75 [Mt 20: 22]”. A terceira causa era “a grande virtude da castidade” de S. João. Na opinião do Fundador dos marianos, esse foi ao mesmo tempo o motivo pelo qual “foi à proteção dele, como discípulo virgem, que Cristo Senhor, suspenso na cruz, entregou a Sua Virgem Mãe”. Papczyński vê a quarta razão na natureza do amor com que o discípulo amado amava o seu Mestre, a saber, “porque não era por amor natural, como o devido a um irmão, mas por amor espiritual que ele fez companhia a seu Mestre, reconhecendo-O como Filho de Deus e venerando- -O como o verdadeiro Messias. E comprovou o seu amor na ocasião em que, quando todos os discípulos se dispersaram em fuga, ele acompanhou Jesus até o sumo sacerdote, até o juiz, e não se afastou d’Ele antes de ter prestado o último serviço ao Santíssimo Corpo”185. No propósito do autor de Inspectio cordis, a postura acima descrita e comentada de S. João Apóstolo não é apenas um exemplo do amor e da amizade proporcionados por Cristo, mas sobretudo um modelo que sugere a todos os religiosos a forma de responder à graça do amor amigo. Com efeito, o descobrimento do mistério da “divina amizade” encerra em si também a necessidade da devotada prática das virtudes, da passagem do amor carnal ao espiritual e da imitação do Cristo todo, incluindo o Seu sofrimento, a cruz e a morte, através dos quais Ele passa à glória da ressurreição e nos quais revela o Seu submisso amor ao Pai. Justamente por essa razão, igualmente as experiências passionais da pessoa religiosa assumem um significado especial, visto que se transformam no momento decisivo do ingresso na plenitude da união e numa condição necessária para a existência da verdadeira amizade com Deus186. Mas ao mesmo tempo Papczyński, ao esboçar a visão da união com Deus e do amor sobrenatural que lhe é apropriado, não lhe confere traços exclusivamente verticais e individualistas, onde é decisivo o que ocorre entre Deus e o homem que busca a união com Ele. Além da postura interior, relacionada à maneira de Cristo se relacionar com os acontecimentos passionais e pascais, é também necessária a prática ativa do amor ao próximo. É verdade que “ninguém está mais próximo da glória divina que os amigos de Deus”, afirma em uma das suas reflexões em Inspectio cordis, mas acrescenta logo que, embora pareça que “aqueles apenas se alegram com o fruto do amor cujo coração está continuamente com Ele unido”, no entanto “o Senhor diz que o amor ao semelhante está muito próximo do amor a Deus, e até é preciso dizer que um sem o outro não pode existir”187. A condição e o critério do autêntico amor amigo é a capacidade de amar o semelhante, inclusive o inimigo, o cumprimento dos mandamentos divinos e dos conselhos evangéli185 IC, p. 962-963. 186 Cf. T. ROGALEWSKI MIC. Tajemnica krzyża... , op. cit., p. 62-70. 187 IC, p. 787.
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