Os Marianos Nos Anos 1787-1864

1 OS MARIANOS NOS ANOS 1787-1864

2 STUDIA MARIANORUM • 2 REDAÇÃO: Jair Batista de Souza, MIC Leandro Aparecido da Silva, MIC Andrzej Pakuła, MIC 1. A ESPIRITUALIDADE RELIGIOSA SEGUNDO ESTANISLAU PAP- CZYŃSKI E A PRIMITIVA TRADIÇÃO DA CONGREGAÇÃO DOS PADRES MARIANOS

3 Jan Kosmowski MIC OS MARIANOS NOS ANOS 1787-1864 Tradução: Mariano Kawka Cúria Geral da Congregação dos Padres Marianos Casa Editorial dos Marianos Varsóvia – Roma 2015

4 Título do original: Marianie w latach 1787-1864 Varsóvia − Lublin 2004 © Copyright Cúria Geral da Congregação dos Padres Marianos, 2015 Revisão João Bacal MIC ISBN 978-83-7502-???-? Impressão e encadernação: www.foto-druk.pl

5 SUMÁRIO RELAÇÃO DE ABREVIATURAS.................................. 7 PREFÁCIO.................................................... 11 INTRODUÇÃO................................................ 19 A situação político-social e confessional na Polônia.. . . . . . . . . . . . . . . . . 19 A concepção da congregação e a sua realização . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 25 Osconventoseosseusfundadores............................... 32 Base econômica.............................................. 41 I. A CONGREGAÇÃO DOS PADRES MARIANOS NO FINAL DO SÉCULO XVIII E INÍCIO DO SÉCULO XIX.................. 51 A Igreja e o Estado em novas condições após as partilhas da Polônia. . . . 51 Criação e desenvolvimento da província russa dos padres marianos..... 56 Os conventos na zona de ocupação austríaca .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 65 Criação e situação da província prussiana.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 70 Os marianos no Ducado de Varsóvia.............................. 79 II FORMAÇÃO RELIGIOSA E INTELECTUAL . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 88 Noviciado................................................... 88 Estudos filosófico-teológicos.................................... 99 Estudossuperiores........................................... 108 III ADMINISTRAÇÃO DA CONGREGAÇÃO.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 116 Superioresgeraisdacongregação.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 116 Capítulosgerais............................................. 132

6 Visitações dos superiores gerais .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 138 Superioreslocais............................................ 141 Visitações das autoridades diocesanas ........................... 149 IV TRABALHO APOSTÓLICO.................................. 153 Trabalho apostólico nas igrejas marianas ......................... 153 Ajudaaospárocos........................................... 164 Capelaniassenhoriais......................................... 173 Missões populares e retiros.................................... 181 Irmandades .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 189 Atividade caritativa (abrigos) .................................. 200 Escolas.................................................... 205 V O PAPEL DA CONGREGAÇÃO NA LUTA PELA INDEPENDÊNCIANACIONAL............................... 215 Participação no Levante de Novembro........................... 215 Divulgação clandestina da literatura patriótica..................... 220 Outros meios de resistência.................................... 227 ParticipaçãonoLevantedeJaneiro.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 232 Execução do decreto sobre a cassação dos conventos .. . . . . . . . . . . . . . . 239 CONCLUSÃO................................................ 249 BIBLIOGRAFIA. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 253

7 RELAÇÃO DE ABREVIATURAS ABMK: Archiwa, Biblioteki i Muzea Kościelne, I-LV, Lublin, 1959-1987. ABUV: Arquivo da antiga Biblioteca da Universidade de Vilnius, hoje chamada V. Kapsukas. ACPR: Arquivo da igreja polonesa de S. Estanislau em Roma (Via Botteghe Oscure, 15). ACPRus.: Acta Capituli Provincialis Congregationis Marianae... in Imperio Rossiano existentes, 1797-1844. ADL: Arquivo da Cúria Episcopal em Lublin. ADŁ: Arquivo Diocesano em Łomża. ADPŁ: Arquivo Diocesano em Płock. ADS: Arquivo Diocesano em Siedlce. AGAD: Arquivo Central de Documentos Antigos, Varsóvia, Rua Długa, 2. AGM: Arquivo Geral dos Padres Marianos, Roma, Via Corsica, 1. Akta Kons.: Documentos do consistório geral da diocese de Augustów contendo tabelas estatísticas do clero em sete decanatos lituanos. Sejny, 18/1/1814. Alb.Mort.Mar.: Album Mortuorum Cenventu Mariampolensis, 1700-1934. Alb.Mort.Skórc.: Album Mortuorum... Patrum et Fratrum Marianorum... ab anno 1700 usque ad annum 1864. Arch.Nunz.Vars.: Arquivo da Nunciatura de Varsóvia. Arch.Nunz.Vienna : Arquivo da Nunciatura de Viena. Arch.Sk.: Akta Archiwum Skarbowego (Documentos do Arquivo Fiscal), red. J. Bukowicz, Varsóvia, 1965. ASV: Arquivo Secreto Vaticano. AZakG.: Arquivo da casa geral dos marianos em Goźlin. AZakP.: Arquivo da casa religiosa dos marianos em Puszcza Mariańska. AZakS.: Arquivo da casa religiosa dos marianos em Skórzec. Congr. VV. et RR.: Congregazione dei Vescovi e Regolari (Congregação dos Bispos e Regulares).

8 Conv.Rasn.: Coleção de documentos relacionados com a fundação do convento em Raśna (uma cópia encontra-se em AGM). Denuncja: Coleção de documentos (25 folhas) contendo acusações das autoridades russas contra os marianos (encontra-se em AGM). Doc.Conv.Mir.: Documenta Conventus Miroslaviensis, 1759-1799. Doc.Viln. I-II: Documenta Vilniensia (dois volumes). EL.: Enciclopedia Lituanica, I-VI, Boston, Mass., 1970-1978. El.Alph.: Elenchus Alphabeticus Marianorum ab initio Congregationis usque ad renovationem. Romae, 1961. Elenco dei religiosi... dell’anno... : Documentos gerais contendo relações estatísticas dos religiosos da diocese de Podlasie nos anos 1836-1867. Enc.Catt.: Enciclopedia Cattolica, I-XII, Città del Vaticano, 1949-1954. Enc.Katol.: Encyklopedia Katolicka, I-IV, Lublin, 1973-1983. Enc.Kośc.: Podręczna Encyklopedia Kościelna, ed. Chełmicki, I-XLIV, Warszawa, 1904-1916. Enc.Nowod.: Encyklopedia Kościelna (Enciclopédia Eclesiástica), ed. Nowodworski, I-XXXIII, Warszawa I-XXXI; Płock XXXII; Włocławek XXXIII, 1873-1933. GAIO: Gossudarstvienniy Arkiv Irkutskoy Oblasti, Irkutsk. Inwentarz, Goźlin 1850: Inventários 1850-1859. Inventário do convento em Goźlin. Inwentarz, Mirosław 1811: Inventário da igreja, do convento e do patrimônio dos Padres Marianos em Mirosław elaborado no dia 5 de agosto de 1811. Kubicki: Bojownicy kapłani za sprawę Kościoła i Ojczyzny w latach 1861-1915 (Sacerdotes combatentes pela causa da Igreja e da Pátria nos anos 1861-1915). Liet.Enc.: Lietuviu Enciklopedia, I-XXXVI, Boston, 1953-1969. n., nn.: número, números Marianie: Bukowicz, J.; Gorski, T. (red). Marianie 1673-1973, Roma, 1975. Positio, Papczyński: Posnanien. Beatificationis et canonizationis Servi Dei Stanislai a Jesu Maria Papczyński, fundatoris Clericorum Regularium Immac. Conc. B.M.V. (+1701). Positio super introductione causae et super virtutibus ex officio concinnata, Romae 1977. Positio, Wyszyński: Miranden. seu Brigantien. beatificationis et canonisationis Servi Dei Casimiri a S. Joseph Wyszyński, sacerdoti professi Cler. Reg. Marianorum Immac. Conc. B.M.V (+1755). Positio super introductione causae et super virtutibus ex officio concinnata, Romae 1986.

9 Prot. Gosl.: Protocollon Ordinis B.M. Virginis Immaculatae Conceptionis 173147. Chamado de Goźlin, por ser procedente do convento desse local. Prot.Rasn.: Protocolum Conventus Rasnensis Patrum Marianorum inchoatum ab introductione celebrata anno 1749 die 8 Junij sub Praesidentia R.ndi P. Isidori Thaut. Prot.Skórc.: Protocolus Conventus Skórcensis. Prot.Wet.: Protocollum... Adm. R.ndi Patris Cajetani Wetycki, Praepositi Generalis Congregationis Marianae Immac. B.V. Mariae. PSB: Polski Słownik Biograficzny (Dicionário Biográfico Polonês) I-VII, Kraków, 1935-1958; VIII-XV, Wrocław-Kraków-Warszawa, 19591970; XVI-XXX, Wrocław-Warszawa-Kraków-Gdańsk, 1971-1987. Sł.Geog.: Słownik geograficzny Królestwa polskiego i innych krajów słowiańskich, red. F. Sulimierski, B. Chlebowski, W. Walewski, J. Krzywicki, I-XIV. Warszawa, 1880-1895. Stary Konstantynów: (Jan Marek Giżycki). Spis ważniejszych miejscowości w powiecie starokonstantynowskim na Wołyniu. Stary Konstantynów, 1910. Sydry, Odpisy: O título se relaciona com os três volumes datilografados intitulados: Odpisy dokumentów związanych z..., historią Zgromadzenia XX. Marianów, red. S. Sydry. Raśna, 1933. Visit.Gen.Goźlin, 1834: Visitatio generalis Ecclesiae Parochialis ac Monasterji Gozlinensis Marianorum per Illustr. Excell. et Rev. Dominum Adalbertum Skarszewski episcopum Lublinensem, Die 16. Sept. 1810, 146/III, 10. Visit.Goźlin, 1834: Visitatio generalis Ecclesiae gozlinensis per Rev.. Prael. Theodorum Majewski, A.D. 1834, 146/IV. Visit.Igłówka, 1837: Visitatio Ecclesiae Filialis Igloviensis, die 6 VI 1837. Visit.Skórzec, 1835: Visitatio Ecclesiae Parochialis Skurcensis per Illustr. Rev. Theodorum Majewski Praelatum Cathedralem Podlachiensem, Mensis Maji 1835. Vol.Legum: Prawa, konstytucya y przywileje Królestwa Polskiego y Wielkiego Księstwa Litewskiego y wszystkich Prowincji należących... uchwalone, I-VII Warszawa 1733-1782, wyd. II Petersburg 1859-1860, IX Petersburg 1889, X Poznań 1952.

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11 PREFÁCIO1 A história da vida religiosa no século XIX não tem sido ainda suficientemente elaborada. Igualmente a ordem dos marianos não possui até hoje uma exposição completa e sistemática da sua história, não apenas de todo o período da sua existência (1673-2003), mas sobretudo da história menos conhecida do século XIX. À história dos marianos do século XIX têm sido dedicados somente alguns artigos, algumas menções e referências nas dissertações gerais da história da Igreja na Polônia, que encerram muitas vezes informações imprecisas, e até errôneas. A falta de dissertações tem sido provocada por diversas causas. A razão mais importante é a cassação das ordens religiosas, dos conventos, dos seus bens e, com isso, também dos arquivos em 1864, na zona de ocupação russa. Enquanto outras ordens religiosas possuíam conventos em outros países, ou pelo menos em outras zonas de ocupação da antiga República da Polônia, os marianos possuíam conventos somente na zona de ocupação russa, que foram fechados, os arquivos saqueados e removidos, e os religiosos, enviados ao único convento que se preservou em Mariampol, na Lituânia, além daqueles que foram aprisionados ou exilados à Sibéria. Os marianos, isolados, com a sua atividade restrita à única paróquia em Mariampol, permaneceram ali até 1909, quando, já reduzidos a apenas um religioso, foram clandestinamente reformados e renovados pelo professor da Academia de São Petersburgo Pe. Jorge Matulewicz, mais tarde bispo de Vilnius e hoje beato. Nas circunstâncias acima, a principal tarefa da ordem em extinção não eram os estudos históricos, mas a luta pela existência, pela sobrevivência e pela salvação da ordem. No início do século XX, deu início às pesquisas sobre a história dos marianos um zeloso devoto do Pe. Papczyński, José Pietrzak, que, com base numa documentação muito fragmentária, publicou dois opúsculos relacionados com o século XIX: Padres insurretos 1863, em 1913, e Pe. Cristóvão Szwernicki OIC, em 1928. Esses opúsculos não representam nenhum valor científico, visto que misturam a verdade e a lenda, apresentam 1 Atenção: Todas as obras e os documentos analisados nesta introdução encontram-se na bibliografia.

12 fatos inventados e glorificam as figuras de muitos marianos do passado, pelo que perdem qualquer valor de fidedignidade. Nos anos 30 do século passado os marianos, já reanimados espiritualmente e quanto aos recursos humanos, empreenderam estudos e pesquisas sobre a história da sua ordem, no entanto sem um resultado eficaz. Na Lituânia, realizou uma investigação nos arquivos e uma pesquisa sobre o passado dos marianos o historiador profissional Pe. Jonas Totoraitis, que então tinha acesso às fontes do único arquivo preservado e não confiscado pelos russos em Mariampol (e que foi destruído em 1944, quando as autoridades comunistas soviéticas entraram na Lituânia). Em seus trabalhos, Totoraitis baseou-se em duas amplas coleções de arquivos: o Protocollum Conventus Mariampolensis 1783-1862 e o Protocollum R. P. Andreae Katyll, 1770-1832. Os seus estudos resultaram em dois opúsculos: Mariampoles kunigu... (O convento dos marianos de Mariampol), publicado em 1924, e Marijampoles marijonu vienuolynas (Os marianos na região de Suwałki), publicado em 1938. Esses trabalhos se relacionam em grande parte com os conventos situados no território lituano − Mariampol, Mirosław, Igłówka −, que então faziam parte integrante do Reino da Polônia. Encontram-se neles muitos fatos e acontecimentos relacionados com outros conventos marianos no século XIX. Totoraitis pode ser criticado pela falta de um rigoroso aparato científico, por certa interpretação tendenciosa pró-lituana e desfavorável à Polônia, mas hoje esses trabalhos representam um grande valor, por serem os primeiros baseados na base das fontes, que após a ocupação da Lituânia pela União Soviética passaram a ser inacessíveis. Em 1936 Totoraitis publicou a obra Marijonu vienuolija nuo 1864 (A Ordem dos marianos nos anos 1864-1909), na qual, além de uma breve história dos marianos antes da cassação, analisa a história dos marianos após 1864 e as insistentes tentativas de salvar a ordem. Nesse mesmo período, realizou pesquisas científicas na Polônia o historiador Pe. Stefan Sydry. É mérito seu a transcrição ou o resumo de muitos documentos que se encontravam no Arquivo do Tesouro de Varsóvia, que se queimou juntamente com as coleções durante a guerra, em 1944. Infelizmente, a maior parte desses documentos diz respeito aos séculos XVII-XVIII. Sydry realizou também uma pesquisa nos arquivos de Portugal e da Hungria. Como resultado das suas pesquisas, surgiram duas obras sérias. A biografia do fundador da ordem dos marianos Ojciec St. Papczyński i jego dzieło (O Padre Estanislau Papczyński e sua obra), 1937, e Organizacja zakonu marianów w XVIII wieku (A organização da ordem dos marianos no século XVIII), 1965. Ambos os trabalhos encerram numerosas referências à história dos marianos no século XIX. Após a Segunda Guerra Mundial, em 1953, os marianos reativaram os dois processos de beatificação interrompidos durante as partilhas, o do Pe. Papczyński e o do Pe. Wyszyński, que deram um novo impulso a aprofundadas pesquisas nos arquivos,

13 concentradas no entanto nos séculos XVI-XVIII, porque foi nessa época que viveram os dois candidatos aos altares. Serviu de estímulo para estudos históricos sobre a história dos marianos o iminente jubileu dos 300 anos da existência dos marianos (1673-1973). Nessa ocasião o Pe. Juozas Vaisnora escreveu o artigo Zakon marianów w XIX wieku (A ordem dos marianos no século XIX). Trata-se do primeiro artigo que trata diretamente da história mariana do século XIX, ainda que contando apenas cinco páginas. Esse era um artigo genérico, constituindo um informativo popular sobre a ordem dos marianos. Por ocasião do jubileu dos marianos foi publicado o trabalho coletivo intitulado Marianie 1673-1973 (Os Marianos 1673-1973), na qual o historiador da Universidade Católica de Lublin Piotr Gach inseriu um artigo − contando 24 páginas − intitulado Zakon marianów w XIX wieku (A ordem dos marianos no século XIX). Esse artigo apresenta a gênese, o desenvolvimento e as consequências da “cassação” dos marianos em 1864, aborda a questão do funcionamento do noviciado, da casa de estudos, bem como o envolvimento dos marianos nos Levantes de Novembro (1830/31) e de Janeiro (1863). Em razão da escassez da base de fontes, o artigo é muito impreciso e superficial. Apesar das muitas e insistentes pesquisas nos arquivos da Polônia, da Lituânia, em São Petersburgo, em Moscou, Vitebsk e Minsk (na Bielorrússia), o material histórico relacionado com o século XIX mostrou ser muito escasso e não foi possível encontrar os documentos dos arquivos marianos que no passado existiram em todo convento mariano. Os documentos guardados nos conventos de Puszcza Mariańska e Góra Kalwaria foram confiscados pelo governo russo, uma parte deles foi mais tarde transferida ao Arquivo do Tesouro de Varsóvia, e ali se queimaram em 1944. Os documentos dos arquivos em Skórzec w Goźlin, após uma seleção feita pelas autoridades russas, foram entregues à biblioteca do seminário diocesano em Lublin. Hoje restaram deles apenas fragmentos simbólicos. Após 1864 os arquivos dos conventos de Mirosław, Mariampol e Igłówka foram reunidos no convento de Mariampol, e depois de 1944 não há vestígios deles. Em 1864 o arquivo mariano de Raśna foi transferido a Vilnius, e até hoje, na biblioteca universitária, preservaram-se cerca de 40 volumes de documentos diversos. Eles são acessíveis apenas parcialmente e com grandes restrições. Segundo a sua proveniência, as fontes utilizadas no presente trabalho podem ser divididas nas seguintes categorias: I. marianas II. da Igreja universal a. diocesanas b. da Santa Sé − ASV III. estatais.

14 A mais importante fonte de proveniência mariana é o Protocollus Conventus Skórcensis (na realidade Corabieviensis). Esse protocolo contém os documentos dos capítulos gerais e das visitações, as cartas circulares e correspondência diversa dos anos 1779-1823. Infelizmente, somente alguns documentos se relacionam com o século XIX. Para um melhor conhecimento dos dados biográficos, da gênese das novas fundações, do desenvolvimento da legislação mariana, utilizamo-nos de duas coleções provenientes do século XVIII: Protocollum Conventus Rasnensis 1749-1776 e Protocollum Patris... C. Wetycki 1750-1778. Fontes valiosas de proveniência mariana são os dois chamados álbuns dos falecidos, que se preservaram: Album mortuorum conventus mariampolensis 1700-1934 e Album mortuorum conventos skórcensis 1700-1864, nos quais, imediatamente após a morte do religioso, era registrada uma síntese da sua biografia e atividade. Essas notícias são fragmentárias e nelas faltam até datas, e em ambos os álbuns faltam os sobrenomes e os dados de cerca de 50 marianos. A mais importante coleção de fontes para a história dos marianos do século XIX é constituída por dois volumes de documentos, os Documenta Vilniensia vol. I-II, provenientes do convento de Raśna. Encontram-se neles centenas de documentos, não ordenados, coletados aleatoriamente, com paginação incompleta. A maioria deles se refere ao convento de Raśna. Nesse mesmo arquivo se encontra uma valiosa coleção de documentos, contando 17 folhas, isto é, os Acta Capituli Provincialis Congregationis Marianae... in Imperio Rossiano existentis, 1797-1844. Essas fontes não são amplas, mas até hoje essa é a única coleção de documentos que nos transmite alguns dados sobre a efêmera província russa dos marianos. As fontes de proveniência eclesiástica, diocesana, encontram-se no arquivo da diocese de Łomża (antigamente Sejny), na área da qual se encontravam os conventos de: Mariampol, Mirosław e Igłówka, bem como no arquivo da diocese de Podlasie em Siedlce, onde estavam situados os conventos de: Goźlin e Skórzec. Nesses arquivos estão preservados os protocolos das visitações episcopais e decanais, as disposições dos consistórios, as estatísticas religiosas, os documentos legais e os decretos das ereções das paróquias religiosas. Tanto o arquivo de Łomża como o de Siedlce não estão ainda inteiramente catalogados e ordenados, e − em razão das numerosas translocações − alguns documentos trazem 2-3 rubricas. No arquivo vaticano “ASV” encontram-se diversos privilégios, indulgências concedidas aos marianos, pedidos, secularizações de religiosos e confirmações de eleições dos superiores gerais. Também nesse caso os documentos são poucos, porquanto, desde o momento das partilhas da Polônia, o contato das ordens religiosas com a Santa Sé era dificultado, e em muitos casos até impossível e proibido.

15 Os documentos elaborados pelas repartições e instituições estatais nos são conhecidos apenas das cópias realizadas antes de 1939 pelo Pe. Sydry, outros se queimaram ou se perderam durante a guerra. Nas presentes pesquisas científicas, uma séria dificuldade dizia respeito à quase total falta de fontes marianas relacionadas com os anos 1823-1862. Não se preservaram os decretos dos capítulos, as cartas circulares dos superiores gerais ou qualquer correspondência. Tem constituído uma séria dificuldade as divergências entre as fontes de proveniência religiosa, diocesana e estatal. Essas divergências se justificam pela situação política que se instalou nas áreas da antiga República da Polônia. As ordens religiosas tentavam “deixar de lado” diversos decretos da autoridade estatal, p. ex. relacionados com a idade dos candidatos à vida religiosa, o montante dos rendimentos, as missas solenes pela família imperial, os envolvimentos nas ações patriótico-nacionais. Os relatórios e as visitações diocesanas concentravam-se sobretudo em questões relacionadas com todo o tipo de atividade pastoral, nem sempre dando atenção às atividades exercidas no interior do convento. Por exemplo, nos relatórios e nas estatísticas diocesanas não são mencionados os marianos que exerciam as funções de mestres do noviciado ou professores de estudos filosófico-teológicos. Outra dificuldade relaciona-se com a fidedignidade dos documentos hoje destruídos ou perdidos, e preservados somente em cópias ou resumos. A fim de verificar a fidedignidade dos materiais arquivais reunidos e criar, na medida do possível, uma obra completa da história dos marianos do século XIX, foi analisado por uma ampla pesquisa todo o material acessível, não somente o das fontes, mas todo o tipo de memórias, publicações, notas biográficas, livros paroquiais, nos quais − a partir das assinaturas − foram definidos os nomes dos párocos, superiores, confessores, capelães. Tudo que de qualquer forma demonstrasse a atividade dos marianos, ainda que essas menções se apresentassem como simplesmente simbólicas. Além dos arquivos mencionados na bibliografia, foram examinados os arquivos paroquiais nas paróquias diocesanas às quais no século XIX pertenciam as igrejas marianas que ainda então não eram paróquias, isto é, Niwiska, Góra Kalwaria, Mszczonów, Warszawice, e os arquivos nacionais em Łomża, Lublin, Radom e Siedlce. Em razão da falta de fontes marianas relacionadas com os anos 1823-1862, a fim de corrigir os erros repetidos em diversos artigos e estabelecer certos fatos relacionados com o noviciado, os estudos, os superiores, as capelanias, as irmandades, foram elaborados com detalhada análise os dados biográficos (ainda que por vezes imprecisos) de cerca de 150 marianos que viveram no século XIX. Baseamo-nos nesse caso nos dados dos álbuns dos falecidos, nas escassas notas biográficas, espalhadas na documentação do século XIX, nas estatísticas e nos protocolos diocesanos, nas menções existentes nas pouco numerosas fon-

16 tes marianas, nas publicações e nas memórias. Graças a esse penoso trabalho, tornou-se possível a elaboração de tabelas que ilustram as tarefas e as funções de marianos particulares, o seu número aproximado nas diversas datas, nos conventos, no noviciado, bem como a sua origem social, assim como a influência da origem na posição e nos cargos exercidos na vida religiosa. Cronologicamente, o presente trabalho encerra-se nos anos 1787-1864. A primeira data se relaciona à aprovação pontifícia e à publicação das reformadas constituições marianas, que foram o coroamento de muitos anos de empenhos pela independência diante da ordem dos franciscanos-observantes. Essa reforma abria um vasto campo para novas tarefas pastorais. A segunda data, que encerra o período das pesquisas, refere-se à publicação pelo governo imperial russo, em 1864, do decreto sobre a reforma dos conventos, que na realidade foi um decreto que condenava a vida religiosa no império russo à extinção. Em razão da falta de uma elaboração completa de toda a história dos marianos, isto é, desde o início da sua existência (1673), e diante das profundas mudanças territoriais e políticas a que foi submetido o território da República da Polônia nos anos 1772-1815, tornou-se necessário muitas vezes transpor os limites cronológicos e apresentar muitos esclarecimentos no extenso capítulo introdutório. O âmbito geográfico do presente trabalho diz respeito ao território da antiga República da Polônia, em cuja área se encontravam os conventos marianos. A Polônia desapareceu do mapa da Europa após a terceira partilha em 1795, dividida entre a Rússia, a Áustria e a Prússia. Da mesma forma, em 1795 também os conventos marianos encontraram-se nessas três zonas de ocupação, com pequena possibilidade de contatos mútuos. A partir de 1815, após ter sido instituído no Congresso de Viena o Reino da Polônia, todos os conventos marianos já se encontraram na zona de ocupação russa. Na realidade, além dos conventos na zona de ocupação russa, existia ainda um convento em Roma, fechado em 1798 pelas autoridades napoleônicas (além de três conventos em Portugal, com os quais no século XIX a administração geral já não tinha nenhum contato; os marianos portugueses criaram um ramo independente dos marianos, e em 1834 foram cassados pelo governo português). O objetivo do presente trabalho é a apresentação da história da ordem dos marianos no período da ocupação da Polônia pelas três potências estrangeiras. Após a incorporação da Polônia, essas potências buscavam a total integração cultural, política, e parcialmente até religiosa, das áreas conquistadas ao seu próprio território, o que não era possível sem o enfraquecimento do espírito católico dos poloneses, lituanos e bielorrussos, e sem o enfraquecimento da sua consciência e identidade nacional. Durante esse difícil e doloroso período das

17 partilhas, que durou quase 130 anos, a Igreja católica demonstrou o seu apoio e a sua solidariedade com o espírito independentista da Polônia, bem como promoveu a defesa da nacionalidade polonesa e lituana, a defesa da Igreja, da cultura e da tradição cristã, havia séculos ligadas com o Ocidente cristão, e tão distintas da cultura e da tradição propostas e impostas pelo governo russo. Neste trabalho pretende-se demonstrar como a ordem opôs resistência aos mais variados obstáculos e dificuldades, como reagiu e se defendeu diante da injusta e anticatólica legislação russa, como lutou pela sua existência e persistência, que esforços empreendeu para não somente sair da profunda crise espiritual dos anos 1795-1820, mas para se fortalecer e crescer numérica e espiritualmente, o que já se torna bastante visível após o Levante de Novembro [de 1830]. No trabalho, tentamos mostrar o funcionamento das estruturas internas da ordem: a formação da juventude mariana, os esforços empreendidos com o objetivo de fazer renascer a vida religiosa, de despertar e de preservar o patriotismo tanto entre os membros da ordem como entre os fiéis leigos. Esses fatos, e principalmente a falta de qualquer elaboração da história da ordem instituída em 1673, oficialmente “extinta” em 1909 e clandestinamente renovada no mesmo ano, serviram de inspiração para a abordagem do tema: Os Marianos nos anos 1787-1864. Gostaria de expressar a minha especial gratidão à Pontifícia Universidade “Gregorianum”, na qual pude aprofundar os meus conhecimentos históricos, graças aos quais se tornou possível o surgimento do presente trabalho2. Dirijo o meu sincero agradecimento aos professores do Departamento da História da Igreja. Encaminho os meus especiais agradecimentos ao Revmo. Pe. Prof. Pierre Bleta, que aceitou o papel de orientador do presente trabalho, dedicando muito do seu precioso tempo para o esclarecimento e a solução de numerosos problemas que surgiram no decorrer da redação do trabalho. Desejo expressar igualmente o meu cordial agradecimento ao padre decano do Departamento de História do “Gregorianum”, professor Paolo Rabikauskas, mestre na área da diplomacia e da paleografia, pelas suas valiosas sugestões e observações críticas. Roma 1988 Desde a redação do presente trabalho já se passaram quinze anos. Para os séculos da História, isso não é muito, mas quanta coisa aconteceu nesse período! Ruiu o Muro de Berlim, dissolveu-se a União Soviética, caiu o comunismo 2 I padri mariani nell´antica Res Publica di Polonia “Rzeczpospolita” dal 1787 al 1864, Roma 1988.

18 na Polônia. Os arquivos inacessíveis ou escondidos na sua maioria se abriram aos pesquisadores. Foi encontrado o arquivo do convento de Mariampol, que, contrariando as suposições de que foi murado no convento pelos marianos ou enterrado diante da entrada dos comunistas, estava simplesmente escondido em caixas nos porões do arquivo nacional em Vilnius. Com dificuldade, mas tornam-se acessíveis as coleções arquivais das enormes coleções do arquivo de São Petersburgo, onde foram encontradas as ricas coleções do arquivo da diocese de Mohylew, situada na área da antiga Rússia imperial. Tornaram-se acessíveis os arquivos de Irkutsk, Tchita e Tobolsk na Sibéria, contendo numerosas fontes relacionadas com a sorte de algumas dezenas de exilados marianos naquela região. O autor do presente trabalho teve a possibilidade de realizar uma pesquisa no rico arquivo de Irkutsk. As fontes descobertas fornecem amplas possibilidades para os pesquisadores da história dos marianos. Elas não mudarão os contornos gerais do presente trabalho, as reflexões, as sínteses e as análises realizadas pelo autor, mas permitirão esclarecer muitas dúvidas e imprecisões. Pelo aprofundamento dos fatos, poderá ser apresentada uma imagem mais completa da história da ordem dos marianos. Góra Kalwaria − Marianki 2003

19 INTRODUÇÃO A situação político-social e confessional na Polônia A República da Polônia, ou seja, o Estado polono-lituano, compunha-se de duas nações − a polonesa e a lituana. Na realidade, esse nome abrangia o Estado polono-lituano-ucraniano, onde residiam igualmente diversas minorias étnicas (judeus, alemães, ucranianos, tártaros, bielorrussos)1. Na História da Polônia do século XVIII podem distinguir-se dois períodos: o primeiro é o período saxão (1697-1763), que se caracterizou por uma crise de governo e por uma anarquia, em consequência do que ocorreu a dissolução do Estado; o segundo, por sua vez, envolve o governo de Estanislau Augusto (1764-1795), reconhecido como um tempo de reformas e de pleno desenvolvimento do Iluminismo, mas esse foi também o período das partilhas. Os magnatas do partido político denominado Família estavam preparando nos anos 1762/63 um projeto de reforma constitucional2. Era contrário a esse projeto tanto o partido dos magnatas poderosos chamados “Republicanos”, como também o partido saxão, a chamada Camarilha dos Mniszech3. 1 A partir da União de Lublin, em 1569, o Estado chamado República Una e Indivisível, definido nos documentos como Polônia. Por exemplo, nos documentos pontifícios: I. A. Caligari. Nuntii Apostolici in Polonia. Epistolae et Acta 1578-1581; Pastor, Storia dei papi, IX, 672-688; com relação à história social, cf. L. Leger, La Pologne: Henri de Valois, Bathory, Les Vasa 1572-1648. In: Les Guerres de Religion 1559-1658 (Histoire générale du IV siècle à nos jours − vol. 5), Paris, 1922. No presente trabalho, a palavra “Polônia” nas citações e nos títulos é utilizada no sentido acima. 2 “Família” − partido dos duques e magnatas ligados por laços de sangue. Entre os mais importantes promotores da política da “Família” estavam o duque Augusto Alexandre Czartoryski e seu irmão Miguel Czartoryski. Além disso, pertenciam ao agrupamento: Estanislau Lubomirski, Miguel Ogiński, André Zamoyski, André Estanislau Zaluski, Estanislau Poniatowski (rei desde 1764), todos os mais eminentes magnatas da República da Polônia que gozavam de um amplo apoio da nobreza; cf. J. Michalski, Familia, in: Enc.Pow., t. 3, Varsóvia, 1964, 578-579; W. Konopczyński, Czartoryski Aleksander August (1697-1782), PSB, t. IV, 272-275. Esse duque foi o criador da enorme fortuna da família Czartoryski, bem como a principal figura da Família. A respeito das lutas entre os agrupamentos dos magnatas durante a Dieta pode-se ler em: H. Olszewski, Sejm Rzeczypospolitej epoki oligarchii 1652-1763, Poznań, 1966. 3 Jorge Mniszech foi ministro saxão (junto ao rei Augusto III); ele distribuía prebendas e bens do Estado entre diversos magnatas que eram seus clientes. Dessa forma “montou um partido incolor da corte, um agrupamento político. Uniam-se a ele massivamente republicanos, desertores da Família e muitos outros...”. M. Czaplińska, Mniszech Jerzy August, PSB, t. 21, 470-474; O Halecki, in: Storia della Polonia, Roma, 1966, 227, escreve a respeito de Mniszech: “(...) tendo deixado o país em que reinava (trata-se do rei Augusto III), por graça dos seus favoritos, entre os quais granjearam inglória fama o saxão Bruhl e seu genro, o polonês Mniszech. O indigno governo deles se consolidou em razão da apatia do rei, que

20 Nessa situação, a Família decidiu dirigir-se à Rússia com um pedido de ajuda armada, para retirar a Polônia da anarquia e da fraqueza, conduzindo à parcial realização da planejada reforma: da transformação econômica, da parcial restrição do uso do liberum veto, da elaboração de prescrições detalhadas que tinham por objetivo refrear a expansão econômica do clero4. Na realidade, a política da Família encontrava-se em decidida oposição com os objetivos da política russa e prussiana. Graças à força russa e à política da Família, durante a dieta eleitoral no dia 6 de setembro de 1764 foi eleito rei Estanislau Poniatowski, candidato do governo russo, que assumiu o nome dinástico de Estanislau Augusto II5. Os anos do seu governo foram um longo período de lentas reformas − desde a dieta convocatória (1764) até a Grande Dieta (1788-92), famosa pelos seus quatro anos de trabalho. Em entendimento com a Rússia, numerosos magnatas, a nobreza e alguns dentre os bispos católicos − entre os quais Caetano Sołtyk e Gabriel Podoski (primaz da Polônia desde 1767) −, que se opunham à política reformista do rei e da Família, estabeleceram em Radom, no dia 23 de junho de 1767, uma conferência geral, dirigindo-se a Catarina II e solicitando a devolução da forma até então existente de governo, sob a proteção russa6. Em outubro de 1767 a Dieta foi forçada a convocar uma delegação de deputados que, sob a direção de Repnin e do primaz Podoski, um russófilo, elaboraram diversos projetos e resoluções, aprovados a seguir por uma sessão da Dieta plena. Essa delegação conseguiu com bastante eficiência refrear o programa das reformas de Estanislau Augusto pela elaboração de diversas normas institucionais. Os dissidentes alcançaram a plena liberdade de religião e a possibilidade de se utilizarem dos direitos públicos em igualdade de condições com os católicos. Como escreve o historiador polonês Bieńkowski, “na época não gozavam de tão amplos direitos os partidários de outras religiões em nenhum dos países da Europa”7. A sua fiadora era a imperatriz Catarina II. Foram igualmente aprovafoi o mais fraco entre todos os soberanos poloneses; e toda a nação parecia estar envolvida pela mesma apatia”. 4 Halecki, Storia della Polonia, red. Aleksander Gieysztor, ed. it. com red. de O. Dallery, Milão, 1983 (citada como: Gieysztor, Storia…), 232. 5 Ibidem, 234. 6 L. Bieńkowski, L’Illuminismo e la castrofe delle sparatizioni (1750-1795), in: Storia del cristianismo in Polonia, red. Jerzy Kłoczowski, Bolonia, 1980, 258-259. 7 Ibidem, 253; Volumina Legum. Prawa, konstytucje y przywileie Królestwa Polskiego y Wielkiego Księstwa Litewskiego y wszystkich Prowincyi należących... uchwalone, vol. VII, São Petersburgo, 1860, 256-276. Contém as resoluções tomadas pela Dieta e garantidas pela imperatriz.

21 dos os chamados direitos cardinais da República, que fortaleceram os princípios do antigo sistema político8. Em continuidade, no dia 29 de fevereiro de 1768 foi criada em Bar uma confederação militar, a qual proclamou que “deseja lutar em defesa da fé e da liberdade”9. Os confederados de Bar se caracterizavam por uma sincera religiosidade católica e mariana, bem como por um profundo patriotismo; juntaram-se a eles também os bispos, os sacerdotes e os religiosos. A luta frenética dos confederados estendeu-se por quatro anos, até a primeira partilha, para a qual serviu de pretexto. Em 1773 a Dieta foi forçada a ratificar os tratados da partilha e, após longas conversações conduzidas com o núncio Garampi e uma eficaz resistência, a aceitar igualmente o decreto da cassação da ordem dos jesuítas10. Graças à discreta aproximação entre o rei Estanislau e a Rússia, tornou-se possível a realização de importantes reformas e a instituição da Comissão da Educação Nacional. Os bens da ordem cassada foram destinados ao fundo nacional da educação11. Uma outra importante iniciativa foi a instituição do Conselho Permanente, convocado em 1775, a fim de prevenir a anarquia existente. Graças a um tal governo, apesar da resistência dos partidários da antiga ordem, no decorrer de doze anos foi possível realizar grandes reformas, que finalmente foram aprovadas pelos votos da maioria dos deputados da Grande Dieta (1788-1792), por força da famosa Constituição de 3 de maio de 179112. Essa reforma, realizada pela Dieta Quadrienal, devia retirar a República da crise; esse, no entanto, não era o desejo da Rússia nem da Prússia. 8 J. Bardach − B. Leśnodorski − M. Pietzak, Historia państwa i prawa polskiego. Warszawa, 19854, 210-271; Vol. Legum, VII, 276-282; Gieysztor, Storia..., 235-236. 9 S. Herbst, Żołnierze niepodległości, in: Polska w epoce Oświecenia; Gieysztor, Storia..., 236-239. Um panorama pleno e aprofundado da situação da Confederação de Bar é apresentado por Konopczyński, Konfederacja Barska, vol. I-II, Warszawa, 1936. 10 Pastor, Storia dei papi, vol. XVI/2, 300-302. As sessões da Dieta eram supervisionadas por 4.000 soldados russos. 11 Bieńkowski, L’Illuminismo..., 260; A. Jobert, Magnats polonais et physiocrates français (17671775), Dijon, 1941, 61. Merece atenção igualmente a monografia dedicada à Comissão da Educação, do mesmo autor: La Comission d’education nationale en Pologne (1773-1794), Paris, 1941. 12 Gieysztor, Storia..., 276-281. A Dieta “quadrienal” foi confederada (as resoluções eram então aprovadas por maioria de votos). A Dieta invalidou as garantias dos Estados que participaram da partilha, concedendo à Polônia a autêntica independência, dissolvendo o Conselho Permanente e aprovando o aumento do efetivo militar para 100.000 homens. Além disso, foi aperfeiçoada a administração central e financeira. Foram atribuídas significativas concessões em prol da burguesia e dos camponeses. Por sua vez a Constituição de 3 de maio trouxe mudanças institucionais mais importantes. A Polônia devia tornar-se uma monarquia parlamentar. O supremo poder executivo devia caber ao soberano hereditário, que devia exercê-lo com a ajuda da Guarda das Leis e de comissões dos duques; o poder legislativo era exercido pela Dieta, na qual já não vigorava o liberum veto, enquanto que o poder judiciário foi atribuído a tribunais independentes (cf. Bardach et al., Historia państwa i prawa..., 276-290, que contém uma boa análise das resoluções expedidas pela Dieta Quadrienal). Uma obra mais ampla dentro da ampla literatura dedicada à Dieta é o trabalho de Leśnodorski: Dzieło Sejmu Czteroletniego, Wrocław, 1951.

22 Em 1771 os católicos do rito latino13 constituíam apenas 50% da população da República, a Igreja católica contava com 11.000 representantes do clero secular, 14.500 do religioso e 3.200 religiosas14. A Igreja católica do rito oriental (oito dioceses) contava cerca de 9.000 paróquias e cerca de 4,5 milhões de fiéis. A tabela apresentada abaixo mostra claramente que a população da República não era uniforme quanto ao aspecto confessional.15 Profissão religiosa Total católicos romanos católicos do rito oriental ortodoxos judeus maometanos calvinistas outros 5,5 milhões 4,5 milhões 600.000 900.000 50.000 8.000 100.00015 No século XVIII crescia a aversão aos representantes de outras religiões e chegou-se à consolidação de um estereótipo: o polonês passou a ser identificado com a religião católica16. A nobreza identificava-se com o catolicismo17. Um autor francês descreveu a nobreza polonesa daqueles tempos da seguinte forma: “O nobre polonês manifestava o mais profundo desprezo a tudo que de perto ou de longe dizia respeito à burguesia e aos camponeses. Eis que esse nobre tinha a sua fé, à qual geralmente era apegado de alma e corpo − era um católico do rito latino. Era a religião da nobreza, a tal ponto que o nobre não conhecia outras 13 S. Litak, Struktura i funkcje parafii w Polsce, in: Kosciół w Polsce, red. J. Kłoczowski, vol. II, Wieki XVI-XVIII, Kraków, 1970, 301; T. Korzon, Wewnętrzne dzieje Polski za Stanisława Augusta, vol. I, Kraków-Warszawa, 1897, 245. 14 W. Müller, Zakony w diecezjach i województwach, in: Zakony męskie w Polsce w 1772 r., red. L. Bieńkowski, J. Kłoczowski e Z. Sułkowski (Materiały do atlasu hisrorycznego chrześcijaństwa w Polsce, I), Lublin, 1972, Tab. 24. O autor fornece igualmente o número dos religiosos que se encontravam então na Silésia e na Prússia (provavelmente se trata de poloneses). Nesse caso a tabela fornece o número de 15.900 religiosos. Bieńkowski, L’Illuminismo..., 288-289, informa a respeito do número de irmãs religiosas na Polônia “propriamente dita” e na Lituânia. Convém lembrar que esses dados são fornecidos apenas como aproximados. 15 Os dados estatísticos provêm do trabalho de Korzon, Wewnętrzne..., I, 174-216 − ortodoxos; 218 − judeus; 240-241 − católicos do rito oriental; 216-217 − matometanos. Por sua vez em Bieńkowski, L’Illuminismo..., 291 − católicos do rito oriental; 298 − ortodoxos; 302 − calvinistas; 305 − judeus; 310 − maometanos. Nos mencionados dois autores ocorrem pequenas diferenças em relação ao número dos diversos grupos confessionais. 16 Pobóg-Malinowski, Najnowsza historia polityczna Polski, 1864-1945, Paris, 1953, vol. I, 8. O autor cita a opinião de Muravyev, segundo o qual “o maior inimigo da nação russa é o espírito polonês e o catolicismo, porquanto ‘polonês’ e ‘católico’ são sinônimos; por isso o governo deveria empenhar-se sobretudo por enfraquecer o catolicismo”. 17 Gieysztor, Storia..., 216.

23 e não lhes demonstrava respeito. O rito grego era na sua convicção apenas um amontoado grosseiro de superstições, boas para os camponeses da Ucrânia ou para os comerciantes de Vilnius ou de Lvov, mas indigno de atrair a atenção de uma pessoa da sua estatura”18. A Igreja católica do rito ocidental apresentava-se como a Igreja nacional, e a Igreja do rito oriental era considerada como “campestre”, em oposição à Igreja “senhorial” romano-católica. A Igreja católica do rito latino contava na Polônia dezessete dioceses. Todo primaz da Polônia era uma personalidade “primordial”. No período do interregnum exercia a função de interrex19. No século XVIII intensificavam-se os conflitos econômicos entre a Igreja e a nobreza, que, ameaçada de empobrecimento, buscava sobrecarregar os bens eclesiásticos com uma parte das obrigações em prol do Estado; e, para se livrar da obrigação de benefícios em prol da Igreja, procurava restringir os rendimentos do clero, principalmente a transmissão a eles das propriedades rurais20. Em relação com isso, foram proibidos sobretudo os donativos em prol dos conventos em forma de propriedades rurais herdadas e a fundação de novas casas sem a autorização da Dieta21. Um nobre que quisesse ingressar na vida religiosa tinha a obrigação de vender antes os seus bens a um comprador leigo22. A esse respeito ocorriam diversos abusos. Por isso a Dieta de 1764 aprovou de forma clara e categórica que “sem a autorização da República, proíbe-se a instituição de novas fundações e de novos legados ‘sob pena de invalidade’”23. Isso significava que antes da fundação de uma igreja ou convento era exigido o consentimento do poder legislativo. Na prática, muitas vezes se procedia ao contrário. No acerto de contas final muitos conventos, juntamente com os seus bens e legados, não conseguiam a aprovação da Dieta, o que levava − após a morte dos fundadores − a longos processos judiciais. A fim de aliviar a nobreza dos títulos das cotas pagas em prol da Igreja, a Dieta de 1775 baixou de 7% para 3,5% a tributação das somas locadas nos diversos bens da nobreza24. Dessa forma ia crescendo um 18 A. Guepin, Un chapitre de l’union des Eglises, I, Paris, 1897, 305. 19 B. Kumor, Ustrój Kościoła w Polsce stanisławowskiej, in: Historia Kościoła..., II/I, 97-98. 20 Vol. Legum, vol. III, 854. Uma resolução da Dieta de 1635 proibia que fossem doados à Igreja bens rurais. Isso foi confirmado pela Dieta em 1669; cf. Vol. Legum, vol. V, 16. Fala a esse respeito J. Mazurkiewicz, Ustawy amortyzacyjne w dawnej Polsce, Lwów, 1933, 18-21. Considerando que em Lublin, em 1761, de 113 prédios, 42 pertenciam à Igreja, e 38 eram obrigados a pagar juros em seu favor, não é difícil compreender a inquietação da nobreza; cf. J. Kłoczowski, Zakony męskie w Polsce w XVI- -XVIII wieku, in: Kosciół w Polsce..., 623-627. 21 Vol. Legum, vol. IV, 488 “Warunek”. 22 J. Wysocki, Dzieje Kościoła w Rzeczypospolitej w okresie stanisławowskim, in: Historia Kościoła w Polsce, vol. II/1, Poznań. 23 Vol. Legum, vol. V, p. 16. 24 Wysocki, Dzieje..., 90.

24 específico anticlericalismo da nobreza, que aliás demonstrava o seu apego à fé e à prática de obras de caridade. Na segunda metade do século XVIII, na República da Polônia surgiram nítidas tendências e posturas iluministas. Os precursores e iniciadores do Iluminismo devem ser buscados entre o clero. Levando em conta o número das pessoas religiosas, constatamos que elas constituem quase dois terços entre os militantes iluministas25; os católicos leigos queriam ver na Igreja uma instituição que se preocupasse sobretudo com a educação moral; para alguns deles, o padre devia ser não apenas um mestre dos princípios da fé e da moralidade, mas também de outras disciplinas, p. ex. do âmbito da economia e da medicina. Por isso os católicos “iluminados” se caracterizavam por uma aversão às ordens contemplativas, e eles apoiavam aquelas que “eram úteis”, como os jesuítas, os escolápios, os missionários e os teatinos. O ataque mais violento contra as ordens religiosas ocorreu após o ano 1760, quando foram elaborados os projetos que previam a parcial liquidação tanto das ordens religiosas como dos conventos, bem como a limitação do número dos religiosos26. Os animadores dessas reformas na Polônia eram: o primaz Gabriel Podoski (1719-1777) e os bispos Inácio Massalski (1729-1794) e André Młodziejewski (1717-1780), que exercia a função de Grão-Chanceler da Coroa27. Também o rei Estanislau considerava as congregações religiosas como inúteis e prejudiciais à sociedade28. Uma opinião semelhante era expressa por boa parte dos magnatas. Os bispos, por sua vez, exigiam a submissão dos religiosos à autoridade deles. Os religiosos na Polônia, apoiados pelo núncio, gozavam de uma posição suficientemente forte sobretudo entre a nobreza e o povo; as forças de oposição não tinham condições de levar adiante o programa de reforma acima apresentado29. 25 W. Czapliński, Zarys dziejów Polski do roku 1864, Kraków, 1985, 344; Gieysztor, Storia..., 223. 26 P. Cazin, Le prince-évêque de Varmie Ignace Krasicki 1737-1801, Paris, 1940; Jobert, La Comission d’éducation..., 60; Wysocki, Dzieje..., 73-80. 27 Uma opinião excessivamente exagerada e triste a respeito desse personagem é apresentada por Pastor, Storia dei papi, vol. XV/w, 292-293. 28 J. Śrutwa, Oświecenie w Polsce i jego wpływ na życie kościelne, II; 1; W. Chotkowski, Księcia prymasa Poniatowskiego spustoszenie kościelne w Krakowie, Kraków, 1918. O primaz Poniatowski, um grande reformador da época do Iluminismo, desejava também realizar reformas no seio da Igreja, por exemplo, refrear o desenvolvimento de ordens religiosas reconhecidas como pouco úteis. 29 Kłoczowski, Dzieje polskiego chrześcijaństwa, vol. I, Paris, 1987, 233.

25 A concepção da congregação e a sua realização A congregação dos padres marianos (Ordo Immaculatae Conceptionis B. V. Mariae Clericorum Regularium Marianorum, OIC − Congregação Polonesa dos Clérigos Regulares Marianos da Imaculada Conceição da Beatíssima Virgem Maria), fundada pelo Pe. Estanislau de Jesus Maria Papczyński, era a primeira congregação religiosa de origem polonesa30. Ao fundar essa congregação, Papczyński uniu-se a um grupo de eremitas em Puszcza Korabiewska. Ele queria que a nova comunidade propagasse o culto da Imaculada Conceição da Beata Virgem Maria e apoiasse os párocos no seu trabalho pastoral, especialmente em meio ao povo “simples”31. Essa concepção sofreu uma mudança quando a Puszcza veio inesperadamente (no dia 24 de outubro de 1673) o bispo S. Święcicki, que estava visitando a diocese. Ele ordenou aos moradores de Puszcza Korabiewska, que por ele foram chamados de eremitas marianos, a observância do decreto de visitação por ele expedido. Nesse dia os marianos obtiveram a primeira aprovação eclesiástica. O bispo Święciki conferiu ao mesmo tempo a essa comunidade o regulamento ad devotionem et poenitentiam ad recollectiones pertinentes32, estabelecendo com isso a sua orientação eremítico-penitencial de clausura estrita, que não era muito do agrado do Pe. Papczyński, porquanto restringia a sua dimensão apostólica. Em 1679 a congregação foi formalmente instituída de acordo com o direito canônico pelo bispo S. Wierzbowski, que num documento apropriado introduziu como objetivo principal a intercessão pelas almas do purgatório, “para de todas as formas, e principalmente pelos sacrifícios da santa Missa, pela recitação diária de todo o rosário e por diversas mortificações devolver o descanso eterno aos que sofrem os tormentos do purgatório, especialmente àqueles que pereceram em consequência das contínuas guerras, das frequentes pestes e outras calamidades, e que estão privadas de qualquer ajuda dos fiéis”33. 30 J. Majkowski, Papczynski Stanislas de Jesus Marie, in: Dictionnaire de Spiritualité, XII, Paris, 1984, 165-166; G. Navikevicius, Stanislao di Gesù Maria Papczyński (1631-1701), Scolopio e fondatore della Congregazione dei PP. Mariani, Roma, 1960; J. Kałkowski-C. Krzyżanowski, Papczyński Stanislao di Gesù Maria, DIP, VI, 1171-1176. Para uma apresentação mais ampla e mais exaustiva dos escritos de Papczyński, cf. Positio super Introductione Causae et super Virtutibus, Roma, 1977. Entre as dissertações mais antigas a respeito do Pe. Papczyński, até hoje goza de reconhecimento o trabalho de S. Sydry, Czcigodny Sł. B. O. Stanisław od J. M. Papczyński i jego dzieło, Warszawa, 1937. 31 Navikevicius, Papczyński..., 156-160; W. Nieciecki, Główne cechy duchowości Zgromadzenia Księży Marianów w świetle Konstytucji mariańskich w 1930 r., Roma, 1965, 16-17. 32 Navikevicius, Papczyński..., App., 25-27, Positio, Papczyński, 341-345, contém o texto completo dos “Documentos de visitação” publicado em forma crítica. 33 “In eum vel maxime finem instituere, ut omnibus modis et signanter per Missarum sacrificia, recitationem Officii Defunctorum et integri Rosarii quotidianam, aliasque mortificationes animas piacu-

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