A espiritualidade religiosa segundo Es Papczynski

216 Enquanto a Vita Fundatoris, de Leporini, não apresenta conteúdos relacionados com o voto da castidade, nas reflexões de Inspectio cordis Papczyński lhe dedica um significativo espaço, buscando localizá-lo no contexto da espiritualidade religiosa; algumas vezes, no entanto, fala mais da virtude da castidade do que do voto, embora em alguns textos introduza clara e distintamente tal distinção. Repetindo com Norma vitae que a castidade é uma virtude angelical, procura demonstrar o seu grande valor em relação à vida com Deus. Baseia essa afirmação na convicção de que “não existe nada de mais precioso, de mais eminente, de mais agradável a Deus que a castidade”160. O exemplo que confirma essa opinião é por ele extraído da biografia de S. Casimiro, que “mais se preocupou [com a castidade] do que mesmo com a própria vida”. Porque, quando os médicos, como remédio para uma doença mortal, aconselharam-lhe contrair um conveniente matrimônio, ele magnanimamente rejeitou esse remédio e, “para a admiração de todos os séculos e para a imitação de todos os obrigados pela lei a observar a castidade, disse: ‘Prefiro morrer a me manchar’. Assim falou, e com a ação confirmou essa resposta”161. Papczyński lembra, no entanto, que para a vida em castidade estimula sobretudo o próprio Cristo, tanto pelo exemplo da Sua vida como pela Sua doutrina. A castidade é uma das bem-aventuranças presentes nos Evangelhos, e a recompensa pela sua observância é a “feliz contemplação de Deus”162. Por isso, localizada pelo autor de Inspectio cordis no âmbito da vida com Deus, ela é uma das condições de um autêntico relacionamento com Ele, baseado no fundamento do amor, onde um dos anseios básicos é ver a quem se ama. A castidade como tal não é objetivo em si mesma; o Fundador dos marianos localiza-a no contexto do amor a Deus, que a condiciona e verifica. Por isso escreve: “Vã e enfatuada é a castidade a que falta, como companheira e protetora, a santa caridade”163. E na meditação dedicada à virtude da castidade o autor lembra aos religiosos que eles são obrigados a observar a castidade por três motivos: em razão da lei positiva de Deus, em razão do direito natural e em razão do voto. Essa situação, na opinião dele, impõe, no entanto, um maior desvelo pela sua ob160 IC, p. 835; cf. também: A. PAKUŁA MIC. Śluby zakonne w “Inspectio cordis”..., op. cit., p. 201. 161 IC, p. 835. 162 Vale a pena apresentar o comentário de Papczyński às palavras de Cristo que falam dos bem- -aventurados puros de coração: “’Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus’ [Mt 5:8]. A gradação que adotou Cristo Senhor, o Divino Mestre, é digna da mais profunda reflexão. Da pobreza, mansidão, aflição, misericórdia, chega finalmente à pureza. Aos pobres prometeu o Reino dos Céus; aos mansos, a posse da terra; aos aflitos, o eterno consolo; aos que tem fome e sede de justiça, a saciedade; aos misericordiosos prometeu a misericórdia. O que então prometeu aos que são puros de coração? A eles assegurou a beatífica visão de Deus. Portanto, se vês que pela pureza são estabelecidas maiores recompensas, com tanto mais diligência vigia o teu coração. Porque, se o coração manchado conduz à perda da contemplação de Deus, a sua preservação na pureza traz a garantia da obter a visão de Deus”. IC, p. 931. 163 Ibidem, p. 1003.

RkJQdWJsaXNoZXIy MjI2Mw==