A espiritualidade religiosa segundo Es Papczynski

208 a Deus” em toda a sua vida espiritual e em todas as ações empreendidas, mas de maneira especial enfatiza dois momentos decisivos da sua biografia: o primeiro quando, “obediente à voz de Deus”, afastou-se da Ordem das Escolas Pias e no momento de aceitar o indulto do afastamento professou o ato da “Oblatio”; o segundo quando, “para demonstrar a seu Senhor maior obediência, sentindo-se estimulado pela Sua inspiração, estabeleceu os fundamentos do seu Instituto”128. A única menção à observância do voto da obediência é uma breve síntese do tempo em que permaneceu com os escolápios, onde se assinala que Papczyński “com tanta obediência e zelo era obediente às ordens e recomendações dos superiores como se ouvisse neles a voz do próprio Deus”129. Leporini opta por uma interpretação estritamente sobrenatural da obediência, buscando demonstrar que ela é uma espécie de estilo de vida humana inteiramente entregue a Deus; graças a tal postura de Papczyński, Deus pôde servir-se dele para a instituição de uma nova comunidade religiosa. Volumetricamente, o beato Estanislau Papczyński dedicou mais espaço ao voto da obediência em Inspectio cordis, onde, da mesma forma que em Norma vitae, vê na pessoa de Cristo um exemplo de obediência que o espanta e ao mesmo tempo inspira130. A cristiformização da pessoa, como objetivo fundamental desse voto, conduz à incessante descoberta da vontade de Deus, ao seu cumprimento e a uma união mais estreita da pessoa com Deus, a exemplo do Encarnado Filho de Deus. É também uma forma de crescer na postura de filiação divina, de se tornar um verdadeiro irmão de Cristo, visto que “Seus irmãos são as pessoas obedientes, cumprindo assim a Sua vontade [cf. Lc 8:21] como Ele cumpriu a vontade do Pai, que está nos céus”131. Por isso, embora a obediência pressuponha a renúncia à vontade própria, a rejeição dos próprios planos e aspirações, esse tipo de renúncia não é um fim em si mesmo, porque deve resultar do desejo de imitar a Cristo e conduzir à assimilação a Ele. E o que deve animá-la é o autêntico amor a Deus, visto que também Cristo se guiou pelo amor ao Pai. Por 128 Vita Fundatoris, p. 639ss. 129 Ibidem, p. 638. 130 Vale a pena apresentar uma das reflexões características, que é dedicada à passagem que fala da obediência de Jesus a Seus pais (Lc 2:41-52): “’E era-lhes submisso (Lc 2:51)’. Cristo te ensina agora a mui sublime virtude da obediência, não pela quantidade de palavras, mas pela eloquência do exemplo, quando vês como é submisso à vontade dos pais. Ó Jesus, mais aqui me espanta que com submissão obedeces a José do que ver que pelo poder de admiráveis palavras e ciência convences os sábios judeus! Porque, o que há de espantoso em que debates com eles com a máxima sabedoria, se és a eterna Sabedoria? Mas quem poderia deixar de espantar-se porque Tu, o Senhor do Céu, voluntariamente te submetes aos pais, porque como Deus és obediente aos homens? Meu Jesus, contemplando o Teu exemplo, reconheço o valor e a necessidade da virtude da obediência. Porquanto foi necessário que fosse obediente aos pais Aquele que mais tarde devia ser obediente aos carrascos e ao qual o mundo todo devia ser submisso. [... ] A obediência é, com efeito, o verdadeiro testemunho e a prova de toda santidade”. IC, p. 632. 131 Ibidem, p. 683.

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