186 ajudar a alcançá-las. Na sua opinião, o que mais se opõe a Deus é o pecado e, por isso, “a mais perfeita sabedoria consiste em alguém saber como agradar a Deus e como evitar qualquer pecado, com o qual Deus é ofendido”53. As mortificações ali enumeradas são subordinadas principalmente à luta contra diversos pecados que se opõem a cada uma das dez virtudes apresentadas. Contrariamente a Norma vitae e a outros documentos da primitiva tradição mariana, em Inspectio cordis, falando relativamente muito a respeito da mortificação, Papczyński em princípio não aborda detalhadamente as suas práticas específicas. Ele as situa numa perspectiva teológico-ascética mais ampla, na qual o papel fundamental cabe ao amor sobrenatural, aliado à busca da vontade divina a exemplo de Cristo e ao seu obediente e humilde cumprimento, bem como à necessidade de subordinar a ela todas as esferas da vida humana. Nesse tipo de abordagem, o objeto da mortificação é basicamente todo o espectro da vida humana, tanto aquelas áreas que o beato Estanislau avalia como incoerentes, desordenadas ou pecaminosas, como as esferas em geral positivas, que no entanto se opõem ao objetivo fundamental da vida religiosa. De forma decididamente negativa é avaliada toda atitude pecaminosa e, por isso, o objeto básico da mortificação é tudo que possa conduzir ao pecado. Em uma das suas reflexões ele exclama: “Oh, procura aqui, eu te suplico, superar a frieza espiritual, para que não sofras eternamente aquele frio infernal. Procura com sérias mortificações dominar as chamas da ira e o incentivo da louca luxúria (“vesanae luxuriae incentivum”), para que não sejas castigado naquelas loucas chamas”54. A mortificação dos sentidos, da concupiscência e das paixões parece ter um caráter primordial, visto que a falta do seu domínio conduz diretamente ao pecado. Na reflexão que aborda o Evangelho sobre os leprosos (cf. Lc 17:12), Papczyński em certo sentido identifica a falta de mortificação com a “grande lepra dos pecados” e afirma: “Lepra é a exuberância dos sentidos (“sensuum evagatio”), lepra é o ódio aos irmãos, lepra é a inveja e a ira, e especialmente lepra é toda ganância”55. A norma geral da mortificação dos sentidos, na opinião do autor de Inspectio cordis, é subjugá-los e torná-los subordinados à razão56, de maneira que haja o progres53 Regula, p. 47. 54 IC, p. 1052; cf. também: E. MATULEWICZ. Problemy chrześcijańskiej ascezy..., op. cit., p. 121. 55 IC, p. 774-775. 56 Vale a pena citar todo o trecho da reflexão em que Papczyński, fazendo referência à frase extraída do Evangelho de S. João, de forma bastante simbólica, no contexto da santa Comunhão, refere- -se à mortificação dos sentidos e às normas que devem ser seguidas: “’Os seus servos vieram-lhe ao encontro, dizendo que o seu filho vivia (Jo 4:51)’. Considera que esses servos nada mais são que os teus sentidos, porquanto eles tantas vezes saem ao encontro do seu senhor, isto é, da razão, quantas vezes a mortificação que em ti esmorece se anima e, quando ela revive, anunciam que ela vive. Porque, embora em todas as ocasiões deves em tudo mortificar-te, mais ainda deves fazê-lo hoje, quando tens presente em teu coração o Hóspede Celestial. Cometer em Sua presença mesmo alguma leviandade seria não apenas uma indelicadeza, mas uma torpeza. Por isso, controla os olhos, a língua, as mãos e os pés prontos
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