A espiritualidade religiosa segundo Es Papczynski

255 mitindo que sofrais muitas aflições e tentações, em breve – eu vos asseguro – me vereis novamente. Por pouco tempo chorareis, para vos alegrardes eternamente; por pouco tempo labutareis, para alcançar a eterna recompensa; por pouco tempo lutareis, para conquistardes a imortal coroa da glória. Porque em breve visitarei a minha vinha e a cada um darei o devido pagamento. Após um breve tormento, após o rápido encerramento desta vida temporal, digo-vos, eu vos concederei, meus prudentes e fiéis servos – aos quais instituí para minha família – [o dom] da minha eterna contemplação e dos intermináveis bens, tesouros e deleites encerrados nessa visão”126. A vocação religiosa vivenciada como o caminho do amadurecimento para a eterna vida do homem com Deus não apenas lembra ao mundo o destino final do homem, mas torna visível também a verdadeira hierarquia dos valores. O ingresso da pessoa humana no relacionamento com Deus, no qual ela tem o seu princípio e para o qual caminha, amplia o horizonte da vida humana além do tempo presente e introduz na vida divina, que, como enfatiza Papczyński, é proporcionada novamente ao homem por Cristo e a ele concedida sobretudo nos sacramentos127. A experiência da nova vida, decorrente da doação de Deus, da fé e do poder dos meios sobrenaturais, resulta no amadurecimento espiritual do homem e na sua fixação na eternidade. Toda ação é avaliada a partir da perspectiva da vida eterna, dela aproximando ou dela afastando. Isso explica as avaliações por vezes confrontativas das coisas deste mundo – terrenas (“terrena”) que Papczyński localizou em seus escritos, onde p. ex. escreve: “Para te tornares participante dessa glória [de Cristo], deves buscar e atingir o máximo desprezo do mundo e − digo-te – o desprezo de ti mesmo. Porquanto, como fala o Apóstolo, “os sofrimentos do tempo presente não têm comparação com a glória que deverá revelar-se em nós’ [Rm 8:18]”128. O ideal medieval aqui mencionado do desprezo do mundo (“contemptus mundi”), bastante vivo também na espiritualidade polonesa do século XVII129, encontra-se presente em muitas passagens de Inspectio cordis. No entanto, diferentemente da visão “nitidamente pessimista” do homem e do mundo presente nos textos literários daquele tempo, como opina M. Wiechowa, Papczyński lhe confere um sentido sobretudo escatológico. Nessa concepção, esse ideal, muitas 126 Ibidem, p. 707. 127 Ibidem, p. 730-733; cf. também: T. ROGALEWSKI MIC. Koncepcja życia chrześcijańskiego..., op. cit., p. 98-106. 128 IC, p. 612. 129 Cf. M. WIECHOWA. Idea pogardy świata i nędzy człowieka w literaturze polskiego baroku. In: A. NOWICKA-JEŻOWA; M. HANUSIEWICZ; A. KARPIŃSKI (red.). Literatura polskiego baroku. W kręgu idei. Referaty z konferencji zorganizowanej przez Katedrę Literatury Staropolskiej Katolickiego Uniwersytetu Lubelskiego w Kazimierzu nad Wisłą 18-22 X 1993. Lublin, 1995, p. 238.

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