197 referências teológicas à Eucaristia. Uma perspectiva semelhante pode ser percebida em Vita Fundatoris, ainda que, sem dúvida, esses documentos possuam objetivos diferentes. Assim, Leporini, buscando a definição do modelo da vida religiosa, aponta para o direcionamento eucarístico da espiritualidade do Fundador dos marianos. Uma manifestação especial disso seria a sua “ardente devoção ao Santíssimo Sacramento da Eucaristia”, o que também “ensinava a seus irmãos pela recitação diária do hino “Tão sublime sacramento”92 e pela experiência pessoal do poder da Eucaristia, que resultava num extraordinário fortalecimento em circunstâncias especialmente difíceis93. Diferentemente dos outros documentos da primitiva tradição da Congregação dos Padres Marianos, o lugar da Eucaristia na espiritualidade religiosa apresentado em Inspectio cordis possui uma ampla perspectiva teológico-espiritual. Sobretudo o beato Estanislau busca localizá-la no contexto da doutrina e da tradição da Igreja. Por isso com frequência cita adequados textos bíblicos que falam da sua instituição. Uma das reflexões representativas é a “Meditação XVIII”, que se encontra na quarta parte e na qual é proposta uma preparação exemplar antes de cada Comunhão. Nessa meditação o autor adota a seguinte cronologia dos acontecimentos relacionados com a instituição da Eucaristia, fornecendo ao mesmo tempo a sua interpretação: a Eucaristia foi instituída pelo próprio nosso Senhor e Salvador, Jesus Cristo, Filho único do único e verdadeiro Deus, que realizou isso em Jerusalém, durante a Última Ceia, antes da Sua cruel paixão e morte. Isso aconteceu quando estava comemorando com os discípulos a Páscoa, na casa de certo cidadão, homem justo e nobre. Esse acontecimento é descrito por S. Mateus, antigo cobrador de impostos e mais tarde participante da Última Ceia e fiel ministro da Palavra Divina. Cristo pronunciou as palavras da instituição da Eucaristia, e elas estão registradas no Evangelho. Das palavras da instituição resulta claramente que na santíssima Eucaristia se encontra verdadeiramente (“vere”) e realmente (“realiter”) o Corpo de Cristo sob a espécie do pão; Sua presença não é apenas espiritual, mas também material. O Corpo de Cristo, embora seja o mesmo Corpo que foi muitas vezes ferido e atingido pela morte, no sacramento da Eucaristia é vivo. Papczyński encerra a primeira parte um tanto estranha para essa prática, visto que no final do capítulo afirma: “Praecipua enim devotio Virginis fuit ad Missam, sive ad dignissimum Sacramentum Altaris”. Regula, p. 50. 92 Vita Fundatoris, p. 644. 93 Como o primeiro acontecimento, Leporini cita a travessia de Papczyński pelo rio Dunajec, quando ele tinha dez anos de idade. Naquela ocasião, querendo atravessar o rio não encontrou um barqueiro, mas, tendo entrado no barco e pronunciado “louvado seja o Santíssimo Sacramento”, chegou são e salvo à outra margem. A segunda descrição diz respeito ao perigo de morte em que certa vez se encontrou em Varsóvia. Isso aconteceu num dia em que, quando o jovem escolápio Papczyński, “tendo naquele dia recebido a santa Comunhão”, estava pronto a sofrer a morte pelas mãos de um soldado sueco, “embora tivesse sido atingido, no entanto não foi ferido”. Ibidem, p. 635, 638.
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