97 e é carinhoso, principalmente em relação aos perdidos e fracos. Algumas das imagens presentes em Inspectio cordis são assinaladas pela ternura, por uma profunda cordialidade e pelo sentimento da proximidade e do desvelo paternal. Podem ser nelas percebidas as experiências humanas da primeira infância e do relacionamento familiar entre pai e filho, talvez até as experiências pessoais de Papczyński. Porque assim “costuma conosco comportar-se o Pai, nosso Deus”, observa em uma das reflexões, “transportando-nos e segurando-nos em Seus braços, conduzindo, sustentando e num momento inesperado deixando-nos e abandonando-nos, para que nós mesmos aprendamos a correr. Procede como faz o pai ou a babá com a criança pequena, à qual ensina a dar os passos: ora a conduz e a sustenta com a mão, ora oferece um bastão para se apoiar, e no final até este retira, mandando andar sem nenhum apoio”19. Com razão se pode supor que o objetivo de tal apresentação da paternal bondade de Deus é o desejo do autor de induzir a um confiante recurso ao Pai celestial, cuja salvífica bondade supera qualquer amor terreno. O objetivo da vida religiosa abordado de maneira geral, na opinião do Fundador dos marianos, está direcionado a Deus Pai e visa a “glorificar o Pai” (“glorificare Patrem”). Citando em Inspectio cordis a frase do Evangelho de S. Mateus (5: 16), Papczyński lembra que o religioso, como discípulo de Cristo, deve se empenhar para que “sempre brilhem diante das pessoas as suas boas ações” e para que todos “glorifiquem o Pai que está nos céus”20. Repete e desenvolve um pouco esse mesmo pensamento numa outra reflexão, referindo-se ao trecho do Evangelho de Lucas (12: 35) e aos frutos espirituais da Eucaristia. Apela então: “Oxalá também tu te inflames na Santa Eucaristia para as boas ações, a fim de que resplandeça com elas a tua alma diante das pessoas e com isso seja glorificado o Pai Celestial (“caelestis Pater glorificetur”)”21. Os trechos citados permitem interpretar e centralizar na pessoa de Deus Pai o objetivo da vida religiosa fornecido nas primeiras versões das constituições marianas, isto é, em Norma vitae e nos Statuta. Graças a isso o teocentrismo de ambos os documentos legais assume uma dimensão paternal, e o desvelo “pelo maior crescimento da glória divina” refere-se ao apelo de Cristo a “glorificar o Pai que está nos céus” (cf. Mt 5: 16)22. 19 IC, p. 628. 20 Ibidem, p. 948. 21 Ibidem, p. 836. 22 Neste ponto vale a pena observar que em Norma vitae Papczyński fornece o objetivo geral da Congregação dos marianos, “comum a todas as santíssimas Ordens”, que é “o maior crescimento da glória divina e o desvelo pela salvação própria, com uma séria busca da perfeição”. E depois, nos parágrafos seguintes, desenvolve o objetivo específico da Ordem. Os Statuta, por sua vez, não apresentam esse tipo de divisão e fornecem “o maior crescimento da glória divina” como o primeiro elemento sequencial do “objetivo da vocação” mariana. Cf. NV I 1; Statuta I 1.
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