A espiritualidade religiosa segundo Es Papczynski

101 existere”)32. De maneira especial a sua forma “humana” de proceder, assinalada pela sensibilidade e delicadeza, compreensão, misericórdia e compaixão para com o homem, aliada à determinação, à fortaleza e a fidelidade interior à fé, é apresentada como o modelo da perfeição humanística. E a Sua vida espiritual, que se caracteriza por uma amorosa e incessante referência ao Pai e por uma incansável busca e pelo cumprimento da Sua vontade, faz com que Cristo seja apresentado como um modelo atual, de certa forma um constante ponto de referência e o critério da vida religiosa. Nos documentos analisados, a vida de Cristo é apresentada de diversas formas, não tanto pelo empreendimento e desenvolvimento de um discurso cristológico, como antes pela aplicação de alegorias e simbolismos33. Com efeito, o propósito dos autores desses escritos é apresentar Cristo como um modelo e estimular à Sua imitação (“sequela Christi”), a fim de moldar na pessoa religiosa a postura de Cristo. 2. 1. Representações de Cristo O desejo de expressar o mistério de Cristo de forma acessível aos religiosos, de acordo com a doutrina da Igreja, e que ao mesmo tempo estimulasse a empreender o caminho da Sua imitação, fez com que Estanislau Papczyński se utilizasse de variados termos para definir a Pessoa do Salvador. Alguns deles têm como tarefa familiarizar com a natureza do Filho de Deus encarnado, outros caracterizam a Sua salvífica missão e se relacionam com momentos cruciais da Sua vida; outros ainda descrevem a Cristo no seu relacionamento básico, tanto em relação a Deus como em relação ao homem e, de maneira especial, em relação ao religioso, ao qual se dirigem. Uma lógica semelhante pode ser também percebida nas outras fontes da primitiva tradição mariana, inclusive na Regula decem beneplacitorum. Possuem um significado especial os termos teológicos que definem a natureza de Jesus Cristo, principalmente no Seu relacionamento com as demais Pessoas da Santíssima Trindade. Assim, Ele é chamado Verbo do Pai (“verbum Patris”), verdadeiro Filho do verdadeiro Deus, semelhante em tudo ao Pai, Filho único do único Deus (“Filius Numinis unius soliusque”), segunda Pessoa da Santíssi32 Essa expressão é utilizada por Papczyński nas reflexões para os religiosos em Inspectio cordis, ao falar do amor aos inimigos a exemplo de Cristo e da necessidade de suportar todo o tipo de adversidades. Tais formulações, adotadas com muita frequência, têm por objetivo apontar para o caráter excepcional da vocação religiosa, que deve tornar-se uma forma de vida idêntica à de Cristo. Cf. IC, p. 926 e outras. 33 Essa forma de apresentar importantes questões teológicas é própria também dos tempos de Estanislau Papczyński, que se distinguiam pelo uso de símbolos e alegorias. Aliás, em comparação com o simbolismo e o uso de alegorias muitas vezes exuberante, os escritos de Papczyński e da primitiva tradição são bastante parcimoniosos na adoção desse tipo de formas literárias. Cf. J. T. MACIUSZKO, op. cit., passim.

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