A espiritualidade religiosa segundo Es Papczynski

213 pessoa pobre. Em segundo lugar, o voto da pobreza é unicamente o sinal exterior do amor a Cristo acima de tudo e da total ligação com Ele como o “Bem Supremo”. E, visto que – na opinião do Fundador dos marianos – o coração humano pode amar apenas um objeto de amor, em nome da fidelidade a Cristo devem ser rejeitadas quaisquer expressões de amor a qualquer coisa fora d’Ele. É preciso observar aqui que Papczyński localiza a pobreza em relação àquelas faculdades do homem que se encaminham ao objeto do amor. Tal concepção fornece critérios claros da pobreza ou das suas aparências. As opiniões a esse respeito foram expostas na meditação a respeito do significado de Mt 5:3, onde ensina: “Reflete que o Senhor chama de bem-aventurados não aqueles pobres que vivem em estado de miséria, mas os pobres em espírito. Porque, se alguém, não possuindo nada, traz em si o desejo de possuir tudo, não é bem-aventurado, mas pobre. [... ] Não penses também que é realmente pobre em espírito aquele que por amor a Cristo deixou tudo, mas reteve o grande desejo de possuir alguma ninharia ou honra, ou a glória do seu nome! Esse pobre é um hipócrita! Engana a si mesmo! Tu serás bem-aventurado e te tornarás verdadeiramente pobre se te contentares apenas com o Cristo recebido no Santíssimo Sacramento. Pede-Lhe [... ] que seja a tua parcela, a tua herança e o teu tesouro, no qual estarão confirmados e para sempre firmemente enraizados a tua mente e o teu coração”147. A terceira razão do especial amor de Cristo à pobreza, para a qual chama a atenção o autor de Inspectio cordis, é a capacidade de “dedicar-se apenas aos assuntos do Espírito” e a entrega dos religiosos apenas ao ministério da salvação; como exemplo de tal postura, aponta para os Apóstolos148. A pobreza praticada, como enfatiza Papczyński, é também um meio que serve à erradicação dos defeitos e das tendências desordenadas ou até pecaminosas da natureza humana, que são, sobretudo, a concupiscência, o amor à posse, o apego a coisas, pessoas, lugares, honrarias, poderes, etc. Por isso a busca da pobreza espiritual encerra em si a dimensão da luta espiritual, pois, “quanto mais a concupiscência e o amor à posse estão ocultas, com tanto maior atenção devem ser investigados, descobertos e rejeitados”149. Uma advertência para os religiosos, e ao mesmo tempo um exemplo negativo de submissão “à ganância, inimiga diversas vezes nos textos de Papczyński. Vale a pena, então, apresentar um dos trechos que abordam esse tema: “’Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus (Mt 5:3)’. Presta atenção ao fato de que a Sabedoria Celestial colocou essa bem-aventurança em primeiro lugar. Não fez isso por outro motivo a não ser para demonstrar que, entre as demais, essa é a que mais Lhe agrada. S. Basílio fala: ‘Porque quis nascer de uma Mãe pobre, numa mísera estrebaria, para que, envolvido em miseráveis faixas, fosse colocado numa manjedoura [cf. Lc 2:7]’”. IC, p. 928. 147 Ibidem, p. 822; cf. também: A. PAKUŁA MIC. Ślady zakonne w “Inspectio cordis”..., op. cit., p 200. 148 IC, p. 995. 149 IC, p. 994.

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