38 amam a Deus buscarão até as menores possibilidades, as mínimas ações, os “trabalhos baixos”, as “tarefas desprezadas”, encontrando neles uma possibilidade de “com o seu entusiasmo inflamar as centelhas do amor de Deus”, e com humilde serenidade de espírito suportarão todas as provações, as tarefas impostas, as “incessantes cruzes”, as adversidades, os insucessos, as perseguições. Porque o “forte amor de Deus”, como observa o Fundador dos marianos, reina nos corações daqueles “que não desejam quaisquer sinais extraordinários de benevolência e graças, mas trazem com uma espécie de santa obstinação o jugo do serviço a Deus” e “também jamais se cansam de trilhar o caminho da perfeição, das práticas do amor e das labutas diárias”53. De forma semelhante, Papczyński expressa esse mesmo pensamento em Norma vitae, onde por “amor a Deus” manda aceitar todas as experiências, tanto as boas como as más, e − numa alusão à vida ascética – conclui que, “embora o amor de Deus seja um dom, ele é recebido e preservado pela incessante oração e mortificação”54. O amor sobrenatural é, portanto, a medida fundamental da santidade; onde falta o amor aliado à humildade, a santidade é falsa ou se trata apenas de aparências de santidade. No entanto o mais contrário ao amor, por sua própria natureza, é o pecado, que pode assumir variadas formas. Os atos do amor de Deus que inclinam o homem a Deus, na opinião do beato Estanislau, exigem um complemento em forma do amor ao próximo. Abordando essa questão de forma geral, é preciso constatar que o amor ao semelhante é de certa forma um prolongamento do salvífico amor de Deus, de que o religioso passa a participar, porquanto se trata – como acredita o autor de Inspectio cordis – de que os “tesouros de ciência e de virtudes” e as “forças sobrenaturais da graça”, de que passou a participar a pessoa religiosa, “sejam prudente e generosamente fornecidos para a salvação dos semelhantes”, para “conquistar as almas de muitos”55, de maneira que todos possam alcançar a salvação merecida por Cristo na cruz. O autêntico amor sobrenatural deve expressar-se no desvelo e no “trabalho” pela salvação do próximo e pelo crescimento nas virtudes, dentre as quais o amor é a primeira. Além disso, um dos irrefutáveis e inequívocos critérios que apontam para a “perfeição do amor” é o desejo e a prestação da “ajuda ao próximo”, bem como, “pelo bem comum, a tolerância das coisas mais desagradáveis e contrárias” às predileções; caso contrário, acredita Papczyński, o religioso testemunha a respeito de si que é um “verdadeiro ignorante, desconhecedor de todas as virtudes graças às quais entramos no céu”56. Em uma das 53 Ibidem, p. 674-676, 744-745. 54 NV, II 1. 55 IC, p. 618-619, 633-634, 677. 56 Ibidem, p. 659.
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