A espiritualidade religiosa segundo Es Papczynski

256 vezes identificado com o desprezo de si mesmo (“contemptus sui”), é com frequência utilizado como uma figura retórica que serve para enfatizar os valores sobrenaturais, imutáveis e eternos e para apresentar a transitoriedade, e − por conseguinte – também o valor relativo deste mundo, incluindo igualmente o que o homem pode alcançar graças à sua própria ação. De acordo com o acima, como ensina numa das reflexões: “Se desprezares a ti mesmo, então sentirás como é doce o Senhor! Se todo te afastares do mundo, experimentarás quão amargo é o mundo! Porquanto, qual é o gosto, qual é o aroma que sentem aqueles que não apenas experimentam mas absorvem os prazeres corporais, as delícias do mundo e as babilônicas bebidas? Oh! Eles extrairão e beberão deles uma doçura efêmera, em razão da qual serão, no entanto, lançados no profundo abismo das eternas amarguras. Por séculos lamentarão por terem procurado satisfazer a sua natureza e jamais apagarão a sua culpa. Mas, pelo contrário, quanta permanente doçura se encontra na cruz, na paciência, nas mortificações, nas labutas, nas desgraças e injustiças sofridas e suportadas em espírito de imitação do Deus-Homem! Nessas coisas os amantes da cruz e do sofrimento encontram a abundância de intermináveis alegrias, de eternos consolos, de santa e eterna satisfação, ainda que apenas depois de uma encarniçada batalha e de escaramuças com o mundo, com o inferno e com as suas concupiscências. Tens a mão livre para escolher uma dessas duas opções, porque possuis o livre juízo e o livre-arbítrio. Vê, no entanto, com quanta prudência e com quanto proveito já escolheste uma delas ou ainda tens de escolher. Deves levar em conta o fim da vida de todos os seres humanos, que é dúplice, de acordo com o dúplice gênero do seu comportamento. O destino das pessoas dissolutas, desejosas de honras, que levam esta vida sem observar a lei é o castigo da morte eterna, segundo este pronunciamento: ‘Seu fim é a destruição’ [Fl 3:19]. E o destino das pessoas justas, dedicadas a todo o gênero de mortificações, obedientes e que perseverantemente vivem segundo as santas leis e regras é a glória imortal e a felicidade que consiste na incansável contemplação de Deus, do Bem Supremo, e numa vida sem morte e sem fim”130. Com efeito, os valores deste mundo não têm condições de satisfazer os anseios do coração humano, e aqueles que assim pensam estão enganados. A busca da amorosa união com Deus já aqui nesta vida faz nascer a esperança da permanência com Ele na eternidade e introduz, na opinião de Papczyński, novos anseios no espírito humano. Morrem os “desejos terrenos” (“terrena desideria”) e intensifica-se o anseio de que fala S. Paulo na Carta aos Colossenses (3:2), isto é, a busca “das coisas do alto” (“quae sursum sunt”)131. O real crescimento na eternidade de Deus realiza-se já no tempo presente, o que constitui 130 IC, p. 1019-1020. 131 Ibidem, p. 828.

RkJQdWJsaXNoZXIy MjI2Mw==