A espiritualidade religiosa segundo Es Papczynski

115 e incute nela estes dois elementos: a fé e o amor, dos quais decorrem todas as demais virtudes. Um exemplo disso seja o Apóstolo de hoje André, pois, logo que o Deus Encarnado lançou sobre ele o Seu olhar, ele imediatamente abandonou tudo e seguiu os Seus passos [cf. Mt 4: 20]. Acreditou e ao mesmo tempo amou”72. O fato histórico da vocação do Apóstolo, descrito nas páginas do Evangelho, é utilizado por Papczyński para enfatizar a mesma lógica da ação divina após a ressurreição de Cristo. Esse mesmo Cristo, da mesma forma vivo e agindo da mesma forma, da mesma maneira chama pessoas de outros tempos para ingressarem no caminho da Sua imitação. Igualmente a resposta do chamado deve ser a mesma dos Apóstolos. Nessa lógica da ação de Cristo, atribui um papel especial não apenas ao Espírito Santo, mas especialmente à Eucaristia. Nela está presente e vivo o mesmo verdadeiro Cristo que, dando-se ao homem, possibilita o real encontro com Ele. Graças a isso, o “desejo do coração”, um dia desperto, como que revive e com isso experimenta uma purificação a primitiva intenção e o ideal de uma vida dedicada a Cristo73. A ênfase por vezes forte da dimensão moral da imitação de Cristo tem por tarefa a mobilização interior do religioso no sentido de assumir o caminho da conversão pessoal. Esse aspecto possui também um caráter dinâmico, à semelhança de um caminho, da passagem de posturas assinaladas pelos pecados, defeitos ou imperfeições na direção da graça, da virtude, da assimilação às posturas de Cristo. Sempre também é indispensável o esforço ascético. Os estímulos frequentemente repetidos para “meditar exatamente as palavras do Senhor”, que falam quais são as marcas do seguidor (“sequax”) de Cristo, decorrem por vezes de uma visão que é peculiar: “Facilmente te orientarás que segues os passos de Cristo se alguma vez carregaste a Sua cruz e, por amor a Ele, às vezes renunciaste a ti mesmo. Porquanto pouco significa para alcançar a perfeição e o ápice de toda santidade deixar no mundo todas as posses, riquezas e honrarias, os parentes e amigos, se na vida religiosa não abandonares também a ti mesmo 72 Ibidem, p. 940. De forma semelhante interpreta Papczyński a vocação do Apóstolo S. João, salientando no relacionamento mútuo entre o discípulo e o Mestre o amor que conduz à imitação de Cristo e ao primado do “amor espiritual”. Cf. IC, p. 962-963. 73 IC p. 654-655, 668-669, 721-722. Para ilustração, vale a pena citar um trecho que apresenta esse tipo de passagem da descrição histórica do relacionamento Cristo-discípulos ao relacionamento atualizador graças à Eucaristia. Trata-se da reflexão a respeito da transfiguração no monte Tabor (cf. Mt 17: 2): “Leva em consideração que os discípulos de Jesus imaginavam que estavam convivendo apenas com um homem, e não ao mesmo tempo com Deus. Por isso Cristo transformou-se diante deles para que conhecessem que Ele era Homem e Deus ao mesmo tempo e para que, reconhecendo isso, também o confessassem e, confessando, para que proclamassem isso aos outros. Assim também esse mesmo Cristo, quando algumas vezes na santa Comunhão te fornece sinais da Sua Divindade, isto é, prazeres espirituais, Ele o faz para que mais prontamente por Ele sofras e, sofrendo, para que O confesses. Porquanto ninguém melhor confessa a Cristo do que aquele que segue os Seus passos através das adversidades”. IC, p. 898-899.

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