96 constantemente diante do Pai e a Ele se reportando, aponta para o Pai como para a Pessoa amada e mais importante, para o cumprimento de cuja vontade veio ao mundo. Papczyński, até com certa predileção, alude a muitos textos do Novo Testamento que falam de como Cristo se empenhou pelo cumprimento da vontade do Pai: desde o momento da Encarnação, passando pelos acontecimentos da infância, pela doutrina, pelas curas, pela oração e principalmente pelos acontecimentos pascais15. Comentando em Inspectio cordis a passagem do achado de Jesus no templo, aos doze anos de idade, incluindo a Sua afirmação de que devia “estar na casa de Seu Pai” (cf. Lc 2: 49), observa que “o Menino de doze anos de idade, já numa idade tão tenra, tem a consciência do motivo pelo qual veio ao mundo: já se preocupa com o cumprimento da vontade do Pai”16. Na postura de Cristo em relação ao “Pai Eterno” vê o Fundador dos marianos a fundamentação da sua visão da vida religiosa, na qual ocupam um lugar essencial a busca e o cumprimento da vontade de Deus. Numa das reflexões dirigidas aos religiosos, o beato Estanislau ensina: “Jesus Cristo necessita de servos obedientes como foi Ele mesmo; o Seu alimento era cumprir a vontade do Pai, ao qual foi obediente até a morte na cruz”17. Esse tipo de relacionamento do Filho de Deus Encarnado com o Pai é para o Fundador dos marianos o sinal do supremo amor filial, isto é, de uma resposta cheia de confiança, “dedicação, entrega e sacrifício” ao amor do Pai. Em consequência disso, então, Papczyński interpreta a espiritualidade religiosa como uma evangélica escola de amor de Deus a exemplo de Jesus Cristo, que consiste no cumprimento da vontade do Pai. Afirma ele: “Cumprir (“peragere”) a vontade de Deus e conformar-se (“conformare”) com ela é a mais nobre e a suprema perfeição. É o caminho ao céu mais trilhado por todos os santos, patriarcas e religiosos. [... ] Em todos os empreendimentos e propósitos dize: ‘Seja feita a Vossa vontade assim na terra como no céu’. Quanto a mim, seja feita, Senhor, a Vossa vontade [cf. Mt 6: 10] em cada momento, hora, dia e na eternidade”18. Na convicção do Fundador dos marianos, Deus Pai se encontra sempre próximo do homem, ajudando-lhe em todas as necessidades, e o Seu amor perdoa 15 Essa típica fascinação pela submissão do “Deus-Homem”, como frequentemente a define Papczyński, ao “Pai Eterno” pode ser percebida em todos os escritos do Fundador dos marianos, mas de maneira especial em Inspectio cordis e nas obras passionárias: Christus Patiens e Orator Crucifixus. 16 IC, p. 631. 17 Ibidem, p. 683-684. 18 IC, p. 631-632. Nos escritos religiosos, a questão da vontade divina, embora não seja sistematicamente abordada, é um conceito pluralista, envolvendo não apenas as dimensões básicas da vida cristã, mas também elementos específicos da espiritualidade religiosa, como p. ex. os votos. Em Templum Dei Mysticum, Papczyński observa que para o cristão (supostamente leigo), a vontade divina revela-se pelos mandamentos e “pela voz interior de Deus que fala na consciência”. Cf. T. ROGALEWSKI MIC. Koncepcja życia chrześcijańskiego... , op. cit., p. 34-39.
RkJQdWJsaXNoZXIy MjI2Mw==