A espiritualidade religiosa segundo Es Papczynski

71 Na apresentação da ideia do amor nupcial a Regula decem beneplacitorum não contém nenhuma referência a textos bíblicos, com a exceção de um claramente citado trecho do Cântico dos cânticos (5: 16), nem a quaisquer autores ou escritos da área da espiritualidade cristã. No entanto, de acordo com a convicção de H. Jacobs, teve uma significativa influência na sua estruturação a experiência mística pessoal de S. Joana de Valois e − sem dúvida – a formação espiritual do seu confessor e diretor espiritual, o franciscano beato Gilbert Nicole, cofundador da Ordem da Anunciação, para a qual a regra surgiu em sua primeira versão170. Em seus escritos, o Fundador dos marianos alude claramente ao simbolismo bíblico, repetidas vezes citado por ele em diversos contextos, especialmente a apropriados trechos do Cântico dos cânticos (1: 3-4;2: 9.17; 4: 1-3) e textos do Novo Testamento que fazem referência ao caráter nupcial do relacionamento entre Deus e o homem (Mt 25: 1-13; Ap 21: 2-3)171. Não fornece também referências a outros autores para os quais essa forma de abordar a vida espiritual é característica, especialmente aos místicos da escola carmelita ou dominicana172. O único autor a quem diretamente alude em Inspectio cordis é Gregório Magno173, citado no contexto do comentário ao Evangelho sobre o Esposo e as virgens prudentes e insensatas (cf. Mt 25: 1-13). Pode-se, no entanto, supor que os diversos autores da área da espiritualidade, citados em outros escritos seus, tiveram influência na moldagem dos seus pontos de vista também nessa área174. 170 Cf. H. JACOBS SJ. L’intuition spirituelle de Jeanne de France. In: Jeanne de France et L’Annonciate. Actes du coloque international de l’Institut Catholique de Paris (13-14 mars 2002), red. D. DINET, P. MORACCHINI, Sr. M. E. PORTEBOS OMV. Paris, 2004, p. 79-81. 171 Nesse contexto vale a pena citar uma das meditações após a santa Comunhão, presente em Inspectio cordis e referindo-se ao trecho Mt 25: 6 (“O noivo vem aí!”); em razão dos conceitos característicos utilizados por Papczyński, será melhor citar esse texto na língua original: “’Venit sponsus’. En iam Christus anima cum tua nuptias celebrat, iam illius thalamum ingressus est, iam in amplexibus illius haeret, iam illi suavissimum osculum, pacis et amoris schema libavit. Sed hae nuptiae, haec tecum ipsius coniunctio, fidem, charitatem, obedientiamque a te exigunt. Antea figebas gressus ad tuum placitum; nunc in viis mandatorum eius debes ambulare. Antea inspirationibus eius, monitisque tam internis, quam externis refragatus es; nunc fideli obsequio teneris ei famulari, ne sis adulterae instar, ac meretricis; ante frigidus otiabaris; nunc igne charitatis accensus opus est bonum opereris ad omnes, maxime vero ad domesticos fidei. Itaque exue veterem hominem, passionatum, imperfectum, et indue IESUM Christum; ante non deceat in eum, quem suscepisti transformari?”. IC, p. 825. 172 Cf. M. CHMIELEWSKI. Mistyka. In: M. CHMIELEWSKI (red.). Leksykon duchowości katolickiej. Lublin-Kraków, 2002, p. 536-542; E. J. MALATESTA SJ. Matrimonio mistico. In: M. DOWNEY (red.). Nuovo dizionario di spiritualità. Vaticano, 2003, p. 432. 173 Cf. GREGORIUS MAGNUS. Homilia 12 in Evangelium. In: PL 76, 1118 (n. 1476). 174 Nos escritos não dirigidos aos religiosos também está presente a ideia da espiritualidade nupcial, embora não tão desenvolvida como em Inspectio cordis. Vale a pena observar aqui que em Templum Dei Mysticum o autor alude apenas uma vez ao simbolismo do amor nupcial, no contexto da Eucaristia, e faz referência então a um autor carmelita, João de Jesus Maria, citando ao mesmo tempo um trecho da sua obra Liber de prudentia iustorum, V 1, Opera omnia, t. II. Coloniae Agripinae, 1622, p. 391. TDM, p. 1088.

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