A espiritualidade religiosa segundo Es Papczynski

212 desse voto, a preocupação de preservar a devida simplicidade e o espírito da autêntica pobreza, com a ausência mesmo de aparências de excesso, parecem apontar a uma inspiração da parte da ordem franciscana, de que era membro o beato Gilbert Nicolas, diretor espiritual de S. Joana de Valois, e que teve uma significativa influência no formato da Regula decem beneplacitorum, sobretudo na sua versão definitiva142. As reflexões de Inspectio cordis ampliam sensivelmente a perspectiva da compreensão do voto da pobreza. Papczyński aprofunda sobretudo a sua dimensão teológico-espiritual, em muitas passagens baseando as suas reflexões em textos da Sagrada Escritura. Primeiramente, à semelhança de Norma vitae, alude ao apelo dirigido por Cristo aos Seus discípulos a abandonar tudo (cf. Mt 19:21) e argumenta que essa é a única forma de “seguir os passos de Cristo e alcançá- -Lo”. Ao mesmo tempo enfatiza o “acúmulo de tesouros”, na sua opinião insensato, porquanto “assim mesmo com esses bens não podem possuir a Deus como o Bem supremo”143. Papczyński identifica aqui a riqueza com a bíblica mamona (cf. Mt 6:24). Concluindo essa parte das suas reflexões, lembra apropriados textos do Novo Testamento e afirma que “aos ricos é muito difícil entrar na vida imortal, como a esse respeito testemunha verdadeiramente a própria Verdade. [... ] Ao contrário, essa mesma Verdade diz que os pobres herdarão os bens imortais”144. Para fundamentar o seu argumento, repete a frase do Evangelho de S. Mateus (Mt 5:3): “Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus”. Na ocasião esclarece também que Cristo amou a virtude da pobreza mais que todas as outras, e “recomendou-a em Seus conselhos e mandamentos evangélicos quando ordenou aos Apóstolos que não levassem bolsa nem cajado [cf. Mt 10:10; Lc 9:3]. Queria que aqueles que se decidissem a seguir os Seus passos soubessem que devem renunciar ao mundo, aos amigos, às riquezas e finalmente a tudo [cf. Mt 19:21; Lc 14:26.33]. E tu, seguindo a doutrina e a sugestão do Salvador, ficaste nu em razão d’Ele, renunciando, abandonando e fugindo do mundo, dos seus bens e dos teus pais que vivem no mundo”145. A convicção de Papczyński a respeito do maior amor de Cristo à pobreza parece resultar pelo menos de três causas, para as quais frequentemente aponta em seus escritos religiosos. Em primeiro lugar, o próprio Cristo escolheu a pobreza quando, “tendo deixado o céu, nasceu nu numa estrebaria”146 e levou uma vida de 142 Cf. Ph. ANNAERT. Le Père Gabriel-Marie Nicolas et l’héritage de Jeanne de France. In: D. DINET; P. MORACCHINI; Sr. M. E. PORTEBOS OMV (red.). Jeanne de France et l’Annonciade. Actes du coloque international de l’Institut Catholique de Paris (13-14 mars 2002). Paris, 2004, p. 27-64. 143 IC, p. 995; cf. também: A. PAKUŁA MIC. Idea doskonałości zakonnej..., op. cit., p. 52. 144 IC, p. 995. 145 IC, p. 996. 146 Ibidem, p. 995. O motivo do desnudamento na encarnação e no nascimento de Cristo aparece

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