, ou ainda a doutrina de S. Agostinho a respeito do “amor-próprio levado até o desprezo de Deus”70 tenham influenciado o ponto de vista expresso em Inspectio cordis de que “na vontade própria e no amor-próprio situam-se inúmeros, e até todos os defeitos; nenhuma imperfeição, nenhum defeito, nenhuma culpa, enfim nenhum pecado provém de outra parte que não seja da vontade própria e do amor-próprio”71. O egoísmo, como fundamento do pecado, está tão profundamente enraizado e oculto no coração e na mente do homem que impede que o religioso se abra à verdade divina, ao seu conhecimento e à sua aceitação. Justamente por essa razão, como argumenta o Fundador dos marianos, o homem necessita da ajuda de fora, e o exemplo bíblico que bem ilustra a situação do homem pecador é descrição do pecado e da conversão de Davi (cf. 2Sm 12: 1-13). “Para Davi foi salutar” o fato de a “bondade divina” ter-se utilizado do profeta Natã para “lhe apresentar diante do olhar as iniquidades” que havia cometido, mas ao mesmo tempo, “advertido pelo profeta, reconheceu a sua transgressão”. Nesse contexto Papczyński lembra também a figura do rei Salomão, para afirmar que a ele “foi para conheceres a ti mesmo, então facilmente conhecerás a Deus. No entanto, em vão te esforças se, sem o conhecimento de ti mesmo, queres chegar ao conhecimento das coisas divinas. Portanto, se não te esforçares para conhecer a ti mesmo, não conhecerás a Deus”. IC, p. 848. 68 Ibidem, p. 712-713. 69 “Inordinatus amor sui est causa omnis peccati”. STh I-IIae, q. 77, a. 4. 70 S. AGOSTINHO. Państwo Boże [A Cidade de Deus]. Trad. W. KUBICKI. Poznań, 1934, t. II, p. 401-402. 71 IC, p. 970.

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