A espiritualidade religiosa segundo Es Papczynski

116 e a tua vontade. Cristo não salvou o mundo porque, deixando o céu, desceu à terra e assumiu a condição humana, mas porque, cumprindo a vontade do Pai, foi martirizado”74. Por isso, o critério da verdadeira “sequela Christi” é a autenticidade da conversão, compreendida não apenas como um ato isolado, mas como um processo que conduz à assimilação a Cristo, o “Santo dos Santos”. A vocação religiosa não apenas assume a dimensão de relações pessoais, dentre as quais a primeira e a mais importante é a relação com Cristo, mas também resulta numa peculiar concretização da vida espiritual, na qual o pecado e tudo que com ele se relaciona é reconhecido como uma realidade que não é de Cristo, como a falta da presença de Cristo, da Sua graça e do Seu poder. O radical afastamento do pecado é a condição indispensável e primordial na imitação de Cristo. E a severa contraposição daquilo que é mundano, ou mesmo apenas laico, àquilo que é evangélico e religioso deve conduzir à descoberta do que é sobrenatural, divino, de Cristo. Numa das meditações de Inspectio cordis observa: “Não encontrarás [a Cristo] nas conversas, na leitura de curiosidades, no mundo, nas ruas, nos pontos de vista alheios ao teu gênero de vida e no estilo de vida das pessoas do mundo”75. Em outra passagem conclui: “Para os que pretendem seguir os passos de Cristo, o maior obstáculo são as riquezas, os amigos e tudo aquilo que se ama fora de Deus (“praeter Deum”). Por isso disse [Cristo] ao jovem que buscava a perfeição e ao mesmo tempo desejava a vida eterna: ‘Vende tudo [...], vem e segue-me’ [Mt 19: 21]. Mostrou com isso que ninguém pode verdadeiramente seguir os passos de Cristo se não estiver totalmente livre, pobre e despojado. [...] Os bens temporais, os gracejos mundanos e o amor ao mundo sobrecarregam muito os que seguem os passos de Cristo e não permitem alcançá-Lo”76. Em razão de tais convicções, Papczyński chega à conclusão de que a falta do “desprezo do mundo” e de tudo aquilo “que se ama fora de Deus” pode conduzir mais a uma assimilação ao mundo e àquilo que é amado fora de Deus do que à assimilação a Cristo. Para o beato Estanislau Papczyński, Cristo é o modelo supremo de todas as virtudes evangélicas e referências, tanto ao Pai como às criaturas. Toda a Sua vida terrena, desde o momento da encarnação até a cruz e a ressurreição, foi uma vida pelo Pai. Uma expressão desse singular relacionamento de Cristo com o Pai era o amoroso cumprimento da Sua vontade. É também aqui, como ensina Papczyński, que se encontra o apropriado modelo do correto relacionamento do imitador de Cristo com Deus. E, da mesma forma que Cristo cumpriu a vontade do Pai, também o Seu discípulo, se quiser a Ele assemelhar-se, tem de aprender 74 Ibidem, p. 987. 75 Ibidem, p. 692, 747. Cf. K. KRZYŻANOWSKI MIC. Stanislaus a Jesu Maria..., op. cit., p. 170. 76 IC, p. 904.

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