188 enfraquecer o teu corpo com trabalhos, mortificações, vigílias e penitências, se desejas para ele uma glória mais maravilhosa e o futuro esplendor na felicidade eterna”. E, fazendo alusão à santa Comunhão, conclui: “Esse Senhor imortal, a quem, ressuscitado, com viva fé hoje em ti hospedarás, em tudo isso te será da maior ajuda”60. Porque afinal, como observa o autor de Inspectio cordis, o homem todo, tanto na sua corporeidade como na sua espiritualidade, deve alegrar-se no céu com a beatífica visão de Deus e, por isso, ao subordinar à mortificação as suas variadas esferas, visa a sua apropriada ordenação e preparação. Convencido de que devem experimentar essa alegria não apenas as faculdades espirituais do homem, mas também os seus sentidos, estimula: “Empenha-te, portanto, diligentemente pela contínua mortificação dos teus sentidos, se queres alegrar-te com a tua felicidade. E principalmente mortifica de maneira especial a tua inteligência e a tua vontade, porque para elas estão preparados no céu dons especiais”61. O conceito de mortificação, presente nos escritos do beato Estanislau e da primitiva tradição da Congregação dos Padres Marianos e que sobressai da análise dos apropriados documentos, parece apontar para a inteligente ação cotidiana do religioso, que, guiando-se por certa sobriedade indispensável em todas as atividades, busca a ordenação interior que serve ao contínuo progresso na fé e no amor sobrenatural. Em consequência, isso conduz a uma postura específica, que se caracteriza não apenas pela rejeição de tudo que pode levar ao pecado, mas também pela moderação na área dos bens em princípio honestos, no entanto inconsistentes com a espiritualidade mariana. Desse ponto de vista, portanto, pode-se dizer que a espiritualidade religiosa segundo o pensamento dos autores estudados possui tanto um caráter mortificante como também pascal, ressurrecional, porque se relaciona com a vida eterna e recorda os valores derradeiros do homem. 60 Ibidem, p. 688-689. 61 IC, p. 1060. Essa frase é a conclusão de uma argumentação mais longa, que, em razão de uma visão bastante positiva do homem, inclusive do seu sensualismo na perspectiva da vida eterna, vale a pena ser citada na íntegra: “Considera e contempla aqueles bens que naquela Santa Cidade serão proporcionados ao corpo e à alma ao mesmo tempo. O corpo alcançará a imortalidade, a ausência do sofrimento, a mobilidade e uma claridade difícil de compreender. A alma, juntamente com a suprema glória, terá a perfeita felicidade. E, se queres conhecer com que privilegiados dons serão contemplados os diversos sentidos, leva em consideração que a visão alcançará a máxima nitidez e clarividência, graças ao que poderá penetrar tudo de alto a baixo. O sentido do tato alcançará como dom a preservação do seu sempre indestrutível viço. O gosto sentirá doçuras e inúmeros e agradáveis deleites, não sob o ponto de vista de manter-se com vida, mas para a abundante satisfação e para o contentamento. A audição será sempre afagada por variados hinos e cânticos angelicais. O olfato, finalmente, sentirá aromas incomuns em todas as coisas, e até o do seu próprio corpo”. IC, p. 1059-1060. Uma abordagem semelhante, incluindo a descrição das experiências sensitivas do corpo glorificado, foi apresentada por Papczyński também em Templum Dei Mysticum. Cf. TDM, p. 1175-1185; cf. também: K. KLAUZA, op. cit., p. 121-124.
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