251 religiosa e a eventual impossibilidade de solucionar algum problema, conclui que “é preciso suportar isso com muita paciência, pelo mérito da vida eterna”112. O conteúdo essencial da vida religiosa, identificado com o reino celestial, exige o abandono daquilo que não provém de Deus, para que na vida humana possa reinar o que é divino. Comentando a recomendação de Cristo dada aos discípulos para que primeiramente buscassem o reino de Deus, e tudo mais lhes seria acrescentado (cf. Mt 6:33), Paczyński observa: “O mundo acima de tudo e sempre busca o ‘resto’, e nunca o reino de Deus. Tu, por teres sido chamado por Deus para fora do mundo, não procedas irracionalmente com o mundo e não coloques no último lugar a preocupação mais importante com o reino de Deus”113. A contraposição adotada pelo autor de Inspectio cordis do “mundo” ao reino dos céus (de Deus) é uma das formas retóricas adotadas com bastante frequência para enfatizar os valores da vida religiosa e para salientar as suas fontes evangélicas. De forma semelhante também os diversos elementos da vida religiosa, identificados com os valores do reino dos céus, são contrapostos aos valores deste mundo, muitas vezes também reduzidos ao pecado e aos seus efeitos, tanto na dimensão individual como na social. Característico a esse respeito é o comentário à frase extraída do Evangelho segundo S. Mateus (6:33), no qual aconselha: “Peçam os outros as riquezas transitórias do mundo; tu deves pedir os eternos tesouros do céu. Que peçam dignidades e honras; tu, desprezando a ti mesmo, procura alcançar o céu. Eles exigem uma vida longa, a ciência e tudo que almeja o seu coração; tu, pede que em ti tudo se faça segundo a vontade divina e empenha-te pela feliz eternidade, pela salvação”114. Como se percebe, a polarização dos valores apresentada pelo beato Estanislau possui também um significado pedagógico, porquanto conscientiza os adeptos da vida religiosa da necessidade de fazer escolhas diárias de acordo com a opção de vida, bem como lembra a peculiar bidimensionalidade do ideal do reino celeste, porquanto aqueles que escolheram a Cristo e se entregaram a Ele pelos votos religiosos em certo sentido já possuem esse reino. Mas, por outro lado, uma definição mais adequada e igualmente de acordo com o pensamento de Papczyński seria a constatação de que os religiosos não tanto entraram na posse do reino dos céus quanto estão no processo de adquiri-lo. Servindo-nos da linguagem simbólica do autor de Inspectio cordis, poderíamos dizer que os religiosos, apesar de terem encontrado a pérola preciosa e de terem abandonado tudo para possuí-la, não se livraram totalmente da possibilidade de perdê-la. Além disso, essa posse é em certo senti112 NV III 1. 113 IC, p. 907; cf. também: T. ROGALEWSKI MIC. Teologiczne podstawy życia..., op. cit., p. 146147. 114 IC, p. 842.
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