A espiritualidade religiosa segundo Es Papczynski

70 cristocêntrico e cristiforme. Com efeito, o Filho de Deus encarnado é o Esposo da alma humana, e da natureza do amor faz parte também a busca da união com Ele, porque graças a ele o homem não apenas quer “alcançar Aquele a quem ama”, mas quer também ser a Ele cada vez mais semelhante (“transformare”). De fato, na experiência do amor nupcial Cristo é reconhecido com o bem absoluto, único e definitivo. Apontam para isso – como observa Papczyński – “os efeitos da ação de Cristo que descansa nos braços da alma; o desejo de separar- -se deste mundo e de estar com Cristo (cf. Fl 1: 23); o anseio de morrer para o mundo e viver para o céu; a consideração de tudo que não é Cristo como sendo a morte; o reconhecimento como vaidade de tudo que não seja o amor de Deus”167. O amor perfeito, portanto, possível de ser alcançado já aqui na terra, encerra em si a experiência do amor escatológico, que se caracteriza como sendo um total e constante amor a Deus. E por isso, buscando evitar tudo que se opõe ao amor, é preciso buscar o cumprimento da vontade de Deus, “ter o coração constantemente com Ele unido” (“cor habere in Deo continuo fixum”), continuamente viver na Sua presença e “intensamente amar a Deus” em todas as ações, especialmente nos atos de amor ao próximo168. Enquanto, da mesma forma que do simbolismo nupcial, na descrição da união com Deus Papczyński se utilize da ideia da amizade com Deus, o autor da Regula decem beneplacitorum propriamente se contenta com aquele; justamente por essa razão toda a regra se transforma num tratado que define as condições da existência do amor nupcial na vida da pessoa religiosa. São elas, sobretudo, o exercício nas virtudes próprias das pessoas que professam os votos religiosos segundo essa regra e a forma característica de relacionar-se com o Cristo Esposo. É preciso, portanto, “viver em familiaridade somente com Jesus, seu Esposo”, nas experiências da cruz “apenas no seu Esposo buscar o consolo” e promover “diálogos íntimos com Cristo e fazer-Lhe perguntas, como costumam fazer as esposas diante do Esposo”. O autor da Regula decem beneplacitorum está convencido, com efeito, de que “feliz é a alma que com o coração, os lábios e a ação pode dizer: ‘Jesus é meu amor! Jesus é meu Esposo! Jesus é meu Deus e meu tudo!’”169. Uma característica original dessa concepção é que ela confere ao simbolismo nupcial traços eminentemente marianos. Porque, embora aqui o Esposo seja Cristo, e a esposa – a alma humana, o protótipo da esposa é Maria, pois, para que os religiosos possam “ser perfeitamente agradáveis ao Esposo das almas”, é preciso “imitar a Virgem Maria” nas “dez virtudes evangélicas”, estritamente definidas na regra. 167 IC, p. 831. 168 Ibidem, p. 787. 169 Regula, p. 46, 53-54.

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