Os Marianos 1670-1788

OS MARIANOS 1670-1788 Studia Marianorum 4 Jan Kosmowski MIC Do eremitério à evangelização

1 OS MARIANOS 1670-1788 Do eremitério à evangelização

2 STUDIA MARIANORUM · 4 REDAÇÃO: Jair Batista de Souza, MIC Jovanete Paulo Vieira MIC Andrzej Pakuła, MIC 1. A. PAKULA MIC, A ESPIRITUALIDADE RELIGIOSA SEGUNDO ESTANISLAU PAPCZYŃSKI E A PRIMITIVA TRADIÇÃO DA CONGREGAÇÃO DOS PADRES MARIANOS 2. J. KOSMOWSKI MIC, OS MARIANOS NOS ANOS 1787-1864 3. BEATO ESTANISLAU PAPCZYŃSKI. PAI E GUIA DA VOCAÇÃO MARIANA

3 Jan Kosmowski MIC OS MARIANOS 1670-1788 Do eremitério à evangelização Tradução: Mariano Kawka Cúria Geral da Congregação dos Padres Marianos Casa Editorial dos Marianos Roma / Varsóvia 2022 PROMIC

4 Título do original: MARIANIE 1670-1788 Od pustelni do ewangelizacji Tradução do polonês Mariano Kawka Projeto da capa: Hanna Woźnica-Gierlasińska Ilustração na I página da capa Imagem de Nossa Senhora na capela sob a invocação da Imaculada Conceição da SVM e de S. Miguel Arcanjo, construída em 1673 pelo nosso Santo Pai, Estanislau Papczyński em Puszcza Marianska IV página da capa Logomarca do jubileu dos 350 da Congregação dos Padres Marianos

5 SUMÁRIO Introdução.................................... 9 Relaçãodeabreviaturasesiglas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 18 OS PRIMÓRDIOS 1670-1677 De pastorzinho a pastor do povo de Deus. . . . . . . . . . . . ...... 25 Da Oblatio à Fundatio Domus Recollectionis. . . . . . . . . . . . . . . . 37 A instituição da Casa de Recolhimento em Puszcza Korabiewska: esperanças e dificuldades . . . . . . . . . . . . . . . . . . ......... 42 APOSTOLADO OU CONTEMPLAÇÃO 1677-1723 A abertura do núcleo em Nova Jerusalém. . . . . . . . . . . . ...... 51 Fundações perdidas do tempo do Padre Papczyński . . . . . . . . .... 63 A instituição canônica da Congregação dos Padres Marianos . . . . .. 67 Empenhos pela aprovação da Santa Sé . . . . . . . . . . . . ...... 67 A instituição com base na lei diocesana de 21 de abril de 1679 . . . . 68 Os privilégios concedidos aos marianos pelo Rei João Sobieski – 2 de junhode1679................................ 71 O breve pontifício Cum sicut accepimus – 21 de março de 1679. . . 72 A segunda instituição canônica dos marianos com base na lei diocesana –21dejaneirode1687. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .......... 74 Agênesedodocumento.......................... 74 A comissão episcopal e os seus decretos – 14 de junho de 1685. . . .78 A nova instituição canônica dos marianos –21dejaneirode1687. . . . . . . . . . . . . . . . . . ......... 80 Os marianos com base no direito pontifício –21denovembrode1699. . . . . . . . . . . . . . . . ......... 83

6 „Para não permanecerdes inativos na Vinha do Senhor” – em direção ao apostolado . . . . . . . . . . . . . . . . . . ......... 94 Novasfundações:GoźlineSkórzec. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 101 A fundação de Goźlin. . . . . . . . . . . . . . . . . . ......... 101 Os marianos em Skórzec . . . . . . . . . . . . . . . . . ........ 109 Crise de identidade e de carisma – Os franciscanos reformados diantedosmarianos..............................117 A busca de um caminho próprio – A „Dispersão de Rostkowski”. . . . 132 A situação religioso-política na Polônia no século XVIII . . . . .. 132 A situação política e econômico-social. . . . . . . . . . . ...... 133 Precursores do renascimento . . . . . . . . . . . . . . . ....... 141 Asituaçãoreligiosa............................ 144 Duas facções dentro da ordem – A dissensão e a gênese da „Dispersão de Rostkowski”. . . . . . . . . . . . . . . . ........ 150 As pessoas responsáveis pela „Dispersão de Rostkowski”. . . . . . . 158 Padre Joaquim de S. Ana Kozłowski. . . . . . . . . . . . . ...... 158 O Bispo Adão Rostkowski, auxiliar de Łuck. . . . . . . . . . . . . . 163 José(Alexandre)Wyszyński. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 165 Padre Mateus de S. Casimiro Krajewski . . . . . . . . . . . . . . . . 167 A luta com a „dispersão” – As reformas e a nova aprovação pontif ícia da congregação – 3 de setembro de 1723 . . . . . . . .... 170 Statuta Marianorum, ou as Constituições marianas de 1723. . . . .. 177 Os primeiros passos na direção das reformas . . . . . . . . . . ..... 185 PADRE CASIMIRO WYSZYŃSKI ESTABILIZAÇÃO E CONSOLIDAÇÃO DA CONGREGAÇÃO 1723-1755 Moderador da jovem geração dos marianos: Mestre, leitor, educador . . . . . . . . . . . . . . . . . . ......... 191 Cooperação com a graça da vocação . . . . . . . . . . . . ...... 191 Educador de uma nova geração dos marianos . . . . . . . . . . . . . . . 195

7 Tempo de reparação e edificação . . . . . . . . . . . . . . . ....... 198 Sob o domínio dos reformados . . . . . . . . . . . . . . ....... 198 A atividade do Padre Casimiro Wyszyński em Roma e a superação da crise (1730-1733) . . . . . . . . . . . . . . . . . . ......... 202 Formação: noviciado e estudos . . . . . . . . . . . . . . ....... 209 Estudos religiosos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .......... 215 O governo do superior geral Padre Casimiro Wyszyński –1737-1741... .. .. .. .. .. .. .. .. .. ............. 220 O segundo mandato do Padre Casimiro Wyszyński – 1747-1750. . . . 226 Procurador-geralemRoma.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .230 A disputa com o Pe. Estêvão Turczynowicz – A defesa do título, dos direitos e do hábito dos marianos. . . . . . . . . . . . . . . . . . 232 Empenhos pela aquisião de uma igreja em Roma. . . . . . . .... 243 LENTA EXPANSÃO DA CONGREGAÇÃO Os checos na ordem dos marianos como fonte de força espiritual, renovação e expansão. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .......... 251 Educadores da juventude mariana . . . . . . . . . . . . . . ....... 263 Trabalhos pastorais e organizacionais. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 268 As capelanias marianas. . . . . . . . . . . . . . . . . ......... 273 As capelanias nos solares dos magnatas e o trabalho educacional.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . ............ 280 Os superiores gerais (1750-1776): desde o Renovador Padre Casimiro Wyszyński até o Reformador Padre Raimundo Nowicki . . . . . . . . . 292 Padre Caetano Wetycki (1750-1757). Novas fundações . . . . . .. 292 Padre Cipriano de Todos os Santos Fijałkowski (1757-1760). . . . . 299 Padre Ladislau de S. Valentim Kanobrocki (1760-1763). . . . . . . . 301 Padre Jacinto Wasilewski (1763-1770). . . . . . . . . . . . . . . . . . 303 Padre Adriano Ignatowski (1770-1776). . . . . . . . . . . ...... 306 Os marianos em Portugal . . . . . . . . . . . . . . . . . ......... 309 O início: adversidades e esperanças . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 309

8 AcaminhodeBalsamão..........................317 SobogovernodoIrmãoJoãodeDeus. . . . . . . . . . . . . . . . . . 323 A instauração do processo de beatificação do Padre Casimiro . . . . . 330 O desenvolvimento da congregação em Portugal . . . . . . . . . . . . . 334 Sob o governo do Padre Aleixo Fischer. . . . . . . . . . . ...... 334 O comissariado português na jurisdição do bispo easuaatividade. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .......... 340 A OBRA DAS REFORMAS DO PADRE RAIMUNDO NOWICKI: GÊNESE E REALIZAÇÃO OsmarianosemRoma. . . . . . . . . . . . . . . . . . .......... 347 Abuscadeumlugar. . . . . . . . . . . . . . . . . . .......... 347 A aquisição da igreja e do convento de S. Vito. . . . . . . . . .... 365 Empenhos pela beatificação do Padre Estanislau edoPadreCasimiro. . . . . . . . . . . . . . . . . . .......... 377 A separação dos franciscanos refomados e a escolha de um caminho próprio . . . . . . . . . . . . . . . . . . ......... 386 A atividade do Padre Cândido Spourny. . . . . . . . . . . ...... 386 O Padre Norbeto Gołkowski como superior e procurador-geral. . . 398 A realização da reforma promovida . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 405 Conclusão... .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. ............ 411 Bibliografia. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . ............ 416

9 INTRODUÇÃO Em 2004, na série “Studia Marianorum”, foi publicado o livro de nossa autoria Os Marianos nos anos 1787-1864. O presente trabalho apresenta a história dos marianos do século anterior e é a continuação de um estudo em ampla escala sobre a sua fundação e a sua história. Apresenta os primórdios da Ordem dos Marianos no século XVII e a sua história do século XVIII, que não têm tido até o presente um estudo integral. O jubileu dos 350 anos da Congregação dos Padres Marianos, que a Congregação comemorou em 2020, transformou-se numa boa ocasião e num estímulo para a abordagem desse tema. Espero que este trabalho contribua para a ampliação da nossa consciência mariana, para um conhecimento mais pleno da nossa herança e para uma criativa reflexão a respeito do passado mariano, tão estreitamente ligado com o destino da Polônia. Para os marianos, o primeiro século da sua existência foi um período difícil, mas extremamente importante. Iam se moldando então as bases da legislação mariana. Ocorreu a primeira aprovação pontifícia (1699) e a adoção da Regra das dez virtudes da SVM. As duas aprovações pontifícias posteriores, de 1723 e 1786, são duas outras etapas importantes nas lutas pela existência da ordem, pelo seu carisma e pelo direcionamento das suas ações. O século XVIII demonstra com quanta dificuldade ia nascendo uma amadurecida obra religiosa com o seu próprio perfil e carisma, e como por cem anos, desde a fundação da ordem em 1670, persistiu a luta pela fidelidade aos propósitos do Fundador e ao seu próprio e independente caminho de desenvolvimento. Esse é também o século em que já foram instituídos e organizados todos os conventos e residências marianas. No século XIX já não surgiu nenhuma outra fundação. Nesse período, desempenharam um papel fundamental três personagens: o Padre Fundador – Estanislau Papczyński, o Padre Renovador – Casimiro Wyszyński e o Padre Reformador – Raimundo Nowicki. Queremos neste trabalho apresentar o papel que eles desempenharam como inspiradores do caminho religioso, da observância dos coirmãos e da fidelidade à sua vocação e à sua regra. Pretendemos também apresentar as figuras de outros religiosos, extrair as piedosas e pouco conhecidas pessoas dos fiéis imitadores do Padre Fundador, bem como mostrar os períodos do impulso espiritual, do desenvolvimento, das conquistas, da luta pela fide-

10 lidade aos ideais religiosos, bem como os períodos do marasmo, da queda, da crise, mas também dos esforços para os superar. Graças ao processo de beatificação (1767-1775) do Pe. Estanislau Papczyński e dos trabalhos retratando a sua herança, de pesquisadores marianos como: Pe. Casimiro Krzyżanowski, Pe. Juozas Vaisnora, Pe. Estêvão Sydry, Pe. Venceslau Makoś e Pe. Tadeu Rogalewski, os difíceis anos 1670-1701 do lento nascimento e da consolidação da ordem são conhecidos até com bastante detalhamento. Valioso é sobretudo o trabalho escrito pelo historiador mariano Pe. Estêvão Sydry, A organização dos marianos no século XVIII, e defendido como tese de doutorado em 1930. Esse trabalho possui um caráter legal e apresenta as instituições marianas, a legislação, a formação, a observância religiosa e a solicitude dos marianos pelo seu desenvolvimento e pela sua evolução, inclusive a séria reforma do Pe. Raimundo Nowicki. O trabalho seguinte relacionado estritamente com o século XVIII são as dez páginas do artigo elaborado pelo mariano Pe. Boleslau Jakimowicz, A estabilização e o desenvolvimento da ordem no século XVIII1. Em razão da exiguidade do artigo, os importantes problemas relacionados com o desenvolvimento da ordem, dos conflitos de ideias e dos longos anos de lutas pela própria linha do procedimento e do carisma da ordem foram tratados de forma marginal, e algumas conclusões, p. ex. a de que “em razão do seu caráter plebeu” a ordem não se desenvolveu, eram errôneas. Vale a pena mencionar aqui igualmente os trabalhos do historiador lituano Jonas Totoraitis, ainda que os seus trabalhos se relacionem principalmente com os conventos em Mariampol e Mirosław. Na segunda metade do século XVIII foi também iniciado o processo de beatificação do Pe. Casimiro Wyszyński. Isso serviu de forte impulso para a coleta de testemunhos da sua vida, de todo tipo de recordações sobre a sua atividade e as graças alcançadas. Isso serviu também de abençoada ocasião para analisar, sobre essa base, não somente a figura do Padre Casimiro, da sua profícua e criativa atividade na congregação, mas igualmente a história geral da ordem nos anos 1725-1755, nos quais ele agiu e produziu, sanando a congregação e conduzindo-a a águas profundas. Com base na documentação então obtida e em parte analisada, os historiadores marianos do século XX: Boleslau Jakimowicz, Juozas Vaisnora e Sigismundo Proczek redigiram novas biografias do Padre Casimiro e publicaram diversos artigos relacionados com essa personalidade, especialmente a sua 1 Todas as obras e todos os documentos citados nesta Introdução estão localizados na Bibliografia.

11 atividade apostólica e mariana. Surgiram também diversos artigos biográficos adicionais que, apresentando a figura do Padre Casimiro em face da sua época, contribuíram para o aprofundamento do conhecimento sobre a história da congregação2. Para a falta de dissertações históricas exaustivas sobre o primeiro século da existência da ordem dos marianos contribuíram causas muito diversificadas, das quais a mais importante é com certeza a falta pesquisadores adequadamente preparados. Uma outra causa, extremamente importante, foi o destino trágico dos arquivos marianos atingidos pela cassação dos conventos na zona da ocupação russa em 1864, em consequência do que muitos deles foram saqueados ou destruídos. Os marianos eram a única ordem religiosa que possuía todos os seus conventos na zona da ocupação russa. Após a cassação, permaneceu ativo unicamente o convento de Mariampol, na Lituânia, ao qual foram trazidos os marianos dos outros conventos, com exceção daqueles que foram enviados à Sibéria. Ali também foram reunidas as diversas peças dos arquivos, que – infelizmente – com a cassação daquele último convento mariano em 1904, perderam-se quase na sua totalidade. A laboriosa busca, coleta e recriação da documentação, empreendidas com enorme esforço, levou à reorganização dos arquivos em Mariampol e Varsóvia. Durante a ocupação nazista, as coleções marianas foram novamente destruídas. Durante o Levante de Varsóvia perderam-se num incêndio os arquivos marianos reunidos no Arquivo Arquidiocesano de Varsóvia, no Arquivo do Tesouro e no arquivo mariano em Bielany. Foram também parcialmente destruídas as coleções guardadas em Mariampol. Após a Segunda Guerra Mundial, os marianos na Polônia iniciaram mais uma vez a penosa busca dos documentos, a recriação do arquivo e a sua organização no núcleo mariano em Bielany, mas já em 1954 os oficiais do Departamento de Segurança tomaram posse de todo o convento mariano em Bielany, Varsóvia, e os religiosos, na calada da noite, foram conduzidos a Gietrzwald. Todos os bens móveis e imóveis foram retirados dos marianos, enquanto que a biblioteca e o arquivo foram dizimados. Foi necessário muito trabalho e esforço para reencontrar, recuperar e recriar muitos dos documentos desaparecidos. Alguns deles se perderam para sempre. Neste ponto é preciso enfatizar o esforço e o engajamento de dois historiadores marianos, o Pe. João Bukowicz e o Pe. Tadeu Górski, que assumiram a tarefa de salvar 2 Cf. Bibliografia.

12 a documentação mariana e de organizar um arquivo científico, ainda que modesto. Os dois processos de beatificação, do Pe. Estanislau Papczyński e do Pe. Casimiro Wyszyński, retomados em 1953, e que haviam sido interrompidos no período das partilhas, deram um novo impulso a amplas pesquisas arquivísticas concentradas no período em que viveram esses dois padres, isto é, nos séculos XVII e XVIII. O maior número de documentos foi encontrado nos arquivos de Wilno. Na Biblioteca da Universidade de Wilno (BUViL) encontram-se cerca de quatrocentos volumes de diversos documentos trazidos em 1864 do arquivo mariano em Raśno, mas que na sua maioria dizem respeito a assuntos administrativos e econômicos do convento daquela localidade. Muitos documentos relacionados com a história de toda a congregação encontram-se no Arquivo Central Nacional Lituano (LCVA). Encontram-se ali, por exemplo, os protocolos das visitações das paróquias marianas, documentos de instituição de conventos e paróquias e o Protocollum. Alguns poucos documentos foram encontrados na Biblioteca dos Wróblewski em Wilno. Uma rica documentação encontra-se no Arquivo Histórico Central Lituano (LVIA), que encerra as biografias de muitos marianos, documentos relacionados com assuntos pastorais e administrativos, com o envolvimento político dos marianos, bem como amplos relatórios, especialmente do período do Levante de Janeiro [de 1863]. Produziu efeitos modestos a busca promovida no Arquivo Histórico em Minsk, na Bielorrússia, bem como no arquivo de Witebsk. Diversas fontes de proveniência eclesiástica encontram-se no arquivo da diocese de Łomża (antiga Sejny), bem como da diocese de Podlasie em Siedlce, em cuja área se encontravam conventos marianos. Muitos importantes documentos, que foram utilizados neste trabalho, provêm do Arquivo Vaticano (ASV). Trata-se de bulas e breves pontifícios concedendo as sucessivas aprovações à ordem dos marianos, bem como de diversos privilégios, indulgências, dispensas e reservas conferidos aos marianos. Alguns documentos significativos dizem respeito à controvérsia com o Pe. José Estêvão Turczynowicz e os seus neófitos-mariavitas, à separação dos reformados e à aquisição da igreja e do convento de S. Vito em Roma, bem como à correspondência com a nunciatura. O material básico que serviu de fonte e foi utilizado no presente trabalho é a coleção de resoluções, decretos capitulares, privilégios da Santa Sé e cartas dos superiores gerais encerrados em Capitula generalia 1702-1999. Um outro documento extremamente importante é o Protocollum Ordinis, contando 460 páginas, que contém a documentação relacionada com os primórdios

13 da congregação, problemas legais e a aprovação diocesana e pontifícia alcançada, bem como a história detalhada do início dos núcleos em Puszcza, Nova Jerusalém, Goźlin e Skórzec. Encontramos ali, por exemplo, uma interessante descrição do controverso período em que foi superior geral o Pe. Mateus Krajewski, que, rompendo a tradição eremítica dos marianos, foi o primeiro a enviar alguns deles à Lituânia a uma missão e autorizou o trabalho pastoral no país. Infelizmente, o Protocollum Ordinis foi mantido somente até 1744. Neste ponto vale a pena mencionar que cada convento mantinha o seu próprio Protocollum, no qual eram registrados os mais importantes documentos e decretos relacionados com toda a ordem, além dos documentos relacionados com determinado convento. Até hoje preservaram-se oito protocolos, mantidos pelos diversos conventos no séDecretos do Capítulo Geral

14 culo XVIII3. Uma fonte importante é constituída pelas Leges Marianae, uma coleção da legislação mariana analisada pelo Pe. Venceslau Makoś em 1999. Foram ali reunidas diversas edições da regra religiosa, das constituições marianas e algumas importantes cartas dos superiores gerais. As mencionadas coleções de documentos, contendo na sua maioria constituições, regras, resoluções, decretos, disposições dos capítulos e dos superiores gerais, possuem um caráter legal, legislativo. Esses documentos estabeleciam os limites institucionais da congregação e apontavam a direção das suas ações. Infelizmente, são muito poucos os testemunhos e documentos que relatam como funcionavam no dia a dia os conventos, como transcorria a vida religiosa ou o relacionamento com a coletividade da região. A recriação, ainda que parcial, dessa realidade mariana exigiu uma penosa e arguta pesquisa, análises detalhadas, comparações extraídas dos frangalhos da documentação e de algumas memórias, bem como um olhar crítico e o cuidado na avaliação de cartas romanas particulares, subjetivas, preservadas até hoje em número bastante significativo. Os primórdios e a história da comunidade mariana do século XVIII estão estreitamente ligados com a história da Polônia. Para a Polônia, essa foi uma época de intensificada dominação política e militar dos Estados vizinhos que cresciam em força, tais como a Prússia, a Rússia e a Áustria, que já tentavam acertar entre si a questão da partilha das terras polonesas, seduzindo para isso as elites polonesas com diversas promessas para obter o seu apoio e atraí-las para o seu lado. O objetivo oculto dos impérios inimigos naquele tempo era conduzir a Polônia ao caos institucional e à fraqueza militar através do bloqueio das reformas que pudessem de qualquer forma fortalecer o Estado Polonês. Por isso, insistentemente se empenham pelo apoio de ambiciosos e presunçosos magnatas e de uma parte da nobreza que podia ser subornada a fim de opor-se a qualquer tentativa de conserto do país. No entanto muitas pessoas, tanto leigas como religiosas, conscientes do perigo em que se encontrava o país e da urgência das reformas, decidiram opor-se a isso. Entre elas havia muitos religiosos: bispos, padres, religiosos e também marianos. Na primeira metade do século XVIII, na congregação mariana reina o marasmo. Enredada nas disputas pela identidade e pelo carisma, estritamente dependente dos reformados, submetida à “dispersão de Rostkowski”, envolvida em dolorosas controvérsias com os mariavitas de José Turczynowicz, que querem assumir a herança mariana e chamar-se marianos, a 3 Cf. Bibliografia.

15 congregação não se desenvolve. Uma reviravolta nessa lamentável situação torna-se a ação do Pe. Casimiro Wyszyński, que dá início a um impulso positivo, que é o prelúdio de sérias transformações e da consolidação do carisma mariano no espírito do ideal do Fundador.

16 A segunda metade do século XVIII é para os marianos um tempo de expansão e desenvolvimento. Os superiores gerais subsequentes, que assumiam a função após o Padre Casimiro Wyszyński, eram seus educandos, religiosos diligentes e piedosos. Isso resultou no início dos processos de beatificação, na instituição de novos conventos e fundações, por exemplo na fundação da missão mariana em Portugal e do convento e da igreja de S. Vito em Roma, numa ampla ação pastoral, cuja manifestação foi a criação das primeiras paróquias marianas, a abertura de escolas paroquiais e de hospitais para os pobres. Neste trabalho queremos também mostrar como os marianos se envolviam em assuntos importantes para a Polônia, na defesa da Igreja, da cultura e da tradição cristã, como respondiam às necessidades culturais, religioso-sociais e nacionais da nossa Pátria e como se posicionavam na linha de frente na defesa desses valores e como os punham em prática. Por razões metodológicas, neste trabalho o tema analisado dessa história dos marianos foi dividido em três períodos de quarenta anos, que nitidamente se distinguem entre si com relação às prerrogativas, às tarefas, bem como ao direcionamento e à dinâmica do desenvolvimento da ordem. O primeiro período são os anos 1670-1710, anos da autoridade e da ação do Pe. Papczyński e dos seus coirmãos. É então que se forma o carisma, que se cria a tradição e se molda a face da ordem. É também nesse tempo que surgem os quatro primeiros núcleos marianos: Puszcza Korabiewska (1673), Nova Jerozolima (1677), Goźlin (1699) e Skórzec (1710-1711). O segundo período são os anos 1710-1749, tempo de grandes controvérsias e de disputas pela fidelidade aos ideais do Padre Fundador, que abalam a ordem e ameaçam com a sua aniquilação. O efeito disso é a estagnação, a paralisação e a falta de novas fundações. Por quarenta anos não surgiu uma sequer. A reviravolta se realiza graças à ação do Pe. Casimiro Wyszyński. Ocorre a superação da concepção da ordem imposta pelos reformados, a sua renovação espiritual e moral, bem como a estabilização e o desenvolvimento. O terceiro período são os anos 1749-1788. Caracteriza-se pela renovação e pelo desenvolvimento como o resultado das reformas realizadas pelo Padre Wyszyński e como o efeito da ação do Pe. Raimundo Nowicki, do Pe. Cândido Spourny e de alguns zelosos coirmãos. Apesar das difíceis condições políticas – não nos esqueçamos de que aqueles eram os tempos saxões, após os quais ocorreu a primeira partilha da Polônia –, os marianos demonstram uma expansão forte e multidimensional. No território da Polônia eles abrem nove novos núcleos, além de três em Portugal e um na

17 Itália. Em sua atividade não se restringem unicamente ao trabalho pastoral, mas dedicam-se igualmente ao ensino, administram escolas elementares, fundam hospitais para os pobres, organizam missões, retiros. Essa etapa se encerra com a independência dos reformados, a volta à herança do Padre Papczyński, a edição das constituições reformadas e a escolha do seu próprio caminho religioso.

18 RELAÇÃO DE ABREVIATURAS E SIGLAS AAP Arquivo Arquiciocesano de Poznań: coleção APS 10 (Acta Processuum Sacrorum). No trabalho foi utilizado o texto latino decifrado por Wacław Makoś. ACPR Arquivo da igreja polonesa de S. Estanislau em Roma. ADS Arquivo Diocesano de Siedlce. AGM Arquivo Geral dos Padres Marianos em Roma. Album mortuorum Patrum ac Fratrum Marianorum APPM Arquivo da Província Polonesa dos Marianos em Varsóvia. APPM, VII A 4, Puszcza Korabiewska, Regesta perceptarum [...], 1742-1788. APPM, VII A 23, Rejestra perceptarum et expensarum [...], Conv. Goslinensis A. D. 1770-1803. Arch. Nunz. Vars. Arquivo da Nunciatura Apostólica em Varsóvia. Arch. Nunz. Vien. Arquivo da Nunciatura Apostólica em Viena. ASV Archivio Segreto Vaticano. AZakS Arquivo da Casa Religiosa em Skórzec. BUViL Biblioteca da Universidade de Wilno. Seção de Manuscritos. Utiliza-se também a sigla: ABUV – Arquivo da Biblioteca da Universidade de Wilno. Cap. Gen. Decreta – Ordinationes Capitulorum Congregationumque Generalium M. I. C. 1702-1999, Puszcza Mariańska 2001. Doc. Viln. Documenta Vilnensia I-II (dois tomos, sem paginação). (BUViL). Dokumenty mariańskie Dokumenty mariańskie z XVII i XVIII wieku, odpisał ks. S. Sydry, J. Bukowicz [red.], Puszcza Mariańska 2004. Trata-se de uma coleção de valiosos documentos do Arquivo do Tesouro em Varsóvia, que foi destruído num incêndio em 1944. EL Encyclopedia Lituanica, I-VI, Boston 1970-1978.

19 El. Alph. Elenchus Alphabeticus Marianorum ab initio Congregationis usque ad renovationem, Romae 1961. Enc. Kość. Encyklopedia Kościelna (de Nowodworski), Warszawa - Płock - Włocławek, 1873-1933 [33 tomos]. Enc. Katol. Encyklopedia Katolicka, Lublin 1973-2014, [22 tomos]. LCVA Lietuvos Centrinis Valstybinis Archyvas (Arquivo Científico Central Lituano) [4/4]. LVIA Arquivo Nacional Histórico Lituano. Index alphabeticus Index alphabeticus nominum et Cognominum Religiosorum et specificatio Conventum PP. Marianorum, LCVA 1676, Ap 1, byla 7. Leporini Leporini M., Vita Fundatoris Congregationis Polonae Ordinis Immaculatae Conceptionis Beatae Mariae Virginis synoptyce elucidatur, Positio, Papczyński, pp. 634-650. Listy Cartas – Coleção de extensas e importantes 23 cartas escritas pelos marianos da procuradoria de Roma e relacionadas com o problema da dependência dos marianos dos reformados, com o funcionamento da Casa de Roma e da igreja de S. Vito. A coleção se encontra em estado precário,sem paginação, e frequentemente as cartas não têm data, então lhes conferimos uma numeração sequencial. Algumas cartas são extensos memoriais, p. ex. a carta de Spourny n. 4, impressa, contém cerca de 100 mil signos gráficos. As cartas encontram-se em: Prot. Wet. (BUViL), F4-A4559. MIC Congregação dos Padres Maianos sob a invocação da Imaculada Conceição da SVM (título utilizado a partir da reforma, em 1909). Navikevicius Navikevicius G. A., Stanislao di Gesú Maria Papczyński 1631-1701. Scolopio e Fondatore della Congregazione dei Padri Mariani, Roma 1960. OIC Ordo Immaculatae Coceptionis Beatae Virginis Mariae Clericorum Regularium Marianorum (nome completo dos marianos utilizado até a reforma em 1909). PAPW Processus Apostolica Auctoritate in Curia Posnaniensi constructi super Virtutibus et Miraculis in specie Servi Dei Casimiri a S. Joseph Wyszyński, Sac. Prof.

20 Congregationis Clericorum Regularium Marianorum Immaculatae Conceptionis B.V.M. Pisma zebrane Escritos reunidos – S. Estanislau Papczyński, Pisma zebrane, 2. ed. Warszawa 2016. Positio, Papczyński Sacra Congregatio pro Causis Sanctorum, Officium Historicum, Poznaniensis Beatificationis et Canonizationis Servi Dei Stanislai a Jesu Maria Papczyński, Fundatoris Clericorum Regularium Immaculatae Conceptionis B. V. M. (+1701), Positio super Introductione Causae et super virtutibus ex officio concinnata, Romae 1977. Positio, Wyszyński Mirandensis seu Brigantien. Beatificationis et Canonizationis Servi Dei Casimiri a S. Joseph Wyszyński, sacerdoti professi Cler. Reg. Marianorum Immaculatae Conc. B. M. V. (+1755), Positio super Introductione Causae et super virtutibus ex officio concinnata, Romae 1986. Prot. Balsam. Protocollum [Balsamanensis] Ordinis Mariani Immaculatae Conceptionis B. V. Mariae [...] conscriptum a P. Fr. Alexio de Octaviano Fischer [...], Anno Domini 1758 (rkps AGM). Prot. Gosl. Protocollum [Goslinensis] Ordinis Immac. Concep. Congregationis Polonae Defunctorum et Parochorum Suffragatricis sub Regula Imitationis Decem Virtutum seu Decem Beneplacitorum B. Mariae V. [...] per R. P. Carolum a SS. Angelis Praesidentem Goslinensem procuratum Anno a Christo Nato Millesimo Septingentesimo trigesimo primo Die 16 Junii, (man. Arquivo Diocese de Lublin A. 235). Prot. Korab. Protocolus Conventus Korabieviensis. Ab Anno Domini 1731 usque ad Annum Domini 1752 conscriptus et annotatus (man. APPM). Prot. Mariamp. Protocollum Conventus Mariampolensis (1783-1862), cópia em AGM. Prot. Ord. Protocollum Ordinis Beatae Mariae Virginis Immaculatae Conc. Congr. Polonae, Defunctorum et Parochorum Suffragatricis sub Regula Imitationis Decem Virtutum seu Decem Beneplacitorum B. Mariae V. [...] Anno Virginei partus 1705 in Colle Mariano Eremi Corabieviensi die 13 maii (man. AGM).

21 Prot. Rasn. Protoculum Conventus Rasnensis Patrum Marianorum Inchoatum ab introductione celebrata Anno 1749 die 8 Junii sub Praesidentia R.ndi P. Isidori Thaut [Taudt] (BUViL, Biblioteca da Universida de de Wilno F4-A390). Prot. Rom. Protocollum Variarum Literarum Romanorum in negotiis ac Causis Ordinis Nostri Clericorum Reg. Marianorum. Datarum sub Praepositum Rev. in Christo P. Raymundi Nowicki, STL. Praepositi, ac Visitatoris Generalis [...] ab jus Secretario R. P. Carlo Hondlewski copiatarum Anno 1782, compilatum. Prot. Skórc. Protocollum Conventus Skórcensisi, 1783-1796, (APPM-VII A 6/1 e ASM). Prot. Wet. Protocollum triennale Admodum Reverendi Patris Cajetani Wetycky, [...] Incoeptum Anno 1750 Praepositurae nostrae Anno primo die 28 Novembris, 17501778 (BUViL, Biblioteca da Universidade de Wilno Biblioteka F4-A4559). PSB Polski Słownik Biograficzny, t. 1-51, 1935 - Sł. Geogr. Słownik geograficzny Królestwa Polskiego i innych krajów słowiańskich, F. Sulimierski, B. Chlebowski, W. Walewski, J. Krzywicki [red.], t. I-XIV, Warszawa 1880-1895. Tabula generalis Tabula generalis Patrum ac Fratrum vivorum Ordinis Clericorum Regularium Marianorum sub Titulo Immac. Conceptionis B. V. Mariae cum annotatione [...] per AVP., Carolum Hondlewski secretarium Ordinis Anno 1786, die 3 Iulii conscripta, [LCVA, Arquivo Cientżifico Central Lituano - 1676, Ap. 1, byla 7]. Wyszyński, Diariusz Diário – Diariusz czynności w Rzymie i w Portugalii, in: Stróż duchowego dziedzictwa marianów. Wybór pism o. Kazimierza Wyszyńskiego, Z. Proczek [trad. e coord.], Warszawa - Stockbridge 2004. Wyszyński, Żywot Żywot Czcigodnego Sługi Bożego Ojca Stanisława od Jezusa Maryi Papczyńskiego, in: Zygmunt Proczek [trad. e coord.], Stróż duchowego dziedzictwa marianów. Wybór pism o. Kazimierza Wyszyńskiego, Warszawa - Stockbridge 2004, 46-167.

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23 OS PRIMÓRDIOS 1670-1677

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25 De pastorzinho a pastor do povo de Deus A respeito da vida e das obras do Pe. Estanislau Papczyński têm sido escritos muitos trabalhos. A mais antiga biografia surgiu já quatro anos após a sua morte, ou seja, em 1705. Foi redigida, com base em relatos ouvidos de testemunhas oculares, por Frei Mansueto Leporini1, reformado. Inestimável e digna de ser lembrada é também a biografia elaborada em 1754 por Frei Casimiro Wyszyński2 em Portugal, igualmente baseada em relatos de testemunhas. Muitos trabalhos detalhados relacionados com a vida e a obra do Fundador dos Marianos, Pe. Estanislau Papczyński, surgiram especialmente nas últimas décadas, e o que serviu de especial estímulo a empreendê-las e a dar início a pesquisas multidirecionais sobre esse objeto, bem como a uma ampla investigação arquivística e a mais profundos e numerosos estudos foi a sua beatificação em 2007, e a seguir a canonização em 2016. O objeto deste capítulo não será, no entanto, mais uma ampla biografia do Pe. Estanislau Papczyński, tanto mais porque – como já foi mencionado – esse tema tem sido profundamente abordado em algumas significativas obras científicas modernas3. Aqui eu gostaria antes de concentrar-me em 1 Manseuto Leporini, Vita Fundatoris Congregationis Polonae Ordinis Immaculatae Conceptionis Beatae Mariae Virginis, (ca 1705), Prot. Ord., 3-16, in: Positio, Papczyński, doc. XVII, s. 624-650, [a seguir: Leporini]. 2 Kazimierz Wyszyński, Vita Venerabilis Servi Dei Patris Stanislai a Jesu Maria Papczyński, man. 1754; em língua polonesa: Żywot Czcigodnego Sługi Bożego Ojca Stanisława od Jezusa Maryi Papczyńskiego, in: Zygmunt Proczek [trad. e red.], Stróż duchowego dziedzictwa marianów. Wybór pism o. Kazimierza Wyszyńskiego, Warszawa - Stockbridge 2004, pp. 49-167, [a seguir: Wyszyński, Stróż]. 3 Sacra Congregatio pro Causis Sanctorum, Officium Historicum, Poznaniensis Beatificationis et Canonizationis Servi Dei Stanislai a Jesu Maria Papczyński, Fundatoris Clericorum Regularium Immaculatae Conceptionis B. V. M. (+1701) Positio super Introductione Causae et super virtutibus ex officio concinnata, Romae 1977, [a seguir: Positio, Papczyński]; Janusz Kumala, Błogosławiony Stanisław Papczyński Założyciel Zgromadzenia Księży Marianów. Przewodnik bibliograficzny, in: „Ephemerides Marianorum. Studia historyczno-teologiczne”, t. 2, (2013), pp. 605-615; Tadeusz Rogalewski, Stanisław Papczyński (1631-1701). Założyciel Zgromadzenia Księży Marianów. Inspirator mariańskiej szkoły duchowości Lublin − Warszawa 2001. Esses trabalhos contêm tanto a bibliografia do objeto como a do sujeito. Convém enfatizar que após a beatificação foram publicados, por iniciativa do Pe. Jan Rokosz, superior geral, três volumes de

26 certas circunstâncias da sua vida que tiveram uma influência significativa nas suas escolhas e decisões posteriores. Na vida de todo ser humano apresentam-se alguns importantes acontecimentos existenciais que constituem como que uma porta aberta a uma outra realidade. Aproximam aquilo que é intangível na luta diária e exercem uma poderosa influência sobre o futuro caminho de vida, para o qual a pessoa já olha de uma outra perspectiva. Na vida de Estanislau Papczyński uma dessas experiências, extremamente dolorosa, foi o tempo da sua estada em Lwów, chamado pelo seu biógrafo Pe. Casimiro Wyszyński de “cruz de Lwów”. A Lwów o jovem João Papczyński dirigiu-se em 1646, com o propósito de dedicar-se aos estudos4. Lá, após alguns meses de diversos insucessos, contraiu uma doença que teve como resultado uma febre tão alta que ele quase perdeu a vida. A doença destruidora durou 15 semanas, levando o doente a um estado lamentável; o seu corpo cobriu-se de uma repulsiva escabiose. Os proprietários da casa com os quais naquele tempo residia, com receio de que ele se tivesse contaminado com a lepra e por temor dessa terrível doença, impiedosamente se livraram dele expulsando-o para a rua5. Joãozinho buscou abrigo num asilo, mas também ali não permitiram que ele ficasse. De um dia para outro tornou-se um mendigo sem teto, doente e sofredor, sem a ajuda humana, não conhecido a ninguém, senão a Deus. Nessa lamentável condição defrontou-se com um rigoroso inverno, a neve e um frio intenso, que tornaram a sua situação ainda mais dramática. Impotente diante das circunstâncias intransponíveis, solitário, perambulou pelas ruas de Lwów, dormindo a céu aberto ou abrigando-se do frio num testemunhos, conferências e catequeses dedicados ao Padre Papczyński: „I aby owoc wasz trwał”. Materiały Generalnej Komisji ds. Beatyfikacji Czcigodnego Sługi Bożego Ojca Stanisława Papczyńskiego Założyciela Zgromadzenia Księży Marianów, Rzym − Warszawa 2008; „Błogosławiony Stanisław Papczyński”. Ojcem i Przewodnikiem mariańskiego powołania, Warszawa − Rzym 2009; „Nasz Ojciec”. Marianie o swym Założycielu i jego beatyfikacji, Warszawa 2010. Por sua vez, por iniciativa e com a redação do Pe. André Pakuła foi publicada a valiosa obra que contém todos os trabalhos e cartas do Padre Papczyński: Pisma zebrane, Warszawa 2007, [a seguir: Pisma zebrane]. 4 João Teixeira assim avaliou a sua decisão de viajar a Lwów: „Foi Deus quem dispôs que o jovem Estanislau, como um jovem soldado, se exercitasse em lugares distantes em suportar os sofrimentos e as dificuldades que estavam à sua espera em Lwów”. João Teixeira, Żywot Sługi Bożego o. Stanisława Papczyńskiego, trad. M. Wiśniewski, Stockbridge 1962, n. 16. Trata-se de uma tradução do original português: Vida do Venerável Servo de Deus Padre Estanislau de Jesus Maria, Fundador da Congregação e Ordem dos Religiosos, Lisboa 1757, n. 16, [a seguir: Teixeira]. 5 Wyszyński, Stróż, p. 60. Casimiro Wyszyński informa que ficou com febre por 15 semanas, enquanto João Teixeira diz que foram 15 meses. Cf. Teixeira, n. 19.

27 feixe de feno fora da cidade. Alimentava-se com o que conseguia mendigar juntamente com um misterioso jovem. Na vigília do Natal os sintomas da doença se intensificaram, privando-o das forças. Inteiramente abandonado, enterrado no feixe de feno, João meditava sobre o Salvador, que para a nossa salvação nasceu num estábulo, e o feno Lhe serviu de coberta6. Nessa terrível doença e solidão assemelhou-se ao bíblico Jó e ao mendigo Lázaro: todo coberto de úlceras e de malcheirosas feridas. Após alguns dias conseguiu sair do feno e andou até a cidade. Tendo chegado às primeiras edificações, conseguiu unicamente arrastar-se até o vestíbulo de uma casa, após o que caiu sem forças. A família que ali residia demonstrou-lhe misericórdia e permitiu que ele ali ficasse. Aqui o destino do bíblico Lázaro literalmente coube também a ele: os cães da casa aproximavam-se dele docilmente e lambiam as suas feridas, trazendo-lhe alívio nos sofrimentos. Segundo Teixeira, “Deus, que aos Seus servos inflige a morte e os anima, castiga e cura para a Sua glória e o nosso proveito, veio lhe proporcionar uma extraordinária ajuda da forma que somente a Ele é apropriada”7. Igualmente o próprio Estanislau Papczyński, estando já no limiar da vida religiosa, descreve esse acontecimento, com gratidão glorificando a Deus por tê-lo libertado de tantas desgraças: “Sede bendito pelos séculos, Senhor, e fazei que após tantas más ações eu realize ações boas em minha vocação, quando realmente descubro que por mim mesmo não sou capaz de nada de bom. E tu que isto lês, não te admires que isso tenha sido por mim apresentado, porquanto eu achava que é coisa abjeta ocultar os benefícios divinos”8. O drama de Lwów infligiu a Papczyński muitos sofrimentos físicos e morais. Ele teve a experiência do mistério da morte e tocou o seu limiar. Experimentou a rejeição, a expulsão da parte das pessoas, o total despojamento, a miséria e a solidão, mas sobreviveu, e justamente isso o conduziu à convicção de que acima de tudo se encontra Deus Todo-Poderoso, a Sua misericórdia e a Divina Providência. Em todo sofrimento e em toda cruz ele passou a ver a partir de então a oculta presença de Deus. Igualmente o Padre Wyszyński percebeu naqueles dramáticos acontecimentos o admirável plano de Deus: “O bondosíssimo e misericordioso Deus instruiu e preparou o jovem para ser o Fundador do Instituto que proporciona ajuda aos que sofrem no purgatório. Pela paciência e pela dor, preparou o futuro autor dessa ajuda, para que, sendo ele mesmo submetido aos sofrimentos e 6 Wyszyński, Stróż, p. 61. 7 Teixeira, n. 25. 8 S. Papczyński, Tajemnice sumienia, in: Pisma zebrane, pp. 1407-1408.

28 à provação, aprendesse a compadecer-se das almas em seus extremamente pesados tormentos e tivesse um amor maior a elas, visto que ele mesmo sofreu e experimentou a compaixão”9. João Teixeira também acreditava que Deus curou então o jovem João, visto que o destinou para “fundar na Igreja de Deus a Ordem da Sua Mãe Santíssima”10. Por sua vez Jorge Navikevicius afirma que o próprio Papczyński não procurava explicar nem fundamentar de qualquer forma a sua “cruz de Lwów”: nem a doença, nem a cura, mas, curado, consagrou toda a sua vida à Mãe Santíssima11. O pai de João, tendo tomado conhecimento dessa infeliz sorte do filho e com temor da peste, em meados de maio de 1650 trouxe-o de Lwów para casa, a Podegrodzie e, “visto que – como observa Casimiro Wyszyński – [...] gratis victum non dabat (não dava comida de graça)12, decidiu que o filho se dedicaria a apascentar as ovelhas. Ser pastor não era uma tarefa honrosa, tanto mais porque João Papczyński já tinha então conhecimento do mundo e era um jovem de dezesseis anos relativamente instruído. João Teixeira assim o via: “[Papczyński] viu-se agora condenado pelo pai, como que por castigo e desprezo, a cuidar das ovelhas nos montes. O pai, indisposto por tantas adversidades, não se dispunha agora a lhe dar apoio”13. Esse acontecimento pode parecer algo insignificante, mas para o jovem João Papczyński tanto a nova tarefa como a convivência no silêncio com Deus e com a natureza mostraram ser um momento muito importante em sua vida. Isso foi para ele também uma verdadeira lição de humildade. Em tudo ele via a vontade de Deus, o que testemunha sua confissão em Segredos de consciência, narrada logo após o relato da “cruz de Lwów”. Glorificando a Deus e agradecendo à Divina Providência por guiá-lo através dos pais, registrou: “Agradeço por isso a Deus porque foi por Sua vontade que fui então obrigado por meus Pais a apascentar o rebanho, visto que (ouso anunciar isto com paz de consciência), permanecendo nas pastagens em meio ao rebanho, preservei a consciência pura e santa! Meu Senhor! O que humildemente Vos suplico é que esse gênero de Providência de Vossa Majestade – o que espero para o futuro e no que acredito – me conduza até o final da minha vida”14. 9 Wyszyński, Stróż, 62. 10 Teixeira, n. 25. 11 Georgio A. Navikevicius, Stanislao di Gesù Maria Papczyński (1631-1701). Scolopio e Fondatore della Congregazione dei Padri Mariani, Roma 1960, p. 63, [a seguir: Navikevicius]. 12 S. Papczyński, Tajemnice sumienia, in: Pisma zebrane, p. 1407. 13 Teixeira, n. 30. 14 S. Papczyński, Tajemnice sumienia, in: Pisma zebrane, p. 1408.

29 Digno de atenção e reflexão é um outro acontecimento na vida de João Papczyński, que é um testemunho da sua heroica defesa da fé e da profunda convicção de que a Divina Providência velava por ele e pela sua vocação, bem como uma orientação para o futuro. Eis que certo dia, quando já era seminarista, juntamente com um coirmão caminhava por uma rua de Varsóvia quando inesperadamente foi atacado por um soldado sueco, que ali estacionava juntamente com os soldados do rei Carlos Gustavo com os soldados que ocupavam a cidade15. O sueco – um protestante – levado pelo ódio ao jovem seminarista por ele defender os dogmas da fé católica, sacou da espada para lhe tirar a vida. João, que “desejava ardentemente derramar o seu sangue em defesa da fé de Cristo, ajoelhou-se e inclinou a cabeça para receber o golpe”16. Para o jovem Papczyński, essa foi uma vivência tão profunda e um testemunho tão importante que, apesar das muitas vivências posteriores igualmente dramáticas, ela não se apagou em sua memória e, quarenta anos depois, descreveu-o em seu testamento: “Afasto-me desta vida terrena na fé romano-católica, pela qual estive pronto a derramar o sangue durante a guerra sueca, quando contra mim, que caminhava da [Cidade] Antiga juntamente com um companheiro, na proximidade da igreja dos Frades Dominicanos, investiu, sacando da espada, um soldado herege. Enquanto o meu companheiro fugia [...], eu, tendo-me ajoelhado, apresentei o pescoço para ser cortado, mas, por disposição da Divina Providência aconteceu que não sofri nenhum ferimento, embora por três vezes tivesse sido fortemente atingido; no entanto, por quase uma hora e meia senti uma enorme dor”17. A prontidão para o martírio em defesa da fé e da honra da Mãe Santíssima foi um extraordinário ato de heroísmo, mas também a expressão das suas mais profundas convicções e dos valores que ele apreciava acima da vida. Casimiro Krzyżanowski, pesquisador da sua história, assim sintetizou esse acontecimento: “São plenos de admiração o zelo, a prontidão e a submissão com os quais o noviço Estanislau aceitou a ocasião de oferecer a própria vida em defesa da verdadeira fé”18. Já então, fascinado pelo mistério da Imaculada Conceição de Maria, esteve pronto a entregar a vida em Sua defesa. E no futuro desejou que a ordem religiosa 15 Era o ano 1656. Vafrsóvia estava ocupada pelos exércitos suecos, que cometiam saques e muitos crimes. Cf. Władysław Czapliński, Zarys dziejów Polski do roku 1864, Kraków 1985, pp. 285-289. A respeito dos comportamentos e dos abusos dos soldados suecos em Varsóvia cf.: Jan Wegner, Warszawa w latach Potopu Szwedzkiego 1655-1657, Wrocław 1957, pp. 48-60. 16 Teixeira, n. 40; Leporini, n. 23. 17 S. Papczyński, Testament drugi, 1701 r., in: Pisma zebrane, p. 1494. 18 Positio, Papczyński, 31.

30 que havia fundado adotasse o mistério da Imaculada Conceição como o fundamento e o sinal especial da comunidade religiosa; que ele fosse continuamente a sua força e a sua verdadeira alegria. Analisando esses importantes acontecimentos da vida de Estanislau Papczyński, a respeito dos quais ele mesmo deu um importante testemunho, pode-se repetir com João Teixeira que a Onipotência de Deus o provou como no fogo e o moldou, mas também preservou em Sua Providência para tarefas maiores no serviço religioso19. Todas as dolorosas experiências, das quais graças à proteção e à ajuda de Deus ele saiu vencedor e mais maduro, fizeram com que Deus se tornasse para ele Alguém extremamente próximo, presente no dia a dia, amigo digno de plena confiança e do máximo amor. O seu amadurecimento e a sua transformação espiritual foram muito bem apresentados pelo Cardeal Tarcísio Bertone na homilia pronunciada durante a santa Missa de beatificação em Licheń, quando disse: “Com o tempo Deus transformou o pequeno pastorzinho, tão resistente ao estudo e doentio, num pregador que atraía multidões pela sua sabedoria repleta de erudição e de profundo misticismo; num confessor cujo conselho espiritual era buscado até por dignitários da Igreja e do Estado; num professor profundamente instruído, autor de numerosas obras, por diversas vezes publicadas; no fundador da primeira ordem masculina polonesa, da Congregação dos Padres Marianos da Imaculada Conceição da Santíssima Virgem Maria”20. O amadurecimento psicofísico, intelectual e espiritual daquele jovem, até se oferecer a si mesmo a Deus em sacrifício, realizou-se no difícil século XVII. Esses eram tempos assinalados por lutas “a ferro e fogo”, cujo período mais trágico, chamado “dilúvio”, merecia plenamente essa definição bíblica. O seu contexto histórico são as três ameaçadoras guerras moscovitas, as rebeliões cossacas, o levante de Chmielnicki, a destruidora invasão dos suecos, as guerras com os turcos e o primeiro liberum veto em 165221. Em palavras extremamente sugestivas e acertadas, aquela paisagem histórica foi pintada por Henryk Sienkiewicz no romance A ferro e fogo: “Os lobos uivavam nas cinzas das antigas cidades, e regiões outrora florescentes eram 19 Teixeira, n. 40. 20 Tarcisio Bertone, Homilia durante a Missa de beatificação do Servo de Deus Padre Estanislau Papczyński em Licheń, 16 de setembro de 2007, in: Andrzej Pakuła [red.], I aby owoc wasz trwał. Materiały Generalnej Komisji ds. Beatyfikacji Czcigodnego Sługi Bożego Ojca Stanisława Papczyńskiego Założyciela Zgromadzenia Księży Marianów, Rzym - Warszawa 2008, p. 196. 21 Cf. Adam Zamoyski, Własną drogą. Osobliwe dzieje Polaków i ich kultury, Kraków 2002, p. 189, in: W. Czapliński, Zarys dziejów, p. 309.

31 como que um grande túmulo”22. O século XVII são também os anos das lutas fratricidas entre poloneses, lituanos, a rebelião de Zebrzydowski, de Lubomirski, os tempos da rivalidade pelo poder, pela primazia, pelas posses e pelo número de almas camponesas. A Polônia, dominada pela anarquia, pelo alcoolismo e pelos interesses particulares, assolada por numerosas guerras e pandemias (no século XVII, na Polônia a peste se manifestou por dezesseis vezes e por vezes durou alguns anos23), mergulhava num caos e numa miséria cada vez maiores, e os exércitos inimigos, adversários do catolicismo, de vez em quando atravessavam o país semeando a destruição, dizimando a população das cidades e das aldeias, destruindo as plantações, saqueando o patrimônio humano. “Eram pessoas que desconheciam as leis divinas e humanas. [...] Essas pessoas vestiam os trajes [religiosos]. Bebiam dos cálices, cometiam cruéis assassinatos. Os padres, os nobres, as pessoas das aldeias eram jogados às fogueiras e mortos. [...] Vieram de regiões distantes aqueles calmucos, porque eles vivem na Ásia. [...] Avançava aquela borrasca calmuca, [...] e a sua passagem era assinalada, porque ali nem uma vidraça de janela permanecia intata”24. A devastação do país, a morte das pessoas, as cidades arruinadas, as aldeias e os campos destruídos – eram um verdadeiro prenúncio do iminente extermínio da Polônia. Essa foi a realidade que moldou a personalidade e a sensibilidade de Estanislau Papczyński, deixando uma nítida marca na sua psique e na sua missão posterior. No futuro ele se envolveria na prestação de ajuda espiritual aos que pereciam nas guerras e que morriam durante a epidemia. Vendo a tragédia e a humilhação do povo, a miséria material e a devastação do país, Estanislau Papczyński vivenciou isso com muita dor, e mais ainda lamentou a miséria moral do povo, o mal, a depravação, o desrespeito às leis divinas e humanas, a terrível opressão do povo simples, o alcoolismo e os interesses particulares da nobreza. Diante da inconformidade interior com essas injustiças e esses abusos, ia nascendo nele uma pessoa de profunda sensibilidade social, o que no futuro faria com que, já como religioso, ele se tornasse um guerreiro de Deus que decididamente se oporia a esses abusos. O amor de Deus o estimularia a anunciar o Evangelho sobretudo às pessoas simples, pobres, socialmente injustiçadas, negligenciadas espiritualmente, que se encontravam em perigo de morte. E faria 22 Henryk Sienkiewicz, Ogniem i mieczem, t. 2, Gdańsk 2000, p. 175. 23 Franciszek Giedroyć, Mór w Polsce w wiekach ubiegłych, Warszawa 1899, pp. 53-58. 24 Paweł Jasienica, Rzeczpospolita Obojga Narodów, cz. III, Dzieje agonii, Warszawa 1982, p. 90.

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