A espiritualidade religiosa segundo Es Papczynski

39 reflexões sobre o estímulo evangélico ao amor mútuo e à reconciliação entre os “irmãos” (Mt 5: 25), Papczyński observa que “é indigno do amor de Deus aquele que não está inflamado do amor ao próximo”, porquanto “é no amor a Deus e ao próximo que se encerra a vida eterna”57. A questão da virtude sobrenatural do amor no seu aspecto do amor ao próximo é também amplamente analisada nos escritos relacionados com a organização da vida religiosa das primeiras comunidades marianas. No caso dos princípios contidos em Norma vitae (ou mais tarde nos Estatutos de 1723) e relacionados com os marianos, os ensinamentos do beato Estanislau Papczyński assumem um significado específico, visto que eles têm como tarefa conferir à comunidade religiosa um conteúdo interior, que deve ser justamente a virtude do amor. Por essa razão, em Norma vitae Papczyński entrelaça o capítulo Sobre o amor com estímulos ao amor mútuo entre os membros do mesmo Instituto; entre eles, especialmente um, que alude a 1Cor 16: 14, passou à tradição: “Tudo entre vós seja feito na caridade”58. O amor sobrenatural está tão entrelaçado com a virtude teológica da fé que algumas vezes, como observa Papczyński, torna-se difícil distinguir qual delas é a primeira. Em Inspectio cordis, meditando sobre a vocação de André (Mt 4: 18), chama a atenção para o fato de que “a luz do olhar divino”, com que Cristo agraciou o pescador convocando-o para ser apóstolo, criou uma espécie de nova realidade, semelhante ao ato da criação, visto que, da mesma forma somo “do caos, em toda a parte mergulhado nas trevas”, Deus criou o mundo e “conferiu forma à matéria informe”, assim também “lançando o olhar” sobre André “incutiu nele dois elementos: o amor e a fé, dos quais decorrem todas as virtudes”. Por isso, afirma Papczyński, o pescador chamado, tendo-se defrontado com esse divino olhar do amor de Cristo, “imediatamente abandonou tudo e O seguiu. Acreditou e ao mesmo tempo amou”59. A fé, com efeito, da mesma forma que o amor, é um dom que é recebido “graças ao Espírito Santo”, e ao mesmo tempo, à semelhança da fé, também a virtude do amor presente na alma do crente introduz na realidade divina e muda a maneira de ver o mundo, tornando-se de alguma forma uma nova base do conhecimento. Porquanto os discípulos, como ensina o autor de Inspectio cordis, aludindo aos eventos evangélicos da paixão 57 Ibidem, p. 751, 774. No manuscrito de Inspectio cordis, na folha 67v, essa frase se encontra grifada para confirmar a importância da afirmação: “indignum esse amore Dei, qui non flagrat amore proximo”. 58 Vale a pena recordar que na tradição mariana, não apenas na literatura, mas também na arte, torna-se perceptível a alusão justamente a essa frase como um dos elementos do carisma mariano, considerado como característico; p. ex. na capela do noviciado em Skórzec, um baixo-relevo representa Papczyński com a legenda extraída de Norma vitae (II 1): “Omnia apud vos in charitate fiant”. Cf. também: W. NIECIECKI MIC. W poszukiwaniu mariańskiej drogi (red. J. KUMAŁA MIC), Licheń, 2004, p. 221. 59 IC, p. 345.

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