A espiritualidade religiosa segundo Es Papczynski

138 ma”. E isso foi possível porque Maria “compreendia a vontade de Seu Filho Onipotente”22 e colaborava com Ele. Nos mais importantes momentos da vida de Cristo, ou seja, durante a paixão e a morte, Maria “fez companhia” (“comitari”) a Seu Filho e participou da paixão “do Filho do Pai Eterno, e ao mesmo tempo do Seu Filho”. E, “quando Cristo recebeu esse castigo infame [do coração transfixado], a suprema dor atravessou a Santíssima Virgem Maria, que sentiu isso então como se o Seu próprio lado e o Seu coração fossem transfixados”. Esse excepcional e especial vínculo não cessou nunca, porque também “após a Sua mui gloriosa ressurreição apareceu primeiramente a Sua Mãe e A encheu de tanto maiores alegrias e reconfortou com celestiais prazeres quanto durante a Sua paixão foram maiores e mais pesadas as dores com que Ela foi atingida”23. Consequentemente, Papczyński chega à conclusão de que esse especial relacionamento entre Maria e Cristo resulta da vontade do próprio Deus, porquanto “a tal ponto respeita Ele a Mãe que não quer que Ela esteja sem o Filho, nem o Filho sem a Mãe”24. Papczyński percebe as fontes da maternal presença de Maria na vida do cristão na decisão do próprio Cristo, expressa durante a Sua paixão. Possui uma eloquência especial para ele a entrega da Mãe ao discípulo e do discípulo à Mãe (cf. Jo 19: 26-27), descrita por S. João. Esse trecho aparece em seus escritos como o momento crucial, no qual se manifesta a vontade do Salvador de que Maria se tornasse a Mãe de Seus discípulos. É então que Cristo “entrega o discípulo à Mãe como filho e entrega ao discípulo Sua Mãe como Mãe, confiando a puríssima Virgem ao castíssimo João”25. A decisão de Cristo, tomada do alto da cruz, cria uma nova situação não apenas para Maria, mas também para João e – nele – para todo discípulo de Cristo. Sendo Mãe do Filho de Deus, Maria se torna Mãe da Igreja, que na pessoa de João lhe foi confiada aos pés da cruz. Com base nisso, Papczyński estimula a “recorrer a Elas nas dúvidas, nas angústias e nas 22 IC, p. 635-636. 23 Ibidem, p. 1051, 1054, 1058. Cf. T. ROGALEWSKI MIC. Matka Boża Bolesna w nauczaniu o. Stanisława Papczyńskiego (1631-1705). Salvatoris Mater 6 (2004), n. 2, p. 151. 24 IC, p. 965. 25 Ibidem, p. 1051. Esse mesmo trecho do Evangelho, mas pastoralmente bem mais desenvolvido, é comentado por Papczyński no opúsculo Orator Crucifixus da forma seguinte: “À proteção de João, o Senhor antes da Sua morte na cruz entregou a Virgem Mãe. Ao mesmo tempo também muito me alegro porque, na pessoa de João, a essa bondosíssima Mãe de Deus foram entregues como filhos todos os pecadores. [...] Não desanimeis, pecadores! Jesus Crucificado entrega a Sua Igreja à Sua bondosíssima Mãe. E tenho em mente aquela Igreja ‘na qual – como afirma Gregório Magno – estão misturados os maus com os bons, os rejeitados com os escolhidos’. Deve-se então supor que dessa forma o Senhor confiou à Virgem, na pessoa de João, também a vós, os maus, juntamente com os bons: Ele vo-La ofereceu como Mãe das graças. ‘Disse à Sua Mãe: Mulher, eis (apontando para cada um de nós, tanto os bons como os maus) o teu filho! Depois disse ao discípulo (sem dúvida a todo homem, tanto justo como pecador): Eis a tua Mãe!’”. OC, p. 1219-1220.

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