100 O que no contexto da teologia polonesa do século XVII pode despertar um significativo espanto é a falta, nos documentos em análise, da visão de Deus Pai como um juiz severo e que castiga. Como observa M. Brzozowski, no tempo do barroco é característica a representação de um Deus de dupla face. Por um lado é o severo Deus do Antigo Testamento que castiga, ligado ao ideário do poder absoluto relacionado com aquela época; por outro lado, percebemos a visão de um Deus compreensivo, que perdoa, que aprova e que envolve o mundo com o Seu ilimitado amor paternal, o que constituía a fundamentação para as formas democráticas do regime29. Nos escritos do Fundador dos marianos, Deus Pai não é representado com juiz. “O verdadeiro Juiz, [...] que virá para julgar os vivos e os mortos”, é Jesus Cristo, “Filho do verdadeiro Deus”. Diante d’Ele, como diante do “Supremo Juiz”, como observa, “cada um de nós deve apresentar-se duas vezes, [...] primeiramente para o julgamento particular” e depois, “no fim do mundo, para o juízo universal”30. Ocorre que às vezes o julgamento é apresentado como severo, e o Juiz, como alguém que castiga. No entanto não se pode omitir o fato de que Papczyński procurava suavizar a severidade dessas descrições. Talvez justamente em alusão às representações que na época retratavam a Deus como um juiz severo e que castiga, afirma numa das suas meditações: “Cuida [...] para que, sobrecarregado de transgressões, não menosprezes o remédio da penitência, tratando a Deus como um Juiz demasiadamente severo, enquanto que Ele a todos bondosamente chama a si, não quer ser o autor da condenação de ninguém, deseja salvar a todos, apoia os que se empenham na busca da perfeição e, para os que se convertem, de todo o coração torna-se mais misericordioso”31. A lógica do Fundador dos marianos é justa e coerente, porquanto, se Deus é repleto de criativo amor e perdoa ao homem, assim também deve ser Cristo, o Filho Encarnado e eterno, que aponta o caminho ao Pai, especialmente àqueles que O imitam. 2. Sequela Christi Tanto na abordagem do beato Estanislau Papczyński como da primitiva tradição dos marianos, a espiritualidade religiosa se concentra na Pessoa de Jesus Cristo, que é representado – seja direta, seja algumas vezes implicite – como a fundamentação básica da vida religiosa e da sua “norma” (“ad normam Christi 29 Cf. M. BRZOZOWSKI. Kulturowe i historyczne uwarunkowania kaznodziejstwaTomasza Młodzianowskiego. Lublin, 1988, p. 219. 30 IC, p. 607-608, 1044-1046. 31 Ibidem, p. 936.
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