A espiritualidade religiosa segundo Es Papczynski

245 patiebatur paenas purgatorii”). Foi então que, estimulado por uma santa compaixão e pelo máximo amor para com as almas que sofriam no purgatório, pronunciou as seguintes palavras: “Ó misericordiosíssimo Senhor, multiplicai o meu sofrimento e diminuí o castigo delas!”. Ordenou também que quanto antes fosse celebrada uma missa pelos falecidos que sofriam as penas do purgatório94. É preciso acrescentar que a Vita Fundatoris de Leporini não fornece as datas desses acontecimentos, no entanto pode-se supor que essas extraordinárias experiências místicas não estão localizadas no início das ações de fundação, mas num período posterior. E a construção do opúsculo induz à conclusão, que o autor queria apontar, de que no plano de Deus estava presente o formato definido da comunidade, e de que Papczyński, na sua fé e submissão a Deus, aos poucos ia amadurecendo na sua compreensão. Os elementos da espiritualidade e os objetivos da comunidade não são apenas uma invenção humana, mas têm uma origem sobrenatural, incluída na experiência do Fundador. Uma peculiar confirmação disso é a construção da segunda narrativa, que, passando da descrição dos acontecimentos em Studzianna e da recomendação para rezar pelos falecidos, é pre94 Ibidem, p. 645. Importa observar que a biografia de autoria de Leporini é um documento extremamente importante na interpretação da espiritualidade religiosa dos marianos. Foi nela, como na fonte primordial dos fatos biográficos da vida de Papczyński que se baseou o Servo de Deus Casimiro Wyszyński para escrever a sua Vita Venerabilis Servi Dei Patris Stanislai a Jesu Maria, embora lhe fossem também acessíveis outras fontes, identificadas e detalhadamente descritas na Positio de Papczyński. Em relação à ajuda aos falecidos, Wyszyński repete com Leporini ambos os acontecimentos, mas acrescenta diversos detalhes, por exemplo sobre a existência de uma imagem milagrosa em Studzianna, à qual se dirigiu o doente padre Estanislau; sobre o seu arrebatamento ao purgatório e o apelo a ele feito a respeito da tão necessária ajuda aos falecidos; sobre o fato de que o superior dos oratorianos era então o frei Estanislau Ligęza. Além dos dois mencionados, Wyszyński fornece mais um acontecimento de caráter semelhante, que ocorreu em Lubocza, e no final das descrições acima apresenta a sua própria interpretação a respeito da ajuda aos falecidos, proporcionada tanto pelo Fundador como pela sua comunidade. Embora se trate de uma argumentação um tanto longa, vale a pena citar ao menos uma parte dela, porquanto faz parte da tradição mariana, ainda que um pouco posterior, no entanto essencial para a história da Congregação dos marianos: “Entre os irmãos e os de fora reinava a opinião geral de que, todas as vezes que entrava em êxtase, ele era arrebatado ao purgatório. Ele mesmo, em lágrimas, costumava com frequência recomendar os falecidos aos irmãos em suas palestras e ao povo em seus sermões. Afirmava que maior é ali, no purgatório, o número dos falecidos que sofrem terríveis tormentos do que o número de todas as pessoas que vivem neste mundo. Todos compreendiam que isso lhe havia sido revelado. Esses falecidos ali permanecerão e sofrerão até que compensem por completo a divina justiça. Todas as suas dores, os sofrimentos, as dificuldades, as perseguições que sofria, os jejuns, as mortificações e outras ações piedosas ele oferecia pelos que permaneciam no purgatório. Obrigou seus irmãos a que se esforçassem por sempre lhes proporcionar semelhantes atos de caridade. Afirmava que a sua ordem, sob o título da Imaculada Conceição da SVM, Mãe Sensibilíssima e bondosíssima protetora das almas do purgatório, havia sido nos últimos tempos instituída na Igreja divina por Deus com o objetivo de sufragá-las de todas as formas. [...] A ordem dos marianos é simplesmente obrigada a empreender essa indispensável obra pelos falecidos. Nas Constituições por ele escritas incluiu orientações para que em seus sermões, em suas homilias e missões os irmãos dessa comunidade religiosa estimulassem todos os que creem em Cristo a demonstrar aos falecidos essa obra de caridade, prometendo aos fiéis o perdão prometido pelo próprio Cristo Senhor: ‘Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia’ . Realmente, acaso pode ser demonstrada uma obra de caridade maior do que a ajuda aos falecidos que tanto sofrem?”. K. WYSZYŃSKI, op. cit., p. 85ss; cf. também: Positio, p. 654-657.

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