49 go”. Enquanto a necessidade de vencer “a si mesmo” seja com muita frequência abordada, juntamente com complementos como p. ex. “vontade própria”, “amor- -próprio”, “predileções próprias” (e igualmente compreensível seja chamar de inimigo o demônio, que é o “adversário” bíblico do homem e da sua salvação), a categoria do “mundo” já não é unívoca. No contexto que nos interessa, em princípio trata-se da realidade que se opõe a Deus e como tal pecaminosa, o que na doutrina de Papczyński é uma alusão ao dualismo de João (1Jo 2: 15; 5: 19)94. Na Regula decem beneplacitorum não ocorre, no entanto, um “tríplice inimigo” tão claramente definido como se vê nos escritos do beato Estanislau; apesar disso não há nenhuma dúvida de que os obstáculos nela enumerados para a posse das virtudes, especialmente da virtude do amor, coincidem com essas mesmas categorias. O menor espaço foi dedicado à luta com o demônio, porquanto apenas uma vez ocorre a afirmação que fala da necessidade da vida no amor evangélico, porque no lugar onde ela falta encontra-se a “sede do demônio” (“domicilium diaboli”). Quem afasta o seu reinado é Cristo, cujo sinal exterior não é apenas o amor mútuo, mas também a “paz”95. Da mesma forma, em algumas passagens há apenas alusões ao “mundo”, principalmente com o objetivo de comprovar a necessidade de se afastar do mundo, cuja expressão exterior deve ser a clausura e o rompimento com todos os relacionamentos “mundanos” que possam trazer como resultado a negligência dos assuntos divinos96. O autor da Regula decem beneplacitorum dedica o maior espaço à luta contra as tendências egoísticas da pecaminosa natureza do homem. Na Regula decem beneplacitorum, o correspondente daquilo que o Fundador dos marianos define como “vontade própria” ou “amor-próprio” são as “tendências próprias”, as “opiniões próprias” ou as “vontades próprias”97. O princípio aceito na luta contra as tendências da natureza pecaminosa é o mesmo do beato Estanislau Papczyński, isto é, a radical escolha dos valores evangélicos aliada ao desvelo pelo crescimento das virtudes, a mortificação, a busca da ajuda nos meios sobrenaturais: na oração, na vida 94 Cf. T. GOFFI. Mondo. In: S. DE FIORES, T. GOFFI. Nuovo dizionario di spiritualità. Milano, 1999, p. 1031-1035. 95 Regula, p. 53. Uma contraposição semelhante foi adotada por Papczyński em Templum Dei Mysticum, onde, ao comentar os sinais da presença do Espírito Santo na alma do homem, afirma: “Por isso, quem procede bem é conhecido como templo de Deus (“templum Dei”), e quem procede mal - é a capela do diabo (“diabolli sacellum”). TDM, p. 70. 96 Regula, p. 46, 53. 97 Eis um dos trechos mais característicos dessa Regra: “Todos, portanto, devem também lembrar- -se de que, quando vieram a esta Ordem, renunciaram à sua vontade em razão de Deus e de que cometem um sacrilégio as pessoas desse gênero que novamente se voltam às próprias vontades e tendências”. Regula, p. 51.
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