202 mulando a uma adequada disposição da própria alma, em princípio primeiro familiariza um pouco com algum aspecto do mistério da Eucaristia, a fim de despertar a adequada ação das faculdades espirituais da pessoa108. Embora ele não tenha dúvida de que esse sacramento permanecerá sempre um mistério da fé, procura familiarizar com o seu conteúdo e, apontando por vezes para a sua grandeza e sublimidade (porque expressa o inconcebível amor de Cristo ao homem), busca ao mesmo tempo estimular os justos anseios do coração humano. Nessa situação exclama: “Ó amor! Ó ternura! Ó liberalidade, graças à qual, Jesus, nos proporcionas o Teu Corpo! Para que nós, miseráveis pecadores, conscientes da nossa vileza, não receemos aproximar-nos da Tua Divindade, Tu mesmo pessoalmente nos convidas; para que, como pessoas de lábios contaminados, não tenhamos medo de degustar o santíssimo Banquete, Tu mesmo a ele nos estimulas; para que, atemorizados pela majestade, não temamos consumir o Pão dos Anjos, dizes: ‘Tomai e comei’. E um argumento mais importante de amor e liberalidade é que a ninguém excluis desta santa mesa, mas a todos dizes: ‘Tomai”. Por isso, subjugado por tão grande bondade e afabilidade de quem convida, embora seja uma pessoa de lábios impuros, eu abro para Ti, Deus bondosíssimo, a minha boca e o meu coração; faça-se em mim segundo a Tua palavra!”109. Tem ao mesmo tempo o Fundador dos marianos a consciência de que a Eucaristia é de alguma forma “indefesa”, que pode ser recebida indignamente, e o exemplo de tal postura é Judas. Admoesta, então, que numa situação de permanência em pecado, ou seja, quando “alguém não possui a veste nupcial, isto é, a boa intenção e a consciência limpa”, não deve receber a santa Comunhão, pois em tal caso esse sacramento é “prejudicial”, e aqueles que o recebem “expõem-se à perda das suas almas”110. O simbolismo da veste nupcial, na abordagem de Papczyński, não apenas aponta para a apropriada disposição, mas sobretudo significa a categoria do “novo homem”, que vive em estado de graça e virtude. Aqueles que em tal estado recebem o Corpo de Cristo e bebem o Seu Sangue “a cada apro108 Um exemplo típico desse tipo de reflexão é o comentário a 1Cor 11:28, onde escreve: “Considera que a preparação para a santíssima Comunhão não é apenas uma coisa útil, mas também, por imposição, indispensável, e isso porque: 1) a santa Comunhão é um banquete celestial, então, será que os que se dirigem a um banquete não devem preparar-se para ele?; 2) na santa Eucaristia se encontra o verdadeiro Deus e Homem – e mesmo os que vão visitar reis não fazem isso levianamente, e aqui afinal se trata de Deus; 3) o Santíssimo Corpo de Cristo é para as almas uma espécie de remédio, e será que os que vão tomar um remédio não devem preparar-se adequadamente para isso?; 4) trata-se de um alimento muito delicado e, por isso, se alguém quiser sentir o seu gosto celestial, necessariamente deve consumi- -lo em recolhimento; 5) esse ‘Pão’ é o pão da ‘vida’, mas não serão com ele alimentados aqueles que o consumirem sem uma preparação da alma; 6) se cada obra divina deve ser empreendida com grande ponderação e com a preparação da alma, isso vale tanto mais para aquela que é a recepção do Corpo Divino. Por isso, não te aproximes da santa mesa levianamente, mas pensa quem é Aquele a quem receberás e por que receberás esse alimento”. IC, p. 872-873. 109 Ibidem, p. 873. 110 IC, p. 1028.
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