209 isso, em uma das suas meditações Papczyński afirma sucintamente: “Falsa e inútil é a obediência que é empreendida e praticada sem amor”132. Cristo deixou o verdadeiro exemplo da obediência cumprida na Sua doutrina e nos Seus atos e, por ter sido obediente ao Pai, salvou o mundo. Esse deve ser também o caminho dos religiosos, porque, cumprindo o voto da obediência, eles não apenas santificam a si mesmos, mas contribuem para a salvação dos outros. Numa das meditações Papczyński apresenta as seis condições da verdadeira obediência. Em primeiro lugar, ela deve ser cumprida de forma única e singular (“unice”), cuidadosamente, com espírito de iniciativa, com exatidão, onde a medida peculiar do voto seja uma execução da atividade recomendada tal “que com mais perfeição isso não poderia ser feito”. Em segundo lugar, “com amor” (“dilecte”), isto é, a única motivação do voto deve ser “o puro amor a Deus e ao próximo”, não um motivo qualquer, p. ex. a vanglória ou a recompensa temporal. Um traço da autêntica obediência é também que ela deve ser cumprida “prontamente” (“prompte”), passando-se imediatamente da ordem recebida à sua execução, sem que haja a necessidade de a ordem ser repetida muitas vezes, “sem pressões e estímulos adicionais”. Uma outra marca é a ação “constante” (“constanter”), que se expressa na fiel permanência no cumprimento do ato da obediência apesar de todas as adversidades, dificuldades, desestímulos, cansaços e sugestões do espírito mau que induzam ao abandono das ações empreendidas. Um atributo da autêntica obediência é também a ação “valorosa” (“fortiter”), que se expressa em “induzir o espírito a coisas pesadas e difíceis”, e “fiel” (“fideliter”), buscando o contínuo progresso nessa virtude e a erradicação das falhas que a ela se opõem. Uma obediência assim praticada, como conclui Papczyński, é fonte de felicidade, protege contra concepções errôneas da perfeição evangélica e do perigo de perder a salvação; mas, acima de tudo, assemelha a Cristo e é muito agradável a Deus133. Em razão disso, então, liberta a pessoa de si mesma, para que se possa entregar ao Deus amado acima de tudo. 132 Ibidem, p. 1003; cf. também: A. PAKUŁA MIC. Idea doskonałości zakonnej..., op. cit., p. 48-50. 133 Cf. IC, p. 987-989. Para as características aqui enumeradas da verdadeira obediência Papczyński também chama a atenção em outras passagens de Inspectio cordis, embora nem sempre elas sejam apresentadas e enumeradas tão sistematicamente como ocorre na meditação dedicada a essa questão. No entanto, para a ilustração dessas abordagens, vale a pena apresentar uma das reflexões semelhantes: “Do autêntico espírito da verdadeira obediência faz parte a pronta disposição a executar toda tarefa, ainda que pareça impossível de ser realizada. Visto que a obediência é onipotente, supera todas as dificuldades e leva sempre ao fim qualquer coisa que tenha empreendido. Tu, portanto, que recebeste no Santíssimo Sacramento o Filho do Pai Imortal, obedientíssimo ‘até a morte’, cuida para seres obediente a quem deves obediência. Cuida para não afastares de ti tudo aquilo que tens a obrigação de cumprir e que Deus pelos Seus sucessores ordena que executes. Toma cuidado, porque é melhor estar disposto, é melhor morrer do que ser desobediente”. IC, p. 684-685.
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