93 geralmente naqueles mistérios da vida terrena que devem fortalecer o caráter ascético da vida religiosa. Os Statuta Patrum Marianorum encerram uma visão da espiritualidade no aspecto trinitário semelhante à de Regula decem beneplacitorum e Norma vitae. Apresentam alusões a determinadas dimensões da vida religiosa e às diversas Pessoas da Santíssima Trindade, mas não envolvem reflexões mais detalhadas. Essa situação se relaciona com o caráter legal e organizacional dos mencionados documentos. 1. Deus Pai na espiritualidade religiosa Para Estanislau Papczyński, Deus é sobretudo o “Pai eterno” (“Pater”, “Parens”) do eterno e verdadeiro Filho de Deus”, o qual, “em tudo igual ao Pai, quis assumir a natureza humana” e tornou-se “o Verbo de Deus encarnado”7. Por sua vez a paternidade de Deus em relação à criatura manifesta-se no criativo e vivificante amor voltado ao homem e a ele destinado. Como tal, manifestou-se primeiramente no ato da criação do mundo e da “formação do homem”, o que, embora seja uma obra da Santíssima Trindade, “é atribuído de maneira especial ao Pai”8. Falando de Deus Pai na espiritualidade religiosa, Papczyński refere-se principalmente a duas realidades teológicas: ao mistério da vida de Jesus Cristo, o Filho encarnado de Deus, e ao fato da criação do mundo e − dentro dele – do homem. Sem uma referência a ambas, não existe em princípio a possibilidade de compreender o conteúdo interior da vida religiosa na abordagem do Fundador dos marianos; em certo sentido, também ambas as realidades se condicionam como complementares na lógica interior do relacionamento do religioso com a pessoa de Deus Pai. Essas duas realidades são mencionadas em diversos textos dedicados à espiritualidade religiosa, mas isso é especialmente visível em Inspectio cordis. Nas outras fontes da primitiva tradição da Congregação dos Padres Marianos, as referências a Deus Pai surgem esporadicamente e geralmente implicite. Um exemplo disso é a Regula decem beneplacitorum, na qual, na análise de cada uma das dez virtudes, quase que em forma de ladainha, repete-se o apelo para que as almas “consagradas a Deus sirvam sinceramente a Ele” e procu7 Cf. IC, p. 615, 714-715, 982 e outras. Utiliza-se de termos semelhantes K. Drużbicki SJ, que viveu um pouco antes, para o que aponta em suas pesquisas J. M. Popławski. Isso pode testemunhar que esses conceitos fossem de uso comum na teologia do século XVII. Não parece, com efeito, que Papczyński conhecesse tão bem os escritos de Drużbicki a ponto de adotar termos por ele utilizados, embora seja um fato que ele conhecia e apreciava esse autor. Em Templum Dei Mysticum faz referência a ele e recomenda a sua forma de comemorar o aniversario do batismo. Cf. TDM, p. 1149; M. M POPŁAWSKI. Kaspra Drużbickiego teologia..., op. cit., p. 50. 8 IC, p. 739.
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